terça-feira, 29 de setembro de 2009

Autárquicas 2009 - Debate na Golpilheira



Listas de candidatos à Freguesia da Golpilheira
.
CDS
Anabela Ferreira Lopes
Paulo Jorge da Cruz Bagagem
Filomena Maria Bento Monteiro de Meneses
Margarida Vieira Grosso de Matos
Luís de Sousa Guerra
Maria da Luz do Rosário Rodrigues Ferraz
Ana Paula Vieira Lucas
Joaquim do Rosário Monteiro
Maria Helena Silva Vieira Matos
.
PS
José Carlos Reis Ferraz
Joaquim Monteiro Filipe Vieira
Maria Irene Moreira de Sousa
Paulo José Alves Ferreira
Joaquim Manuel Bento Monteiro
Sandra Isabel Soares Alves
Paulo Jorge de Almeida Vieira
Marta Inês Valério da Silva
Carlos Miguel da Silva Moreira
.
PSD
Carlos Alberto Monteiro dos Santos
José dos Santos Silva
Maria de Fátima Carreira de Sousa
Joaquim Lopes Cruz
Cesário Rodrigues dos Santos
Cristina Maria de Carvalho Agostinho
Paulo Manuel Rodrigues Antunes Rito
Armando Pereira de Sousa
Joana Rita Grosso Valério
.
Publicamos de seguida os textos de campanha enviados pelos cabeças-de-lista à Junta de Freguesia da Golpilheira e à Câmara Municipal da Batalha...


Candidatos à Freguesia da Golpilheira
 
Anabela Lopes - CDS-PP
As razões para acreditar numa mudança sustentável são mais que muitas. Se por um lado é preciso desenvolver e inovar, por outro é fundamental não comprometer o futuro dos habitantes. É este futuro que nos preocupa, e que foi o mote principal da candidatura do CDS/Independentes à freguesia da Golpilheira. Com a liderança de Anabela Lopes e toda uma equipa determinada e dinâmica nos mais variados níveis, sem dúvida que seremos capazes, não apenas de ver, mas sobretudo de vencer barreiras. São as pessoas que fazem parte desta equipa o factor chave para impulsionar mais-valias à freguesia, e com elas, temos ainda a certeza que os egoísmos e demais interesses altruístas serão deixados de lado.
A realidade salta à vista de todos, e não somente dos mais atentos. As necessidades ao nível estrutural são muitas, não apenas no que respeita à área desportiva, mas também no que concerne aos aspectos sociais e culturais associados à Golpilheira. Preocupam-nos as pessoas desta freguesia.
Sabemos que há muitas coisas por cumprir, pelo que não vamos acrescentar mais promessas ao rol que teima em existir. Prometemos sim, uma política de trabalho e de luta, uma política que acompanhe de perto as necessidades e os direitos fundamentais da nossa freguesia. É imprescindível impulsionar o tão falado polidesportivo, que infelizmente volta a ser alvo de campanha. Propomo-nos a valorizar não apenas o desporto e os jovens, mas também a nossa população idosa, com a criação de condições que satisfaçam necessidades básicas.
Desenvolveremos as estruturas rodoviárias, a iluminação pública, a formação dos habitantes, as actividades lúdicas e a criação de espaços de recreio. Não esqueceremos as actividades ambientais e o apoio à agricultura.
Reconhecemos que o tempo é de crise, mas temos de ser persistentes e acima de tudo valorizar os recursos da nossa própria freguesia.
Dia 11 de Outubro será o marco da mudança para todos aqueles que acreditam num futuro melhor, e que assim depositam a confiança em nós.
Conscientes de todas as dificuldades, uma certeza indiscutível temos, tal como o CONDESTÁVEL VAMOS LUTAR e desta forma a JUNTA VAI MUDAR, a GOLPILHEIRA VAI GANHAR.
 
José Carlos Ferraz - PS
A equipa que concorre à Junta de Freguesia da Golpilheira é constituída por gente dinâmica, experiente e conhecedora da realidade da Golpilheira. Uma equipa sem interesses pessoais, disposta a trabalhar com responsabilidade e isenção durante todo o mandato e não apenas no início e no final quando as eleições estão à porta. Sendo o nosso lema "A Golpilheira é a nossa casa", é nossa intenção chamar todos os golpilheirenses a participar na definição de prioridades e identificação das situações que contribuam para a melhoria da qualidade de vida, desenvolvimento e bem-estar efectivo da população.
Propomo-nos, entre outras coisas, promover a melhoria da acção social, da saúde e da segurança das populações; promover o desenvolvimento urbanístico; promover o desenvolvimento económico e ambiente; promover a educação e a cultura e apoiar e promover a juventude e o desporto.
Pretendemos e tudo faremos para sermos uma Junta de Freguesia que colabore com a Câmara Municipal, mas saiba ser crítica e independente quando os valores e ambições da freguesia da Golpilheira estiverem em causa. Pretendemos ainda que o funcionamento da Junta seja transparente, com objectivos práticos e que correspondam aos anseios da população.
Contamos com a confiança e apoio de toda a população, porque "A Golpilheira é a nossa casa" e por ela estaremos disponíveis para trabalhar e dar o nosso melhor.
 
Carlos Alberto Monteiro dos Santos - PSD
Candidato-me a um segundo mandato, porque entendo ser fundamental seguir o rumo que nos últimos quatro anos foi traçado, e o apoio que me tem sido transmitido motiva-me a continuar a transformar a Freguesia passo a passo e de acordo com as prioridades gerais.
Conseguimos educar a maioria dos golpilheirenses, no sentido de perceberem as reais competências de uma Junta de Freguesia. Pedem-nos mais do que aquilo que podemos e conseguimos fazer, mas nunca diremos que não vamos tentar responder aos anseios da população. Seremos, como fomos, mais uma força do vosso lado.
Neste momento, lidero uma equipa renovada e dinâmica, com provas dadas ao serviço da comunidade e da imagem que os golpilheirenses têm da sua Junta de Freguesia, a forma como as questões são abordadas directamente pelo executivo, sem tempos de espera, nomeadamente na parte de secretariado.
No entanto, facilmente diagnosticamos a falta de uma infra-estrutura de apoio aos mais velhos, que passam os dias sozinhos. Ainda neste mandato e durante a construção do edifício-sede da Junta de Freguesia, decidimos que o espaço do piso inferior seria para ocupar com um centro de convívio para satisfazer essa necessidade. Basta que um grupo de voluntários se reúna e crie uma dinâmica que permita a abertura do espaço, ainda antes do final do ano de 2009.
No próximo mandato, continuaremos a tentar encontrar um espaço junto ao rio Lena para lançar um parque de lazer. Nunca é demais lembrar que a Golpilheira é das poucas freguesias da região que não tem baldios a gerir, daí a dificuldade de recorrer a um privado.
Lembro, também, o papel fundamental que a Junta de Freguesia irá ter para a construção do pavilhão desportivo: o projecto é da nossa autoria e o Município avançará com a obra (cerca de 600 mil euros), assim que tiver autorização do Ministério do Ambiente.
Resumindo, se novamente for merecedor da confiança dos eleitores, continuarei a ser o que fui, abordando com frontalidade e estando presente onde me compete estar.
 


Candidatos ao Município da Batalha
 
Horácio Moita Francisco - CDS-PP
Porque somos defensores da Coerência, da Dignidade e da Seriedade, ao contrário do nosso adversário, que já tem 16 anos de poder + 4 de vereador, o que temos de considerar ser muito tempo, para pouca obra feita. Para além de ter vendido a sua alma, a troco não sabemos de quê, nem porquê. Mas, possivelmente, poderemos pensar?
Por acreditarmos, e estarmos dispostos a trabalhar pelo concelho, para encontrar soluções para os muitos problemas que afectam as populações da, em suma, a Batalha, Golpilheira, Reguengo e São Mamede. Porque não queremos, nem desejamos ver, o adiamento de projectos prometidos e não cumpridos há mais de 12 anos, não vamos, nem desejamos fazer promessas em vão.
Vamos ter um lema para cumprir, que é Trabalho, Trabalho e muito Trabalho, na defesa do projecto em que acreditamos, "a Batalha em Acção, um projecto para o Concelho", nas áreas da Saúde, Cultura, Associativismo, Desportiva, Juventude, Modernização Autárquica, Educativa, Formação Profissional, Informação e Comunicação Social, Agrícola, Politica Social e Terceira Idade, Transportes e Acessibilidades, Habitação e Urbanismo, Ambiente, Turismo, Desenvolvimento, Saneamento, Infra-estruturas, Económica, Comercial e Industrial.
A candidatura CDS/Indep., liderada por Horácio Francisco e a sua equipa, assume ambicioso projecto para a Batalha, garantindo estar já a trabalhar, para assim que for eleita, tomar decisões inadiáveis que, em "quatro anos, coloquem o Município da Batalha, na rota da inovação e do desenvolvimento".
Queremos acabar com 12 anos de inércia de António Lucas, agravados nestes últimos 8 anos, com a bandeira do PSD, o concelho tem vindo a sentir a sua mudança pela negativa, devido à clara incapacidade vivida pelo seu actual presidente, que apenas é bom a fazer a política de charme e da demagogia. Em contraste, com a inovação e progresso, de crescimento e desenvolvimento que o CDS levou a cabo, enquanto esteve à frente dos destinos do concelho, cujos frutos foram visíveis entre 1989 e 1997, com Raul Castro.
Daí que a candidatura do CDS/Indep. à Câmara Municipal e aos restantes órgãos sinta que a CÂMARA VAI MUDAR, a BATALHA VAI GANHAR. Também a população do concelho aparenta estar com essa forte vontade, de recuperar o tempo perdido e fazer uma Batalha próspera, sem a política da hipocrisia e da demagogia.
 
José Joaquim Filipe Valentim - CDU
As eleições autárquicas vão realizar-se num quadro de crise económica, social e financeira bastante grave, cujas consequências económicas atingem gravemente a região e o concelho da Batalha em particular.
Todos sentimos diariamente o agravamento das condições de vida e de trabalho. O concelho tem hoje cerca de 500 desempregados.
Os candidatos da CDU são mulheres e homens da nossa terra, que a estimam e querem dar o seu contributo para que se torne um lugar melhor para viver e trabalhar.
Merecem confiança, porque se revelaram na luta por melhores condições de vida e de trabalho.
A CDU defende a modernização dos Serviços Administrativos, melhor articulação com as Freguesias, o reforço dos Serviços do Município a fim de garantir a maior capacidade da realização directa.
A CDU trabalhará pela rápida concretização dos investimentos prometidos para a Freguesia da Golpilheira, pelo correcto ordenamento do território, modernização da agricultura, de condições para a fixação da indústria, o desenvolvimento do comércio, do turismo. O desenvolvimento equilibrado e sustentado do concelho. A gestão sustentável dos recursos disponíveis, a defesa dos recursos hídricos, do Rio Lena, do ambiente, dos recursos naturais.
A CDU defenderá a Escola Pública, com refeitórios de qualidade e dotada dos meios indispensáveis à conveniente formação dos jovens. A qualidade do ensino profissional iniciado pela Escola de Artes e Ofícios Tradicionais da Batalha, cuja tentativa de encerramento foi contrariada pelo deputado do PCP, Miguel Tiago, agora integrada nas Escolas Secundárias. A qualidade da rede pré-escolar e das actividades de tempos livres. Serviço de Atendimento Permanente na Batalha, uma rede de Centros de Dia, uma rede de serviços de apoio social. A qualificação da rede viária, o IC 9 e a variante do IC 2 sem portagens.
Para a melhoria da qualidade de vida na nossa terra, é indispensável eleger os candidatos da CDU. O compromisso assumido pelos candidatos da CDU merece toda a Confiança.
 
Francisco Meireles - PS
Enquanto candidato à Câmara Municipal da Batalha e sendo fiel ao meu princípio de equidade de todas as freguesias na distribuição de recursos e serviços, proponho-me tratar a Golpilheira, atendendo à exiguidade das receitas de uma freguesia pequena e sem muitos recursos económicos que lhe permitam um plano de desenvolvimento sustentado, de modo a que os seus habitantes possam usufruir das mesmas condições que os habitantes de qualquer outra freguesia do concelho.
Particularmente gostaríamos de ver a Golpilheira servida por uma rede viária de qualidade, com passeios de protecção aos peões, com um percurso pedonal que a ligasse à Batalha pelas margens do Lena, um pavilhão Gimnodesportivo digno (que tem pelo menos 4 anos de atraso), um sistema de regulação do caudal do Lena de modo a estender o espelho de água até à Golpilheira mantendo o nível freático que sempre serviu o vale e que agora se encontra em perigo.
Penso ainda, em colaboração com a Câmara de Leira, melhorar a mobilidade dos golpilheirenses em direcção a Leiria, requalificando a velha estrada da Malaposta e criando um eixo viário Casal Mil Homens – Casal da Cortiça – Leiria.
Relativamente à área da saúde, a Unidade de Saúde da Golpilheira será integrada na Unidade de Saúde Familiar (USF) de modo a que, no horário não abrangido pelo médico de família residente, os utentes possam ser sempre atendidos sem necessidade de recorrer ao SAP. As USFs regem-se pelo princípio de atendimento no dia a todos os utentes que a ela se dirijam, o que irá varrer definitivamente da memória dos golpilheirenses as noites passadas à porta da Unidade de Saúde para conseguir uma consulta e que actualmente já se não verifica. Vamos ainda implementar um serviço moderno, no âmbito do Simplex, para marcações de consultas e renovação de receituário para doenças crónicas via Internet.
Podem os golpilheirenses contar comigo para todas as ocasiões e dificuldades. Se for Presidente será para estar ao serviço das populações, promover o seu bem-estar e aumentar a sua qualidade de vida.

António Lucas - PSD
Porque devem votar na minha lista para a Câmara Municipal?
Porque não devemos correr riscos desnecessários, votando no desconhecido, quando podemos escolher quem tem provas dadas, quem tem as melhores e mais capazes equipas, quem já demonstrou que a honestidade e a competência são pontos de honra;
Porque sabem que ninguém destas equipas se aproveitará dos lugares públicos para daí retirar benefícios pessoais;
Porque sabem que conhecemos bem a Lei, os circuitos do Estado e da Administração, facilitando a resolução de problemas;
Porque sabem que iremos continuar a ter fortes preocupações de carácter social, através da implementação de mais programas e medidas que facilitarão a vida aos mais desfavorecidos, como é o caso do apoio nos medicamentos, das isenções e reduções nas mensalidades de ATL e refeições das escolas, da criação de centros de convívio para idosos, da criação do banco de ajudas técnicas, da boa articulação com as IPSS e colectividades, da criação do banco de voluntariado, da criação em parceria da loja social;
Porque sabem que continuaremos a manter o concelho com elevados índices de qualidade de vida;
Porque sabem que continuaremos a pagar a tempo e horas aos nossos fornecedores;
Porque sabem que iremos aproveitar até ao último cêntimo todas as verbas do QREN, para tornar o concelho da Batalha ainda mais desenvolvido e sustentável;
Porque sabem que temos já garantidos investimentos apoiados pelo QREN no montante de 20 milhões de euros;
Porque sabem que connosco as termas serão uma realidade;
Porque sabem que continuaremos a apostar fortemente na educação, no desporto e na cultura, áreas fundamentais para o desenvolvimento equilibrado de qualquer sociedade;
Porque sabem que a educação será sempre prioridade com qualidade, arrancando os ATL e refeições na hora certa, para melhorar as condições de vida das jovens famílias;
Porque sabem que implementámos o FINICIA e o Micro Crédito e tudo iremos fazer para continuar a criar boas condições para as empresas gerarem emprego e riqueza;
Enfim, porque sabem que a porta da vossa Câmara estará sempre aberta.
Quanto aos projectos mais específicos, encontram-se disponíveis no endereço http://www.batalhasolidaria.com/
 
 
 
 

Cumprido o sonho de "chegar em primeiro lugar à minha terra"

Atleta golpilheirense Olivier Pedroso ingressa no Centro de Alto Rendimento do Jamor

Olivier Pedroso nasceu em França, mas é golpilheirense desde os cinco anos. E é um nome promissor do atletismo nacional, tendo já no currículo o título de Campeão Nacional de 3000 metros obstáculos. Iniciou-se nesta modalidade desportiva com 14 anos, mas hoje, com 18, os Jogos Olímpicos constam já na lista dos seus objectivos. Estudante de Gestão no Ensino Superior e atleta a construir uma carreira profissional, concretizou este ano o sonho de "chegar em primeiro lugar à minha terra", ao vencer a Prova Mestre de Avis.
Numa entrevista de Bárbara Abraúl, gentilmente cedida ao nosso jornal, revela em primeira-mão que acaba de ingressar no Centro de Alto Rendimento do Jamor, a "fábrica de campeões portugueses".
Entrevista de Bárbara Abraúl
 
Quantas horas treinas por semana?
Treino, em média, três horas por dia, uma de manhã e duas ao final da tarde. Normalmente, faço os bidiários quatro vezes por semana. O domingo é a "folga", o único dia em que tenho a certeza de que treino só uma vez.

Por que clubes já correste?
Actualmente corro pelo Maratona Clube de Portugal. Porém, iniciei-me na Juventude Vidigalense e agradeço muitíssimo ao Prof. Paulo Reis que sempre me apoiou. No que toca à próxima época, já recebi alguns convites importantes que estão a ser considerados, pelo que poderá haver novidades nesta matéria.
Quais são as provas ou competições em que já participaste e que consideras mais importantes?
O dia mais importante da minha curta carreira é, sem dúvida, o dia em que fui Campeão Nacional na disciplina dos 3000 metros de obstáculos, pois trabalhei quatro anos para conseguir esse objectivo. A primeira vez que representei Portugal teve, de igual forma, um grande valor para mim. A participação no Campeonato da Europa de Juniores em Novi Sad (Sérvia) foi um sonho tornado realidade, assim como o dia em que fiz os mínimos para esse mesmo campeonato da Europa. Também a minha estreia na 1ª divisão (equivalente à superliga no futebol), aos 17 anos, foi um ponto alto.

Existe algum momento que te tenha marcado de um modo mais especial?
Na realidade, até tenho muitos. O mais especial foi, sem dúvida, o de correr com as cores de Portugal. Mas existe um momento, tenho a consciência de que 99,9% dos atletas não diria o mesmo, que foi ganhar a geral da prova da minha terra (Mestre de Avis), sendo apenas júnior, que me realizou pessoalmente. Quando era mais novo pensava "um dia hei-de chegar em primeiro lugar à minha terra", o que concretizei este ano. Também nunca esquecerei o meu primeiro dia em Lisboa: a poluição mal me deixava respirar e o meu treinador pôs-me logo a treinar com o olímpico António Travassos e outros dois colegas de treino que são profissionais. Eu tinha 17 anos e, como é óbvio, levei uma "coça": fui o caminho todo a chorar para casa e essa semana foi muito difícil. Contudo, isso fez-me crescer e hoje penso que "eu quero treinar é com eles"". A minha primeira ida ao estrangeiro como atleta foi igualmente marcante, assim como correr ao lado do Rui Silva na prova que o homenageia, onde estavam milhares de pessoas a gritar "Vai Rui" – nunca tinha visto nada assim em Portugal. Há ainda a salientar o facto que ter conhecido o meu actual treinador (Prof. Osvaldo Apolinário) revolucionou completamente a minha forma de treinar e a forma como encaro o atletismo.

É notória a tua admiração pelos teus treinadores, mas quem é o teu grande ídolo no mundo do atletismo?
A minha grande referência é o Stefano Baldini, campeão olímpico da Maratona em 2004. Mas, logicamente, também admiro muito os portugueses Carlos Lopes e Rui Silva.


Em que pensas antes de uma corrida?
Agradeço sempre a Deus a preparação ter corrido bem e, naturalmente, peço-Lhe forças para honrar a camisola que visto e para que, caso ocorram dificuldades, não ter medo.

Segues algum tipo de dieta?
Tenho um cuidado geral com a minha alimentação, principalmente quando estou a competir. Na fase de treino gasta-se muito, pelo que também se come muito, e além disso mantenho uma atenção especial para com a hidratação. Ambos os aspectos são essenciais na parte do "treino invisível", quando se quer evoluir.

A tua família apoia-te?
Sim. Não entendem algumas coisas específicas, porque "isto do atletismo" é muito mais do que correr, mas não me posso queixar e apoiam-me em tudo o que faço na vida.

Quais são os teus grandes objectivos?
O meu grande desejo inicial era levar o atletismo de uma forma profissional, o que acabou de acontecer com a minha integração no Centro de Alto Rendimento do Jamor (estou-vos a dar a notícia em primeira mão). Vou para a "fábrica de campeões portugueses" onde, sem dúvida, a residente mais ilustre é a super-campeã Vanessa Fernandes. Vou dedicar-me a 100% ao atletismo e já penso que tudo é possível: tenho o meu grande objectivo de carreira fixado, mas prefiro deixá-lo para mim e para o meu treinador, para não criar grandes expectativas, até porque só o espero realizar entre 2016 e 2020. Uma "meta" que pretendo atingir a longo prazo e que posso referir é, caso surja a oportunidade, participar nos Jogos Olímpicos em 2016, pois 2012 ainda é muito cedo. Quero ir aos Jogos com os 3000 m obstáculos, mas sonho, numa fase posterior, fazer a Maratona, a competição rainha de todos os desportos. A curto prazo, pretendo ir ao Europeu de Corta-Mato que se realiza em Dublin, no próximo mês de Dezembro.


Explica melhor o que é o Centro de Alto Rendimento do Jamor?
O Centro de Alto Rendimento do Jamor recebe e prepara atletas para a participação em provas internacionais, como os Jogos Olímpicos. Nesta instalação estão presentes as condições necessárias para ter sucesso, tanto desportivo como nos estudos. As despesas de cada atleta são comparticipadas até 100% pelo instituto.

O que te motiva a "ir mais longe"? Alguma vez te sentiste desmotivado?
Primeiramente, queria ganhar na minha escola e a nível distrital, depois foi a minha cruzada a nível nacional... Agora estou na fase em que começo a olhar para os melhores europeus e quero derrotá-los. Quando se passa um patamar, quer-se sempre o outro que está à frente. Já me senti muitas vezes desmotivado, mas felizmente a última vez já foi há algum tempo.


Estás a tirar Gestão no ISCTE, em Lisboa. Sentes que há alguma área, estudos ou atletismo, que pode ficar para trás?
O problema é que ficam as duas para trás, porque tento conciliar as duas e acabo por não estar ao nível que quero em nenhuma delas. No entanto, acho que este ano o atletismo se sobrepôs um pouco: em termos desportivos não fiz uma época de sonho, mas sim uma época surreal, este ano foi "super bom". Agora já não vou ter tantas dificuldades, uma vez que vou alargar o meu prazo de finalização dos estudos para me dedicar à alta competição, mas sem esquecer a faculdade, claro. Esta sempre foi a minha vontade, porque já tinha percebido que para atingir os meus objectivos é impossível conciliar os estudos e a alta competição a 100%, devido a estágios, tempos de repouso, etc. Ser-se atleta é olhar esta profissão 24 horas por dia.


Há alguma lição que tenhas aprendido no atletismo?
A principal é que às vezes até posso ser pisado e massacrado, mas tenho sempre de pensar positivo e que amanhã darei a volta por cima.


Finalmente: o que sentes ao ganhar ou perder?
A sensação de ganhar é indescritível e, sem dúvida, vale a pena passar ao lado de muitas das diversões que a idade proporciona, o que para mim está longe de ser um sacrifício. Por outro lado, a derrota faz parte do crescimento e, como em tudo na vida, temos de aceitá-la para progredir.
 

Regresso às aulas na (quase) normalidade

Novo ano lectivo 2009/2010

Entre 9 e 15 de Setembro, mais de um milhão e meio de alunos portugueses pegaram nas mochilas, rumo a mais um ano lectivo. No concelho da Batalha, os cerca de três mil estudantes foram chamados no último dia deste prazo, dos quais 59 (25 meninos e 34 meninas) a frequentar a Escola do 1.º Ciclo do Ensino Básico da Golpilheira. Em relação ao ano passado, a nossa freguesia tem menos sete alunos neste escalão de ensino.
Entretanto, tinham já começado as actividades pré-escolares, com o Jardim-de-Infância da Golpilheira a abrir as portas no dia 9 de Setembro a 34 crianças entre os 3 e os 5 anos (18 meninos e 16 meninas). Neste caso, entrou o mesmo número dos que saíram para o 1.º ano escolar, pelo que se mantém a mesma lotação, dividida em duas salas. Assim, no total, as instituições de ensino da Freguesia acolhem 93 educandos, sendo 43 meninos e 50 meninas.
Quanto ao modo como decorreu este arranque na Golpilheira, houve alguns contratempos iniciais, mas rapidamente se atingiu a normalidade. O principal problema foi a ausência de professor para a sala onde se junta o 1.º e o 3.º anos, motivada pela baixa médica da professora Isabel Gonçalves, que está em processo de aposentação e não voltará a leccionar, tal como informou na reunião com os pais, decorrida no dia anterior ao início das aulas. Assim, nos primeiros dois dias os alunos ficaram entregues às animadoras das ATL, por não serem disponibilizados professores substitutos pelo Agrupamento de Escolas da Batalha (AEB). Esta situação começou a preocupar alguns encarregados de educação, que foram pedir explicações à sede do agrupamento na manhã do dia 17, com a presidente da Comissão de Pais. Segundo a direcção do AEB, o problema estava em vias de solução e só não tinha sido ainda resolvido por "falhas no sistema de disponibilização de professores" por parte dos serviços centrais do Ministério da Educação. Nessa manhã tinha sido atribuída mais uma professora à Batalha, mas havia quatro situações urgentes do mesmo género para resolver nas escolas do Concelho. Acabou, de facto, por dar entrada na nossa escola no dia seguinte, sexta-feira. Chama-se Nathalie Neves.
Registamos ainda a chegada da nova assistente operacional Maria de Lurdes Brites, que vem substituir Ana Santos, bem como de um novo educador para a sala 1 do jardim-de-infância, Paulo Martins, já que a educadora Lora Magalhães se aposentou este ano.
Agradecemos o trabalho e dedicação que tiveram os que deixam agora as nossas escolas, damos as boas-vindas aos que chegam, e desejamos a todos (educadores e educandos) um bom ano escolar!
Luís Miguel Ferraz


Câmara esclarece decisão
Acesso à escola volta a ter dois sentidos

Realizou-se, no dia 14 de Setembro, véspera de abertura de aulas, uma reunião dos professores com os pais, tendo em vista a boa articulação para o decorrer das actividades. Falou-se de programas, calendários, material escolar, procedimentos regulamentares e... claro, da Gripe A. Sem alarmismos, importa salientar a prevenção, onde a higiene cuidada tem um papel fundamental.
Uma das questões abordadas foi o regresso dos dois sentidos de trânsito na rua do Paço, que serve de acesso à escola do 1º CEB da Golpilheira. Alguns dos presentes manifestaram incompreensão pela marcha-atrás na decisão de ali se circular apenas num sentido, assunto que ali foi apresentado pela presidente da Comissão de Pais como consequência do caso particular de acesso a uma moradia. Deu-se a entender que "com alguma boa vontade" do proprietário, a via poderia continuar a ter sentido proibido ascendente.
O Jornal da Golpilheira foi saber junto da Câmara da Batalha quais os verdadeiros motivos da decisão. Segundo comunicado da autarquia (ver publicação integral na pág. 11), ao longo do período em que vigorou o sentido único (Setembro de 2008), a Comissão Municipal de Trânsito recebeu nota de situações "que poderiam pôr em risco pessoas e bens".
Partindo da sinalização destes casos, a comissão fez com a GNR uma verificação no local e, em relação ao referido morador, constatou "a impossibilidade de aceder à via pública no sentido de circulação do trânsito automóvel". Verificou, além disso, que "pode estar em causa a segurança de pessoas e bens" por outros motivos, como o facto de "alguns condutores aumentarem significativamente a velocidade instantânea no troço da rua em causa". A conclusão é que a alteração que fora efectuada "visava uma melhor fluidez do trânsito junto à escola do 1º CEB da Golpilheira, o que não se tem verificado".
Foi em resultado deste processo que a Comissão de Trânsito ditou o seu parecer: "após cumpridas todas as formalidades legais, sejam repostas as condições de trânsito anteriormente existentes".
Verifica-se, assim, que o problema não era apenas a impossibilidade de um morador sair de casa sem efectuar manobras de alto risco, mas também "a constatação de excesso de velocidade e infracção frequente à proibição, inclusive com condutores a subir de marcha-atrás em sentido proibido", como relata a GNR, o que tornava a estrada ainda mais perigosa para os condutores e, sobretudo, para as crianças que passam a pé na faixa de rodagem, pois não têm passeio.
Perante este cenário, faz todo o sentido o apelo final que foi feito na reunião de pais: apesar de ter dois sentidos, será bom que os pais procurem circular sempre em sentido descendente, sobretudo nas horas de maior fluxo de entrada e saída de alunos, pois o cruzamento de veículos é impossível em grande parte da rua. Ao mesmo tempo, pelo facto de ter dois sentidos, deverão conduzir a baixa velocidade e com todo o cuidado, pois poderão cruzar-se com veículos ou peões e só assim evitarão com segurança o eventual risco de acidente grave.
LMF

Portugal, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e o 624.º aniversário da Batalha Real de Aljubarrota


Alocução proferida no dia 14 de Agosto de 2009, na Capela de Fundador do Mosteiro da Batalha

Por Saul António Gomes


“Abriu em pedra o grito imenso do seu peito
Tornou arquitectura a épica ansiedade!”
João de Barros, poema “O Povo”,
in Vida Vitoriosa (1919)



O uso da palavra, por mim, nesta ocasião tão solene em que comemoramos o seiscentésimo vigésimo quarto aniversário da Batalha Real de Aljubarrota, justifica-se pelo amável convite que me foi dirigido pelo Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal da Batalha, o qual penhoradamente agradeço.
É convite honroso que não poderia declinar, mas para cujo cumprimento não possuo o saber, sequer a arte e a inspiração de bem escrever que se exige para perorar sobre o acontecimento histórico que nos reúne neste lugar. Substitua, no entanto, a árida palavra do historiador o verso elegíaco do poeta.
Este é o alvo templo da memória portuguesa, em cujo seio, no silêncio finito que se respira nesta Capela do Fundador, no passar dos dias que são séculos, nos confrontamos permanentemente com a questão pátria, com a questão do sentido, ontem e hoje, da pátria portuguesa, no tempo histórico mas também cósmico que Santo Agostinho procurou aprisionar na metáfora dos três presentes: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro.
É sobretudo em torno desses dois presentes, o presente do passado e o nosso presente que gostaria de incidir nesta breve alocução ou elegia que tenho o privilégio de proferir perante vós.
Reis e ínclitos infantes repousam nesta Capela cujos nomes a História não esqueceu nunca e que todas as gerações de portugueses sempre aprenderam a recordar e a venerar. A alguns destes príncipes de Portugal devemos monumentos literários fundadores da própria língua que é a primeira pátria em que nascemos e somos educados. D. João I, D. Duarte, o Infante D. Pedro valorizaram prioritariamente o português como língua de criação artística e, no seu perfil de habitantes de uma Europa que cultivava as humaniores litterae, nunca sobrepuseram à palavra portuguesa a declinação latina.
Importa confessar, ainda, que o elogio das armas portuguesas que derrotaram a soberba castelhana naquela distante tarde de 14 de Agosto de 1385, e que este monumento comemora como o mais importante legado patrimonial justamente dedicado à preservação da memória desse feito e ao enaltecimento de Portugal, mereceram já a outros escritores páginas soberanas. Muitos desses escritores, curiosamente, nada dizem acerca deste monumento e do seu significado, mas outros houve que o fizeram, assim equilibrando o saldo da memória de um feito histórico, entre o crédito da recordação e o débito do esquecimento, sobre o qual D. João I, o rei da Boa Memória, e seu filho e sucessor, o Eloquente, como também os Infantes D. Pedro — “Príncipe no mundo raro! / Sobre tanto desamparo, / foram três seus filhos reis.”, Sá de Miranda) — e D. Henrique, tudo fizeram quanto estava ao seu alcance para que não fosse nunca esquecido.
Para todos nós, que aqui nos congregámos, neste que é o mais predestinado lugar do encontro dos portugueses com a sua própria História, comemorar o dia 14 de Agosto poderá ser um acto de cidadania e de afirmação de identidade. É-o efectivamente. Mas, olhando o Portugal que ficou lá fora, aquele que não comemora e vê maçada no espírito histórico, aquele que ignora e que não sente já a luminária do exemplo dos antepassados, esses portugueses a banhos que não são já os filhos de marinheiros desnudos e de lavradores pobres que dominaram os mares nunca de antes navegados e construíram o mapa que desconheciam (“Navegavam sem o mapa que faziam” escreveu Sophia de Mello Breyner Andersen, Navegações, VI), olhando esse Portugal, dizia, ficamos com boas razões para duvidar do sentido propedêutico da comemoração histórica no País contemporâneo.
Cumpre reflectir, em verdade, as razões porque este monumento, no que comemora, parece tão esquecido e omitido na balança da actualidade portuguesa. Os profissionais da comunicação social de hoje, mormente nos grandes media televisivos, não possuem nem sensibilidade, nem o saber histórico essencial sobre o seu País. E, no entanto, Portugal é um dos países ocidentais com mais forte historicidade e sentido de nacionalidade ao nível de um ponto de vista popular. Não há tempo para exemplificar, mas parece-me significativo que em todos os grandes ciclos comemorativos que Portugal levou a cabo, após 1974, o Mosteiro da Batalha tenha ficado sempre ausente salvo parcas e envergonhadas referência de rodapé em painéis fotográficos e pouco mais.
Pergunto-me como é que é possível que se tenha chegado a este plano de desconhecimento e de ignorância. Aquele que é a barca memorial da identidade portuguesa, levantado para perpétua memória do feito da Batalha Real de Aljubarrota de 14 de Agosto de 1385, encontra mais eco na alma do povo simples e sem grandes estudos que por aqui passa, feitas as preces em Fátima, do que entre as elites académicas e os especialistas do património nacional que tudo decidem longe. Todo o português que o é, como escreveu Miguel Torga, devia, pelo menos uma vez na vida, peregrinar até este templo de brando calcário em que cintila a questão essencial do português: o seu ser e a lógica do ser português.
A geração de portugueses que fundou este monumento teve de fazer opções definitivas em situações de extrema adversidade e de crise política profunda. Falamos de uma geração de combatentes, de mancebos na casa dos vinte anos de idade chamados ao combate e à guerra, ao extremo sacrifício da própria vida por um ideal de soberania e de pátria. D. João I contava então 27 anos e o seu Condestável. D. Nuno Álvares Pereira, 25 anos. Nessa faixa etária e ainda na flor da adolescência estavam muitos outros soldados nas suas alas popularizadas como dos Namorados e da Madressilva. Pois bem, a esses jovens foi imperioso decidir entre viver ou morrer; entre viver num reino livre e independente da sujeição castelhana ou num solo sujeito a essa arbitrariedade. A questão, como referimos, era a da vida ou morte, a da “pátria ou morte”.
Em 2009 não parece haver qualquer contexto para a reposição da questão. Dar a vida, hoje, pela Pátria é uma questão que de todo não fica bem enunciar. E, no entanto, a época contemporânea está ainda cheia de memórias em torno dessa decisão última de qualquer homem: viver, sujeitando-se, ou morrer nas garras de uma luta heróica por ideais pátrios.
Em 14 de Agosto de 1385, o temor e o medo de uma morte iminente mostrava-se nos rostos dos combatentes portugueses, do “pequeno exército” que eram, tamanha a sua desvantagem face ao inimigo. Venceram na entrega total a uma fé e a uma ideia: a de que a razão estava do seu lado; a de que era neles e por eles que a lealdade portuguesa se honrava. Por isso deram tudo, pelas suas vidas, pelas suas famílias, pelo seu rei, pelo seu Reino. É possível que um lema usado pelos revolucionários cubanos, já em nossos dias, o de “Pátria ou morte”, seja aquele que melhor nos permite compreender o que ecoava nos pensamentos desses leais portugueses nessa tarde distante, toda ela vestida de fogo e sangue na terra almagre de S. Jorge, de 14 de Agosto de 1385. Pelo exemplo citado, creio, poderemos tentar compreender melhor o que motivava os nossos antepassados, a força vital de um ânimo que deitou por terra o estandarte inimigo.
Só uma forte consciência nacional explica a tenacidade, o tudo ou nada, o viver ou morrer que foram lema, consciência e ânimo vital que deu força e confiança ao pequeno exército português. Não acreditassem esses valorosos soldados num destino pátrio, encarnado num Rei e na liberdade sagrada de pertencer ao povo a sua escolha, e todas as estratégias militares teriam sido pouco mais que nada. Noutros momentos históricos, outras gerações de portugueses foram chamadas a fazerem opções semelhantes. Fizeram-no, por exemplo, na Guerra da Independência aberta em 1640, na Grande Guerra de 1914-1918 ou, já no nosso tempo, os nossos pais que combateram na Guerra do Ultramar.
Não era Portugal, em 1385, um mito, nem as nações, cumpre considerá-lo, se constroem sobre mitos. Os mitos são invenções culturais, as nações são construções geracionais. A continuidade de uma nação, naturalmente, necessita da garantir a transmissão da sua memória. O dever primeiro de um cidadão está na lealdade para com os seus e de todos para com a pátria que lhe é berço.
Lealdade, eis uma palavra que lemos na divisa que se repete mil vezes nas Capelas Imperfeitas. E nesta mesma Capela do Fundador, ecoam motes, lemas de vida, que não nos podem deixar indiferentes: “Pour bien” (D. João I), “J’ai bien raison” (Infante D. João), “Le bien me plet” (Infante Santo D, Fernando), “Talent de bien fere” (Infante D. Henrique), eis quatro delas onde o conceito de “bem” é central. Fazer bem, agir por bem, a razão do bem e o bem como razão, o talento de fazer bem e o bem. E outras memórias ressoam no silêncio destes muros como esse “Y me plet”, que lemos junto à efígie de D. Filipa de Lencastre, e o misterioso “Désir”, aberto no sarcófago do Infante D. Pedro, o autor do Livro da Virtuosa Benfeitoria.
Fazer e bem, uma vez mais, como mote de uma época onde os portugueses foram chamados a escolher e escolheram bem, o bem que lhes deu a vitória decisiva e que culminará na divisa desse Senhor do Mundo, el-rei D. João II, “Rei de muitos reis” (Sá de Miranda), que agia “pro lege et pro grege”, pela Lei e por Portugal.
Pouco adianta, como vemos, que a historiografia portuguesa hodierna reticencie a noção de pátria e que acentue que essa ideia de pátria era, em 1385, totalmente diferente da de hoje. Fica claro que não perfilho desta leitura porque, desde logo, os princípios pátrios são civilizacionais e intemporais, ou seja, não envelhecem, enquanto ideia e espírito, ainda que as gerações dos homens os possam observar com intensidades e debaixo de perspectivas diferentes no tempo e no modo de manifestação.
A força anímica que fez da Batalha o símbolo maior da identidade nacional e o panteão das gerações de ouro da Dinastia de Avis, aquela que impôs o Mundo à Europa e a desbloqueou para a modernidade e para a globalização que toca a todos os povos, sem excepção, nem sempre foi visível. Foi preciso esperar pelo Século XVIII e pela curiosidade de estrangeiros cultos que visitaram este Monumento para que Portugal voltasse a olhar para ele, considerado por alguns como construção maravilhosa, e magnífica, apreciado sobremaneira pelos ingleses e de tal modo, como se manifesta no legado de James Murphy, que nele se inspirariam para propagar no Reino Unido a seiva de um neo-gótico vitoriano de matriz batalhense.
Mas o Mosteiro de Santa Maria da Vitória atingiu o ano do fim, em 1834, exangue e a necessitar de obras de recuperação verdadeiramente profundas. Expulsos os frades e primeiros guardiães desta memória portuguesa, o edifício viu agravar-se o seu estado de decadência. Devemos a Luís Mousinho de Albuquerque, prontamente apoiado pelo rei D. Fernando II, a partir de 1840, em boa medida, a sua salvação.
A inteligência nacional oitocentista ignorou, sintomaticamente, este monumento. Excepção feita a Fr. Francisco de S. Luís, que lhe dedicou uma Memória histórica apresentada à Academia das Ciências, em 1822, na qual sublinha o carácter português do monumento, como excepção é, neste panorama, Alexandre Herculano que evoca o Real Mosteiro, no seu popular conto “A Abóbada”. Almeida Garrett, por seu turno, no seu poema Camões, renova o elogio da terrível Aljubarrota, mas silencia o seu monumento matricial. A Geração de 70 passou-o em silêncio, mesmo, e sobremodo, o seu historiador mais fecundo e brilhante, Oliveira Martins, a quem devemos as biografias de D. Nuno Álvares Pereira ou dos Filhos de D. João I, por cujas páginas, na sua primeira e melhor edição, o Mosteiro é apenas um filactério gótico sugestivo em desenho de ilustração de página de mudança entre capítulos.
Esse “País de suicidas”, como lhe chamou Miguel de Unamuno, inspirando-se em Manuel de Laranjeira, viveu pouco, creio, a memória patrimonial portuguesa. Refizeram os Jerónimos, descobriram, em boa medida graças a escritores e diletantes estrangeiros, o manuelino português, restauraram, como lhes foi possível, este monumento. Mas então, como hoje, este lugar maior da identidade nacional ficou esquecido. Eça de Queiroz, que viveu em Leiria, não o achou digno de qualquer nota significativa para além de uma fugaz carta postal daqui endereçada a um amigo. Elogiou-o, mas não sem lhe apontar um excesso sombrio sobre a arte da renascença em Portugal e de criticar asperamente as “restaurações” que sofria, Ramalho Ortigão (O Culto da Arte em Portugal, 1896), encontrando o monumento melhores páginas de valorização em Vilhena Barbosa (1886). Poucos mais nele atentaram e, entre os que o fizeram, sobressaem nomes estrangeiros (Beckford, Lichnowsky, Raczinsky, Haupt, Dieulafoy, Baedeker).
É preciso esperar por Afonso Lopes Vieira (Onde a terra se acaba e o Mar começa, 1940; Nova demanda do Graal, 1942), e ainda assim num país que o marginalizou e que enjeitou o melhor do integralismo lusitano, para que a poesia pátria se inspire neste templo da memória. Nem os neo-realistas, nem os existencialistas encontraram, neste mausoléu pátrio, inspiração digna de realce. Foi preciso aguardar por Miguel Torga (A Criação do Mundo, IV, 1939; Portugal, 1950) para o vermos entrar na grande literatura que em português se tece entre cujas laudas se impõem as que lhe dedica José Saramago (Viagem a Portugal, 1995).
E, contudo, foi neste Mosteiro que despertou a vocação de historiador de um Jaime Cortesão (Portugal: a Terra e o Homem), como foi na sua Sala do Capítulo, sob o olhar do esguio arquitecto que sonhou tão ousada abóbada, que, em 1922, o Presidente da República António José de Almeida confiou a este templo a guarda das ossadas dos Soldados que na Europa e em África combateram por uma Europa livre. Neste Mosteiro e no chão estremenho em que fundou os seus alicerces sólidos onde Torga descobriu, espantado, páginas maiores de uma História de Portugal que se guarda como coisa secreta dos portugueses.
Formulamos votos, e este é o monumento mais apropriado para propor um voto, de que o Real Mosteiro de Santa Maria da Vitória, no conteúdo simbólico que preserva, barca e arca da memória pátria, vença as muralhas de silêncio e de omissão a que tanto o têm sujeitado, num Portugal distraído dos seus princípios, aborrecido senão envergonhado, ao nível das suas elites bem-pensantes, quiçá, do seu passado em que se rasgaram novos mundos e se pagou o elevado preço dessa ousadia; num País em que o sentido da comemoração histórica, ensopada entre festivais de comes e bebes, apouca a dignidade do acto evocado e dispensa quase sempre o saber do historiador.
Não assim, Senhoras e Senhores, neste 14 de Agosto de 2009, neste altar cívico em que Portugal se consagra e os portugueses encontram, neste dia de hoje que é o presente do futuro, a razão de se ser uma nação livre e independente, renascida de uma opção extrema entre vida ou morte. Não pode ter sido essa uma questão vã e sem sentido.
Seja para os que caíram em 14 de Agosto de 1385, seja para todos aqueles nossos conterrâneos e antepassados que pereceram em todas essas outras tardes de Agosto, na Flandres ou em outro qualquer lugar, em que Portugal foi chamado a combater. Desde há vários séculos que este monumento proclama o bem português, numa só e única opção, sem desvios, num só coração, numa só voz e num só querer. Sem isso, não parece possível compreender o significado histórico deste Lugar de encontro em que, nesta hora já vespertina de 14 de Agosto de 2009, temos o privilégio de estar e de nos sentirmos, hoje como sempre, mais portugueses e orgulhosos de o sermos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Edição 147 - Agosto 2009

Veja página a página toda a edição de Agosto de 2009
(Clique em cima da imagem para ampliar)

Editorial | Imagens de luz e palavras de fogo

O tempo quente leva-nos a sair, a tirar férias, a festejar. Procuramos paisagens coloridas, seja para gozo do calor num areal, seja na fuga até paragens refrescantes. É tempo propício para apreciar as imagens, desde as que passam fugazes pelos caminhos percorridos até às que se guardam no registo da máquina. Imagens de luz, movimento e alegria. Por isso, nesta edição damos espaço às imagens. Mesmo que a preto e branco, elas são o retrato mais fiel dos momentos felizes e coloridos deste mês de Agosto e das festas. Mais do que as palavras de uma descrição, valem os sorrisos que saltam em cada foto.

Mas o texto tem também lugar, quando entramos em festejos que significam muito mais do que a aparência. É o caso do nosso feriado municipal de 14 de Agosto, este ano com mais um motivo de orgulho no palmarés: a recente canonização de Nuno Álvares Pereira, o herói de Aljubarrota, de Portugal e de Deus.

Mas este é também o tempo em que começamos a preparar o regresso ao trabalho. E é de palavras que precisamos para aprofundar os assuntos que teremos entre mãos. O novo ano escolar vai trazer a novidade da Educação Sexual obrigatória em todas as escolas, um assunto que tem andado em lume brando, cujo fogo poucos ainda sentiram, mas que promete escaldar em Setembro. Porque a pressa da lei não corresponde à sua necessária preparação... e é a formação da personalidade dos nossos filhos que está em jogo. A não ser que deixemos ao Estado essa tarefa, cruzemos os braços e deixemos andar... nesse caso, está tudo bem. Pelo menos, até ao dia em que eles nos atirem à cara essa traição.

Destaque | (Que?) Educação Sexual obrigatória

Abertura do ano escolar promete nova polémica

A partir do próximo ano lectivo, a Educação Sexual será "objecto de inclusão obrigatória nos projectos educativos dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas", como determina a lei n.º 60/2009, que já foi publicada em Diário da República. Assim, "o projecto de educação sexual" deverá ser elaborado pelo director de cada turma, com alguns professores de uma equipa interdisciplinar, designando os conteúdos e iniciativas a promover, numa carga horária "não inferior a seis horas para os 1º e 2º ciclos e a 12 horas para o 3º Ciclo e Secundário".
A mesma equipa, que será dirigida por um professor-coordenador para a área da Educação para a Saúde e Educação Sexual, terá também a seu cargo a gestão do gabinete de informação e apoio, que deverá funcionar "pelo menos uma manhã e uma tarde por semana" e disponibilizar "um espaço na internet" para responder a questões dos alunos.
O problema é que ainda não foram definidas as matérias que serão ensinadas nem quais os professores que as vão leccionar e que habilitações deverão ter. Apesar de o Ministério da Educação garantir que irá promover a formação de docentes, não explica como. E, se é para começar neste ano lectivo, já devia ter sido feita. Tal como sucedeu com o computador "Magalhães", os professores voltam a acusar o Governo de avançar com medidas antes de formar os professores para elas. Mas, dada a matéria de que agora se trata, o problema é bem mais grave e sensível do que foi o do referido brinquedo.
Uma das vozes que já se fez ouvir sobre o assunto foi a dos sindicatos, que afirmam a sua preocupação com o número "escasso" de professores com formação ou especialização nessa área. "O sistema não está preparado para responder em larga escala, ou na sua generalidade" a esta lei, referiu Carlos Chagas, presidente do Fenei/Sindep. "Não conhecemos especialização nessa área; se algum professor a fez, pagou-a do seu bolso e deve ser uma gotinha num oceano. E também não é uma formação que se dê em meia dúzia de horas", reitera Lucinda Dâmaso, da Federação Nacional dos Sindicatos de Educação.
Há um acordo na sociedade sobre a pertinência deste tema. Os princípios colocados na sua base são importantes, tais como "acabar com a discriminação e violência baseada na orientação sexual, reduzir gravidezes não desejadas e infecções sexualmente transmissíveis, defender a igualdade entre os sexos e a capacidade de protecção face a todas as formas de exploração e abuso sexuais, promover a compreensão científica do funcionamento dos mecanismos biológicos reprodutivos e valorizar uma sexualidade responsável e informada". O problema está na forma como isso será feito e quem terá competência para o fazer. Até porque sobre isso, há teorias e práticas diversas, algumas delas influenciadas por diferentes tradições culturais ou religiosas, que a Constituição manda defender.
Afirma-se que os pais vão poder monitorar a aplicação da lei e que os encarregados de educação serão "informados de todas as actividades desenvolvidas no âmbito da Educação Sexual". Mas como será isso feito? Tendo em conta o historial de participação dos pais na vida da escolar, quem o fará? E se não concordarem com o que observam, até que ponto podem recusar a participação dos seus filhos, sem serem eles próprios vítimas de discriminação?
São várias as perguntas a fazer no início deste ano lectivo, por muitos pais e encarregados de educação. Para ajudar à reflexão dos leitores, publicamos de seguida alguns textos sobre o assunto.
LMF


Um novo projecto de educação sexual
Recentemente, o Presidente da República alertou para a falta de qualidade de muitos textos legislativos. A falta de qualidade de leis da Assembleia da República e de decretos-leis do Governo não é um problema de hoje. Mas hoje é agravado pela hiperinflação legislativa. No momento em que se avizinham novas eleições, a novidade parece ser a de leis balneares, preparadas de modo apressado para aprovação antes de férias.
Entre os frutos sazonais da actividade parlamentar contam-se cada vez mais leis simbólicas, isto é, leis que se destinam mais a marcar a agenda política e satisfazer compromissos eleitorais do que, efectivamente, a legislar para o futuro.
A recente proposta de lei relativa à "aplicação da educação sexual em meio escolar" (Projecto de Lei n.º 660/X) é um bom exemplo do que não deve fazer-se.
Ninguém contesta ser necessário que jovens e adolescentes recebam informação científica sobre a sexualidade. Também ninguém contesta que o objectivo de diminuir o número de situações de gravidez precoce entre as adolescentes é correcto. A questão central é a de saber se o caminho adoptado pelo legislador é o mais adequado e, sobretudo, se estão respeitados os direitos das pessoas.
A mais recente iniciativa legislativa parlamentar é um cheque em branco a um futuro governo nesta matéria. De facto, tudo o que é essencial fica dependente de regulamentação pelo governo e não são definidos parâmetros legais em relação a tema nenhum, excepto em matérias administrativas que, estas sim, só pelo governo deviam ser regulamentadas.
Por um lado, portanto, é posto em causa o princípio da determinação e precisão das leis. Por outro, legisla-se em matéria que pode integrar o conteúdo de reserva de administração. Por exemplo, o funcionamento de gabinetes de informação nas escolas, que não serão dirigidos por médicos apesar de terem, entre outras atribuições, a de assegurar aos alunos os "meios contraceptivos adequados".
Pertencerá ao governo estabelecer o conteúdo curricular da disciplina. Mas o diploma em causa nada dispõe quanto aos direitos das crianças nesta matéria e ao modo como os podem exercer. Nada se regula também sobre os direitos dos pais.
Recentes episódios divulgados pela comunicação social em que professores têm conversas, no mínimo, inconvenientes com jovens estudantes deveriam aconselhar muita prudência em matéria tão delicada e que se prende com a saúde e o bem-estar físico e psíquico das crianças e jovens. E que, também por essa razão, exige professores com formação específica.
Compreende-se, assim, a preocupação de muitos pais com esta legislação confusa e errada, que coloca no mesmo plano normativo crianças de 6 anos e adultos que terminam o ensino secundário com 17 ou 18 anos.Estas questões são melindrosas e deveriam merecer maior respeito pela Constituição. Esta começa por estabelecer a responsabilidade primeira dos pais na educação dos seus filhos. São as mesmas responsabilidades que a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Convenção Europeia dos Direitos do Homem estabelecem.
Seria correcto pensar que o Estado assume o dever de ensinar os jovens sobre a sexualidade de modo objectivo e de acordo com a sua idade. Porém, se o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas (art.º 43.º da Constituição) e se os pais têm primazia na escolha do género de educação a dar aos seus filhos, a resposta própria de um Estado pluralista é a de que tem de reconhecer-se aos pais o direito de opor-se a que os seus filhos recebam conteúdos informativos quando estes ofendem as suas convicções religiosas e filosóficas profundas.
Recorde-se que a orientação do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem vai em três sentidos fundamentais: os pais não podem opor-se ao ensino obrigatório da educação sexual se os fins e o conteúdo do currículo forem objectivos e cientificamente adequados à idade das crianças; tem de ficar assegurado o direito dos pais a aconselhar e guiar os seus filhos de acordo com as suas convicções; as indicações curriculares não podem ser entendidas como uma exaltação da vida sexual e da entrada precoce das crianças em práticas perigosas para a sua estabilidade, saúde ou futuro.
Pedro Barbas Homem, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (Público - 15.07.2009)


Educação para Sexualidade: a ditadura da maioria
Com a aprovação, pela maioria parlamentar, do projecto de lei relativo à aplicação da educação sexual em meio escolar, estamos perante um caso gritante de ditadura da maioria e de utilização do Estado para propagar uma doutrina particular.
Ditadura da maioria porque uma maioria parlamentar, seja ela de que dimensão for, se arroga o direito de impor o que deverá ser leccionado em matéria de sexualidade aos filhos de todos os portugueses, mesmo daqueles que consideram profundamente errada e prejudicial a visão sobre a sexualidade que está subjacente aos conteúdos que constam do referido diploma legal.
Não está em causa a visão propriamente dita, mas tão-somente o facto de se tratar de uma visão particular, ou seja, de existir na sociedade um conjunto significativo de cidadãos que a refuta totalmente. Ninguém tem o direito de impor a todos os pais qual é forma como deve a escola ensinar aos seus filhos a "melhoria dos relacionamentos afectivo-sexuais dos jovens" ou o que é a "noção de família". Quais relacionamentos? Melhoria segundo que critério? Quem escolhe esse critério? E que "noção de família" vai ser propagada? E que dizer sobre os valores que vão ser veiculados com a criação do "dia anual da educação sexual nas escolas"?
Ora, perante a óbvia divergência num tema que toca o mais íntimo das pessoas, será que pode um conjunto de iluminados, mesmo tratando-se de deputados da República, impor a obrigatoriedade da sua visão particular? Ou seja, impor aos pais que os seus filhos sejam educados para a sexualidade na escola segundo critérios e valores que eles não partilham não será sinal de uma postura ditatorial?
Perante este quadro, importa questionar: as escolas existem para auxiliar os pais na educação dos filhos, como a Constituição da República Portuguesa prevê, ou para um conjunto de personalidades, mais ou menos iluminadas, as utilizar como veículo da sua visão particular do mundo?
Da leitura do projecto de lei surge o absurdo de tudo isto: "A presente lei aplica-se a todos os estabelecimentos da rede pública, bem como aos estabelecimentos da rede privada e cooperativa com contrato de associação, de todo o território nacional". Ou seja, aqueles que tiverem capacidade financeira para escolher a escola dos filhos, esses estão fora da alçada iluminada do legislador. Donde se conclui que os critérios e as matérias em causa já não são fundamentais ao pleno desenvolvimento e preparação para a vida activa. Afinal, a maioria parlamentar está apenas a zelar pela plebe que frequenta as escolas suportadas pelos nossos impostos, no fundo, aquelas que ela considera, como o consideraram outras maiorias parlamentares antes desta, serem as suas escolas. É dessas que se trata e nessas, sua coutada particular, arroga-se o direito de pôr e dispor como lhe aprouver, tratando os cidadãos como seus servos.
Normalmente, porque depende do voto, segue "as modas" do politicamente correcto, mas não é por isso que deixa de ser uma ditadura. A liberdade perde-se pouco a pouco. Por isso, não há regime democrático sem a protecção daqueles que não pensam de acordo com a maioria, dos que são politicamente incorrectos, dos que defendem ideias que a maioria considera imbecis, tontas ou mesmo irrealistas; daqueles de quem não gostamos, mas que toleramos, porque aceitam obedecer às mesmas leis. Insuflar de valores e critérios obrigatórios o currículo obrigatório, mesmo com pretensas boas intenções, só pode agradar aos inimigos da liberdade.
A coberto de ideias generosas, como a diminuição da gravidez na adolescência ou da incidência do vírus VIH/SIDA, obrigar os pais a aceitar que os seus filhos recebam informação e formação de acordo com critérios que não desejam e de uma forma contrária aos seus princípios, não só é cruel como contribui para desresponsabilizar os pais. E falar do "reconhecimento em tudo isto do papel indispensável da família, dos pais, dos encarregados de educação e dos professores", num sistema de ensino em que as escolas têm uma reduzidíssima autonomia na construção do seu currículo e os pais uma ínfima palavra nos destinos da escola, é simplesmente hipócrita.
Francisco Vieira e Sousa, militante do PS e secretário-geral do Fórum para a Liberdade de Educação (Público - 11/04/09)
 
 
 
Parecer da Comissão Episcopal da Educação Cristã na audição parlamentar
Igreja preocupada com "ambiguidades" da lei

A Comissão Episcopal da Educação Cristã (CEEC) manifestou as suas preocupações em relação à lei sobre a Educação Sexual nas Escolas, quando ainda estava em projecto, criticando a "redução da sexualidade à dimensão dos mecanismos corporais e reprodutores, que se pretendem controlar". "Todo o articulado se orienta para que apenas se comunique aos alunos informação que, supostamente, lhes permita precaverem-se contra gravidezes indesejadas, infecções transmissíveis e abusos sexuais", refere o parecer, apresentado na audição parlamentar que decorreu no âmbito dos trabalhos de apreciação na especialidade destes projectos de lei.
Para a CEEC, o documento do PS manifesta "muitas imprecisões e ambiguidades", vinculando "Educação Sexual" à "Educação para a Saúde", com a "ausência de uma clara e determinante relação com o desenvolvimento global da pessoa". O parecer lamenta a "falta de clareza de conceitos e de expressões, como por exemplo «igualdade de género», «sexualidade e género», «melhoria dos relacionamentos afectivo-sexuais dos jovens», «protecção do corpo e noção dos limites», «diversidade e tolerância» e «prevalência dos métodos contraceptivos»".
As críticas estendem-se à "ausência de referência à perspectiva das religiões e das diversas culturas, elementos que integram a sexualidade humana e desvendam a sua beleza". Por outro lado, "embora se afirme a importância do papel da família na educação sexual, continua a não aparecer com clareza a relação subsidiária da escola em relação à família, e, nessa óptica, a função educativa que a escola deveria exercer junto dos pais, ao serviço de uma adequada preparação dos mesmos, como educadores dos filhos no domínio da sexualidade", acrescenta o parecer.
A CEEC destaca como pontos positivos "a valorização da sexualidade – enquadrada em relações afectivas e vivida com responsabilidade – para o desenvolvimento harmonioso da pessoa humana", "a consideração do papel indispensável da família, dos pais, dos encarregados de educação e dos professores enquanto parceiros decisivos na educação sexual dos adolescentes e dos jovens" e "o entendimento da sexualidade como elemento indispensável na construção dum projecto de vida com valores e uma dimensão ética". Mas alerta para o facto de que "a educação da sexualidade deve ter um alcance muito mais vasto do que a aquisição de informação científica e técnica; sendo importante, permanecer nesse patamar é abrir a porta à vulgarização de relações humanas permissivas e irresponsáveis".

Crónica das Festas da Batalha

"Muralha de silêncio num País sem memória"

O feriado que é municipal, mas deveria ser nacional. A memória que enfraquece e as palavras de quem teima em perpetuá-la. A ausência das pessoas e as enchentes de gente. Da lição histórica ao desporto, da sessão solene ao beberete de emigrantes, das artes ao espectáculo, os momentos e as contradições das festas de Agosto, que são da Batalha, mas deveriam ser dos batalhenses, ou
melhor, dos portugueses.
 
Cerimónia
Dia 14 de Agosto, 12h00, capela do fundador do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Começam oficialmente as Festas da Batalha 2009. Sem contar os turistas que vão deambulando pelo espaço, cerca de duas dezenas de pessoas estão presentes para a homenagem a D. João I. Acompanhando o toque da parada militar constituída por uma dezena de soldados, os representantes de algumas entidades públicas, como o Governo Civil de Leiria, a Câmara Municipal da Batalha, a Fundação Batalha de Aljubarrota e o próprio Mosteiro, depositam coroas de flores junto ao túmulo real.
Toma a palavra o historiador Saul Gomes. Num discurso breve e acutilante, sintetiza o simbolismo deste dia e daquele ambiente. Os portugueses "a banhos" de hoje, não são já os mesmos que lutaram pela sua pátria em 1385, nem os que navegaram à descoberta do mundo. Este, que deveria ser um "acto de cidadania e de afirmação da identidade nacional", não passa de uma "envergonhada cerimónia", cuja comemoração passa ao lado das entidades nacionais, das agendas dos meios de comunicação social e dos portugueses em geral.
"Como é possível chegarmos a este ponto?", pergunta o ilustre académico, ao constatar que "nas comemoração após Abril de 1974, o Mosteiro da Batalha foi sempre esquecido no seu valor e simbolismo, excepto em pequenas notas de rodapé". A "forte consciência nacional que levou ao tudo ou nada em 1385" já não se vislumbra nos nossos dias, quando a ideia de Pátria deveria ainda ser a mesma, assente nos ideais de "lealdade" e "fazer o bem" que moveram os heróis de outrora e que "ecoam mil vezes" nos pormenores esculpidos neste Mosteiro.
"Muralha de silêncio num País sem memória" foi a bela expressão de uma triste realidade com que o orador caracterizou este monumento, "onde desde há vários séculos se evoca Portugal, e onde nos sentimos mais portugueses e orgulhosos de o sermos".
O discurso é digno de ser lido na sua íntegra e temos já a promessa do seu envio pelo autor, para publicação no próximo mês.

Sessão solene
Da parte da tarde, após a inauguração da exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas" (ver ao fundo), realizou-se a sessão solene do feriado municipal, que contou com a animação musical de Francisco Chirife, pianista argentino residente na Batalha. Cerca de 60 pessoas presentes, muitas delas por amizade ao escritor Aníbal Nobre, cuja obra "Lendas e histórias da nossa História" foi aí apresentada, outras porque iriam receber as medalhas de mérito ou de bons serviços do Município.
O livro de Aníbal Nobre, editado pela autarquia, reúne um conjunto de textos premiados em concursos literários, onde as personagens principais estão profundamente ligadas à Batalha. "Trata-se de uma mistura da História com a imaginação, em lendas que brotam da minha admiração e do consumo compulsivo por tudo o que diz respeito à Dinastia de Avis", referiu o autor, natural de Olhão, mas que se considera por essa via muito ligado à nossa história local. "Na publicação que agora editamos, encontram-se retratados factos, histórias e lendas que de uma forma interessante, pedagógica e bastante actual, envolvem D. João I, D. Duarte, D. Afonso V, D. João II (todos a repousar no Mosteiro de Santa Maria da Vitória) e também o recentemente canonizado pela Igreja Católica, São Nuno de Santa Maria. (...) [A todos] são reconhecidas enormes virtudes, grande capacidade de liderança e uma estreita ligação à Batalha, à sua história e ao seu património", refere António Lucas no prefácio.
Seguiu-se a atribuição de medalhas de assiduidade e bons serviços aos funcionários da autarquia já aposentados e também das medalhas de mérito municipal. Neste campo, coube a especial distinção com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal ao padre Virgílio Antunes, natural de S. Mamede, pelo distinto currículo eclesiástico, nomeadamente pela nomeação como Reitor do Santuário de Fátima, em Setembro de 2008.
Foi ainda atribuída a medalha de prata de mérito cultural e desportivo ao nadador Nuno Maximiano, ao agente cultural Joaquim Lima da Silva, ao Batalha Andebol Clube, à Associação Desportiva da Batalha, à Associação Recreativa Amarense, ao Rancho Folclórico do Penedo, à Associação Cultural Sons do Lena, ao rancho "As Lavadeiras do Vale do Lena", este último do nosso Centro Recreativo da Golpilheira.
No discurso de encerramento, o presidente da autarquia, António Lucas, salientou a importância deste acto solene de reconhecimento do talento e do trabalho das pessoas e instituições do concelho. E não deixou de lembrar a linha de acção que o município está a seguir, com destaque para a área social, cujos projectos "são os que menos se vêem, onde menos verbas são dispendidas, mas aqueles que nos dão maior sensação do dever cumprido".

Multidões
Após a sessão, realizou-se no pavilhão multiusos da vila mais um Encontro Anual de Emigrantes do Concelho da Batalha. À volta de um banquete oferecido pela autarquia, em sinal do bom acolhimento aos batalhenses que andam pelos vários países da diáspora, cerca de duas centenas de pessoas conviveram alegremente, com animação do grupo "Cancioneiro da Região da Magueixa". Enquanto isso, abria a 2.ª edição da Mostra das Actividades Económicas, no largo Cónego Simões Inácio, com a presença de algumas empresas, sobretudo dos sectores automóvel, de maquinarias e agrícola.
O cair da noite trouxe mais algumas dezenas de pessoas junto à estátua equestre do Santo Condestável, onde a apresentação multimédia "D. Nuno Revisitado", dirigida pelo actor batalhense Tobias Monteiro, lembrou os principais momentos da vida do homem, do herói e do novo Santo português. A homenagem, baseada em projecção de imagens, jogos de luz e interacção do actor com o público, contou ainda com as intervenções filmadas de José Travaços Santos, historial local, e Alexandre Patrício Gouveia, presidente da Fundação Batalha de Aljubarrota.
Mas a verdadeira festa de multidões começaria apenas depois deste momento, já no recinto junto às Capelas Imperfeitas, onde o palco principal iria receber a batalhense Suzana e o famoso Paulo Gonzo. Aqui, as dezenas passaram a milhares, dando um sinal do acerto da organização quanto aos artistas convidados para encher o espaço. Se neste primeiro dia estava "composto", no último serão iria estar "à pinha", com o grupo "Xutos e Pontapés" a trazer à Batalha, sem qualquer dúvida, uma das maiores enchentes dos últimos anos.
Pelo meio, o rancho Rosas do Lena organizou a 24.ª Gala Internacional de Folclore, também ela catalizadora de muitas centenas de visitantes.
O grupo anfitrião abriu com o espectáculo etnográfico "A Batalha a Cantar e a Dançar, da Quaresma a Santo António", uma interessante mostra de alguns usos e costumes tradicionais da Alta Estremadura, seguindo a actuação dos convidados: Grupo de Capoeira Ginga Camará (Brasil), Grupo "Os Ceifeiros da Bemposta" (Estremadura), Grupo IZMIR (Turquia), Grupo Dr. Gonçalo Sampaio (Minho) e Grupo Pääsuke (Estónia).
Foi mais excelente mostra etnográfica, rica e diversificada nos ritmos e cores próprios de cada cultura, não só regional como internacional.

Desporto
É já habitual a inclusão do desporto e lazer no programa destas festas. Assim, no dia 15, realizou-se na zona desportiva da vila mais uma prova de atletismo "Batalha Jovem" (benjamins, infantis e iniciados) e um Grande Prémio de Atletismo "Mestre de Avis – São Nuno de Santa Maria", com percurso entre S. Jorge e a Batalha. Enquanto isso, decorria um passeio pedestre pelas margens do Lena para os apreciadores das caminhadas.
Mas a novidade deste ano foi a realização, no campo sintético, do I Torneio de Futebol Inter-Freguesias "São Nuno de Santa Maria". Cada freguesia apresentou a sua selecção, constituída por cerca de duas dezenas de atletas veteranos, para um evento que pretendeu, acima de tudo motivar o convívio e o são desportivismo entre todos.
Dado que os prémios eram o menos importante, o torneio disputou-se por eliminatórias directas, sem chegar a haver confronto entre as quatro participantes. Assim, no primeiro jogo, estiveram frente a frente a Golpilheira e a Batalha, que a nossa equipa perdeu por 3-1. No jogo entre derrotados da primeira-mão, a Golpilheira acabou por vencer o Reguengo do Fetal por 2-0, conquistando assim o 3º lugar. No jogo da final, S. Mamede sagrou-se campeã, frente à Batalha.
Ainda no decorrer das festas, houve espaço para um torneio aberto de xadrez, para diversos jogos tradicionais, e até para uma tarde de caricaturas realizadas por José Oliveira, conhecido autor de "Os Corvos".

Luís Miguel Ferraz


Na galeria Mouzinho de Albuquerque até 13 de Setembro
Exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas"
Foi inaugurada, no dia 14 de Agosto, na galeria Mouzinho de Albuquerque, a exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas", do Museu da Presidência da República. A mostra, que reúne todas as ordens honoríficas existentes em Portugal e explica o significado de cada uma dessas condecorações, poderá ser visitada até 13 de Setembro.
As Ordens Honoríficas Portuguesas são agrupadas conforme a sua origem ou natureza em Antigas Ordens Militares, Ordens Nacionais e Ordens de Mérito Civil. A sua atribuição conta com uma longa tradição, cabendo ao Chefe de Estado superintender todo o processo. O sistema sofreu uma natural evolução ao longo dos séculos, tendo algumas das actuais ordens origem na Idade Média – as antigas ordens monástico-militares de Cristo, de Avis e de Santiago da Espada. Até à sua extinção, em 1834, foram verdadeiras ordens religiosas, criadas nos séculos XII a XIV, com aprovação da Santa Sé e protecção régia, visando a «Reconquista», para a qual muito contribuíram. Inspiraram-se nas ordens militares criadas no Reino de Jerusalém no século XI para defesa da Terra Santa - a Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém e a Ordem dos Templários.
Na mesma inspiração surgiram, no século XIV, as ordens de cavalaria, tendo por fim recompensar serviços ou a fidelidade ao Soberano, tendo a natureza de confrarias ou corporações nobiliárquicas de natureza secular mas confessionais e de inspiração cristã.
Sucederam-se no tempo, após a Revolução Francesa, as modernas ordens de mérito inspiradas no princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei e totalmente laicas. O seu modelo foi a Legião de Honra, criada em 1802, pelo Primeiro-Cônsul Napoleão Bonaparte. Possuindo vários graus, visavam recompensar o mérito civil ou militar.
Com o fim da «Reconquista» no território português, as ordens militares sofreram igualmente uma evolução que passou pelo relaxamento dos primitivos votos de pobreza e castidade e pela perda da sua autonomia no século XVI, com a entrega da sua administração à Coroa. O processo culminaria no século XIX, com a extinção das ordens religiosas, que conduziu à sua transformação em ordens de mérito assentes no mérito individual, laicas e puramente honoríficas.
Em 1910, logo após Revolução Republicana, as ordens vigentes sob o deposto regime monárquico foram extintas, tendo no entanto, em 1918, em plena Guerra Mundial, sido restabelecidas como ordens honoríficas ou de mérito, sendo a função de Grão-Mestre atribuída ao Presidente da República.

Especial • São Nuno de Santa Maria

A propósito de mais uma comemoração aniversária da Batalha de Aljubarrota,
publicamos nestas páginas dois textos sobre a figura do seu herói maior: D. Nuno Álvares Pereira, ou Santo Condestável, ou – agora – São Nuno de Santa Maria.
Nunca é demais lembrar o homem que viveu exemplarmente a sua humanidade, o valoroso cavaleiro que lutou corajosamente pela defesa da independência e da identidade da sua Pátria, o frade que encontrou nas virtudes cristãs da pobreza e da doação de si o caminho para a santidade. Uma santidade que, antes de ser reconhecida oficialmente pela Igreja, já o era, desde sempre, pelo povo que amava e servia.
O primeiro artigo é uma reflexão que cruza estas várias facetas de D. Nuno, da autoria do conceituado Doutor Saul António Gomes, um dos maiores estudiosos da actualidade sobre a história e o património, sobretudo, da nossa região.
O segundo texto é a nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, emitida aquando do
anúncio da canonização deste santo português, onde se destacam os principais elementos deste processo e se apontam vias para que saibamos, hoje, ser dignos do seu exemplo e imitadores das suas virtudes.
Esperamos que sirvam para um maior conhecimento sobre este nosso “herói” e para uma maior consciência do seu valor enquanto exemplo válido e actual para os nossos dias.


D. Nuno Álvares Pereira
Glória, honra e exemplo


Grande mistério é a história que só no tempo longo e secular se confirma como sucede, nos dias felizes em que nos é dado viver, com a vida e a memória de D. Nuno Álvares Pereira, Condestável do exércitos portugueses que, nos campos dentre Aljubarrota e Porto de Mós, no distante dia 14 de Agosto de 1385, destroçaram o orgulho castelhano e asseguraram novo rei, nova dinastia e uma nova Era nos destinos de Portugal no Mundo.
D. Nuno Álvares Pereira nasceu, segundo asseveram velhas crónicas, em 24 de Junho de 1360, dia de S. João Baptista. No nascimento certo astrólogo, profissão benquista nesses séculos, prognosticou ao recém-nascido um destino de excepção. Nuno fez-se notar desde cedo pela sua argúcia e comportamento. Seu pai, Dom Prior do Crato, levou-o com o irmão mais velho à intimidade da cúria régia de D. Fernando.
Não foi o Condestável, nos dias da sua vida militar e de grande cortesão e senhor, homem de humildades. Pelo contrário. Os historiadores sabem bem que o herói da Real Batalha de Aljubarrota não conhecia limites em matéria de património, de benefícios e de privilégios. Exigia-os mesmo do seu soberano rei e fê-lo, até, em determinado momento, no extremo da ameaça presente a D. João I de se desnaturalizar da pátria que tanto servira.
Mas não é o senhor de guerras e de grandes e faustosos palácios e invejáveis mordomias que, agora, tantos séculos passados sobre a sua morte e vida, a Igreja Católica confirma no altar dos mais veneráveis exemplos de santidade. É antes o de Fr. Nuno de Santa Maria, o fiel que, na recepção do hábito do Carmelo, assumiu uma nova aliança com o Deus em que tanto confiara e que tão profeticamente lhe marcara a vida e o poupara de perigos e da iminência da morte nos campos de batalha.
Aos 62 anos de idade, no ano de Cristo de 1422, de facto, recolheu-se D. Nuno Álvares Pereira ao Convento do Carmo de Lisboa, que ele mesmo erguera anos antes, para, renunciando às glórias e às honras temporais com que o destino tanto o brindara tão generosamente, se entregar às asceses mais rigorosas do convívio espiritual dos pobres frades carmelitas. Na renúncia às riquezas do mundo, Fr. Nuno traçava para ele próprio a batalha última da sua vida, procurando, pelo preço da renúncia radical ao Mundo e ao conforto dos bens materiais, a Verdade última que a morte de todo o homem encerra.
A 1 de Abril de 1431, justamente em Domingo de Páscoa, Fr. Nuno de Santa Maria, com 71 anos incompletos, fechava os olhos para os dias e os trabalhos mundanos e abria-os, à luz da Fé e da doutrina eclesial, para os verdes prados do Bom-Pastor e para a ceia eterna com o Filho do Homem. A sua biografia de general dos exércitos e de senhor feudal não esconde uma personalidade indómita e irascível, homem que era de excepcional carisma e capacidade de mando, frequentemente, até, capaz de destratar família e criadagem de modo humilhante e sem pingo de ternura.
Dele bem poderemos escrever, como o proclamaram os profetas dos reis de Israel, que o Senhor o coroou de glória e de honra. Fr. Nuno de Santa Maria faleceu em odor de santidade. Teve, entre os filhos de D. João I, os seus mais fervorosos admiradores a começar por D. Duarte, que imaginamos, na distância virtual de tanto tempo passado, presente nas exéquias de Fr. Nuno, lá na igreja quase batalhina do Convento do Carmo, nela escutando a pregação de Mestre Francisco, para cujo sermão, aliás, lhe dera os temas que desejava ver proclamados do púlpito. Em 21 de Abril de 1437, o Rei Eloquente escrevia ao influente Abade D. Gomes, de Florença, falando-lhe da canonização do “Santo Condestável”, sendo que o Papa Eugénio IV, por esses dias, mandara organizar o respectivo processo.
Também o Infante D. Pedro, caído em Alfarrobeira (†1449), mostrou grande devoção por S. Nuno, atribuindo-se-lhe a responsabilidade da redacção da oração litúrgica própria: “Norma principum, exemplar dominorum, speculum anachoretarum es, beate Nune. Tu securus et fortis in proelio, tu humilis et pius in victoria, tu justus et misericors in pace, tu oboediens et devotus in claustro…” (“Esteio dos príncipes, exemplo dos senhores, espelho de monges és tu S. Nuno. Tu, seguro e forte no combate, tu, humilde e piedoso na vitória, tu, justo e misericordioso na paz, tu, obediente e devoto no claustro”).
Nos anos imediatos ao seu passamento, os frades carmelitas de Lisboa coligiram várias centenas de milagres, tendo cabido ao famoso cronista Gomes Eanes de Zurara (†1474) redigir uma narrativa de 221 deles, na maior parte ocorridos no reinado de D. Afonso V (†1481). Nalguns Breviários carmelitas do Século XV regista-se a festa, a 1 de Abril, de “Nonii comitis confessoris” (Do Confessor Conde Nuno), sinal de que, dentro da Ordem, colhia devoções e culto. Dessa mesma Centúria é o testemunho do Chantre de Évora, Martim Vasques, que fora criado da casa de D. Nuno e protegido da Casa de Bragança, chamando-lhe, em testamento de 22 de Maio de 1470, “Conde Santo”.
A veneração ao Santo Condestável manter-se-á entre os Portugueses desde então, posto que nem sempre com a visibilidade pública e o reconhecimento canónico desejáveis. Mas esta é matéria que aguarda ainda uma ingente investigação histórica, assim como seria desejável que se promovesse uma nova biografia, com amplo rigor histórico, sobre D. Nuno Álvares Pereira.
A 15 de Janeiro de 1918, o Papa Bento XV, pelo decreto Clementissimus Deus, reconheceu o Beato Nuno e consentiu-lhe culto oficial, assim incrementando a devoção católica ao Santo Condestável. Agora, é o novo Sumo Pontífice, Bento XVI, que fecha o círculo do processo, declarando-o canonicamente digno de culto em todo o orbe católico. Grandes, intemporais e misteriosos são, na verdade, os desígnios do Senhor, para os que crêem, ou do destino, para os que duvidam, todavia, sempre o tempo e o seu devir sem tempo tecendo as malhas de uma vida exemplar que em 1385, há precisamente 624 anos, pisando campos próximos de Aljubarrota, se consagrou herói de uma Nação e senhor das terras alto-estremenhas de Ourém e de Porto de Mós.

Saul António Gomes
Também em:
www.tintafresca.net


Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa por ocasião da canonização de Nuno Álvares
Exemplo heróico em tempo de crise

1. Nuno Pereira proclamado santo
A 21 de Fevereiro de 2009, o Papa Bento XVI anunciou a canonização de D. Nuno Álvares Pereira – o já beato Nuno de Santa Maria – para o dia 26 de Abril, junto com outras quatro figuras ilustres da Igreja.
Este facto é para Portugal e os portugueses motivo de júbilo e de esperança. Deve também constituir ocasião de reflexão sobre as qualidades e virtudes heróicas desta relevante personagem histórica, digna de ser conhecida e imitada nos dias de hoje. Nuno Álvares Pereira viveu em tempos difíceis de crise dinástica, com fortes divisões no tecido social e político português, que punham em perigo a própria identidade e independência da Nação.
Os Bispos de Portugal, em nome de todos os católicos do nosso país, desejam exprimir a sua alegria e gratidão pelo reconhecimento oficial da santidade heróica de mais um filho da nossa terra. Ultrapassando a mera saudade do passado e assumindo, com realismo e esperança, o tempo que nos é dado viver, querem ressaltar algumas virtudes heróicas de Nuno Álvares Pereira, cuja imitação ajudará a responder aos desafios do tempo presente.

2. Breves dados biográficos
Nascido em 1360, Nuno Álvares Pereira foi educado nos ideais nobres da Cavalaria medieval, no ambiente das ordens militares e depois na corte real. Tal ambiente marcou a sua juventude. As suas qualidades e virtudes impressionaram particularmente o Mestre de Aviz, futuro rei D. João I, que encontrou em D. Nuno o exímio chefe militar, estratega das batalhas dos Atoleiros, de Aljubarrota e Valverde, vencidas mais por mérito das suas virtudes pessoais e da sua táctica militar do que pelo poder bélico dos meios humanos e dos recursos materiais.
Casou com D. Leonor Alvim de quem teve três filhos, sobrevivendo apenas a sua filha Beatriz, que viria a casar com D. Afonso, dando origem à Casa de Bragança. Tendo ficado viúvo muito cedo e estando consolidada a paz, decidiu aprofundar os ideais da Cavalaria e dedicar-se mais intensamente aos valores do Evangelho, sobretudo à prática da oração e ao auxílio dos pobres. Assim, pediu para ser admitido como membro da Ordem do Carmo, que conhecera em Moura e apreciara pela sua vida de intensa oração, tomando o profeta Elias e Nossa Senhora como modelos no seguimento de Cristo.
De Moura, no Alentejo, vieram alguns membros da comunidade carmelita, para o novo convento que ele mesmo mandara construir em Lisboa. Em 1422, entra nesta comunidade e, a 15 de Agosto de 1423, professa como simples irmão, encarregado de atender a portaria e ajudar os pobres. Passou então a ser Frei Nuno de Santa Maria. Depois de uma intensa vida de oração e de bem fazer, numa conduta de grande humildade, simplicidade e amor à Virgem Maria e aos pobres, faleceu no convento do Carmo, onde foi sepultado.
Logo após a sua morte começou a ser venerado como santo pela piedade popular. As suas virtudes heróicas foram oficialmente reconhecidas pelo Papa Bento XV, que o proclamou beato, em 1918, passando a ter celebração litúrgica a 6 de Novembro.

3. Virtudes e valores afirmados na vida de Nuno Álvares Pereira
D. Nuno Álvares Pereira não é apenas o herói nacional, homem corajoso, austero, coerente, amigo da Pátria e dos pobres, que os cronistas e historiadores nos apresentam. Ele é também um homem santo. A sua coragem heróica em defender a identidade nacional, o seu desprendimento dos bens e amor aos mais necessitados brotavam, como água da fonte, do amor a Cristo e à Igreja. A sua beatificação, nos começos do século XX, apresentou-o ao povo de Deus como modelo de santidade e intercessor junto de Deus, a quem se pode recorrer nas tribulações e alegrias da vida.
Conscientes de que todos os santos são filhos do seu tempo e devem ser vistos e interpretados com os critérios próprios da sua época, desejamos propor alguns valores evangélicos que pautaram a sua vida e nos parecem de maior relevância e actualidade.
Os ideais da Cavalaria, nos quais se formou D. Nuno, podem agrupar-se em três arcos de acção: no plano militar, sobressaem a coragem, a lealdade e a generosidade; no campo religioso, evidenciam-se a fidelidade à Igreja, a obediência e a castidade; a nível social, propõem-se a cortesia, a humildade e a beneficência. Foram estes valores que impregnaram a personalidade de Nuno Álvares Pereira, em todas as vicissitudes da sua vida, como documentam os seus feitos militares, familiares, sociais e conventuais.
Fazia também parte dos ideais da Cavalaria a protecção das viúvas e dos órfãos, assim como o auxílio aos pobres. Em D. Nuno, estes ideais tornaram-se virtudes intensamente vividas, tanto no tempo das lides guerreiras como principalmente quando se desprendeu de tudo e professou na Ordem do Carmo. Como porteiro e esmoler da comunidade, acolhia os pobres de Lisboa, que batiam às portas do convento e atendia-os com grande humildade e generosidade. Diz-se que teve aqui origem a «sopa dos pobres».
Levado pela sua invulgar humildade, iluminada pela fé, desprendeu-se de todos os seus bens – que eram muitos, pois o Rei o tinha recompensado com numerosas comendas – e repartiu-os por instituições religiosas e sociais em benefício dos necessitados. Desejoso de seguir radicalmente a Jesus Cristo, optou por uma vida simples e pobre no Convento do Carmo e disponibilizou-se totalmente para acolher e servir os mais desfavorecidos. Esta foi a última batalha da sua vida. Para ela se preparou com as armas espirituais de que falam a carta aos Efésios (cf. Ef 6, 10-20) e a Regra do Carmo: a couraça da justiça, a espada do Espírito (isto é, a Palavra de Deus), o escudo da fé, a oração, o espírito de serviço para anunciar o Evangelho da paz, a perseverança na prática do bem.
Precisamos de figuras como Nuno Álvares Pereira: íntegras, coerentes, santas, ou seja, amigas de Deus e das suas criaturas, sobretudo das mais débeis. São pessoas como estas que despertam a confiança e o dinamismo da sociedade, que fazem superar e vencer as crises.

4. Apelo à Igreja em Portugal e a todos os homens e mulheres de boa vontade
Ao aproximar-se a data da canonização do beato Nuno Álvares Pereira, pelo Papa Bento XVI, em Roma, alegramo-nos por ver mais um filho da nossa terra elevado às honras dos altares. Algumas peregrinações estão a ser organizadas para marcar a nossa presença na Praça de S. Pedro, na festa da sua canonização, no dia 26 de Abril. Confiamos que outras iniciativas pastorais sejam promovidas para dar a conhecer e propor como modelo o exemplo de virtude heróica que nos deixou este nosso irmão na fé.
A pessoa e acção de Nuno Álvares Pereira são bem conhecidas do povo português. A nível civil, é lembrado em monumentos, praças e instituições; a nível religioso, é celebrado em igrejas, imagens e associações. Figura incontornável da nossa história, importa revitalizar a sua memória e dar a conhecer o seu testemunho de vida. Para além de ser um modelo de santidade, no seguimento radical de Cristo, que «não veio para ser servido mas para servir» (Mt 20, 28), apraz-nos pôr em relevo alguns aspectos de particular actualidade, para todos os homens e mulheres de boa vontade:
– Nuno Álvares Pereira foi um homem de Estado, que soube colocar os superiores interesses da Nação acima das suas conveniências, pretensões ou carreira. Fez da sua vida uma missão, correndo todos os riscos para bem servir a Pátria e o povo.
– Em tempo de grave crise nacional, optou corajosamente por ser parte da solução e, numa entrega sem limites, enfrentou com esperança os enormes desafios sociais e políticos da Nação.
– Coroado de glória com as vitórias alcançadas, senhor de imensas terras, despojou-se dos seus bens e optou pela radicalidade do seguimento de Cristo, como simples irmão da Ordem dos Carmelitas.
– Não se valeu dos seus títulos de nobreza, prestígio e riqueza, para viver num clima de luxos e grandezas, mas optou por servir preferencialmente os pobres e necessitados do seu tempo.
Vivemos em tempo de crise global, que tem origem num vazio de valores morais. O esbanjamento, a corrupção, a busca imparável do bem-estar material, o relativismo que facilita o uso de todos os meios para alcançar os próprios benefícios, geraram um quadro de desemprego, de angústia e de pobreza que ameaçam as bases sobre as quais se organiza a sociedade. Neste contexto, o testemunho de vida de D. Nuno constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários e de iniciativas de partilha de bens. Será também um apelo a uma cidadania exemplarmente vivida e um forte convite à dignificação da vida política como expressão do melhor humanismo ao serviço do bem comum.
Os Bispos de Portugal propõem, portanto, aos homens e mulheres de hoje o exemplo da vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres. Assim seremos parte activa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna que todos desejamos.

Fátima, 6 de Março de 2009
Conferência Episcopal Portuguesa

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Edição 146 - Julho 2009

EDITORIAL | Pensar sobre nós mesmos

Uma das mais importantes valências da capacidade racional da pessoa é a de poder pensar-se, isto é, pensar sobre si própria. Esse movimento auto-reflexivo é tão importante que, sem ele, facilmente caímos na rotina das acções e acabamos por tomar decisões erradas e contra o nosso próprio bem.
Se isto é verdade para cada um de nós, também o é para o colectivo. O sucesso das empresas, das instituições ou, até, dos grupos de amigos, depende em muito deste exercício regular de olhar sobre si mesmos enquanto conjunto funcional. Normalmente, trata-se de analisar o passado para decidir no presente o que fazer rumo aos projectos futuros, usando o célebre esquema do "ver, julgar e agir".
Com as comunidades organizadas num território, numa cultura, ou numa religião, o mesmo se passa: nas eleições, votamos naqueles que julgamos mais aptos para compreender a realidade e governá-la; nos valores que defendemos, procuramos que correspondam ao nosso património ético; na prática religiosa que vivemos, sentimos a expressão da fé em que acreditamos.
Vem isto a propósito do destaque desta edição. É salutar e digna de registo a iniciativa que um grupo de cristãos da nossa freguesia tomou, de se reunir para conversar sobre a própria comunidade. Daí resultou, como ideia forte, a necessidade de maior espírito de união entre estruturas e pessoas, para que os objectivos comuns sejam alcançados. Acreditamos que, na continuidade deste trabalho, algumas rotinas se quebrem, alguns sonhos se desenvolvam e algumas obras acabem por nascer. Porque a igreja feita de paredes tem de ser expressão da Igreja feita de pessoas.

É preciso renovar a igreja e a Igreja

Grupo conversou sobre a comunidade cristã da Golpilheira

No passado dia 18 de Junho, realizou-se na Golpilheira uma reunião muito especial. O assunto surgiu no dia da inauguração da Junta de Freguesia, no dia 14 desse mês. Alguém comentava que, depois desta obra, seria necessário pôr mãos a outra: o restauro da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, o centro de culto da comunidade cristã desta freguesia., cujo telhado precisa de uma intervenção urgente e onde as condições de conforto para as celebrações deixam muito a desejar.
A conversa rapidamente interessou a um grupo alargado de pessoas e algumas ideias começaram a circular. Para além das obras urgentes, poderia pensar-se numa intervenção de fundo, que desse outras condições àquele espaço, talvez um arranjo interior mais moderno e confortável, talvez algumas alterações de arquitectura. E como financiar tal projecto? O que fazer para concretizar essas ideias?
A primeira conclusão foi a de que tal empreendimento exigiria a união de toda a freguesia, especialmente das duas comissões das igrejas, da Junta de Freguesia e de outras instituições e pessoas mais activas. Daí a ideia de se marcar rapidamente uma reunião entre todos, para se discutir abertamente o assunto.

A reunião
No dia 18, sentados a uma mesa do salão de festa da igreja da Golpilheira, lá estavam os elementos da comissão local, os da comissão de S. Bento, os da Junta de Freguesia, e mais algumas pessoas que tinham participado na referida conversa.
Postos a par do assunto, cada um teve oportunidade de dizer o que pensa. Uns estão mais optimistas e acreditam que é possível pensar numa grande obra, outros estão mais receosos e preferem que se limite a intervenção ao básico. Mas todos estavam de acordo numa coisa: é preciso fazer alguma coisa para melhorar a nossa igreja.
Todos estão também conscientes de que, seja qual for o rumo, o investimento será sempre avultado. A actual comissão avançou já com a pintura do templo, mas o telhado terá de ser substituído em breve, uma vez que conta já com 45 anos e apresenta graves problemas. Além disso, as salas de catequese não têm o conforto mínimo para acolher as crianças, sobretudo, no Inverno e as paredes, janelas, estores, chão, etc., precisam também de reparações, para além do recheio com móveis e equipamentos de apoio mais apropriados. E a lista poderia ser mais extensa.

Comissões unidas
Uma das condições parece também ser consensual: é preciso unir ambas as comissões das igrejas, de S. Bento e da Golpilheira, em torno deste projecto comum.
A ideia de formar uma única comissão para cuidar do património religioso da freguesia já vem de longe. No Jornal da Golpilheira, abordámos esse assunto já em Fevereiro de 2004, numa entrevista aos responsáveis das duas comissões e ao pároco, onde sugeríamos essa fusão. Os três entrevistados afirmaram estar de acordo com uma solução desse género, adiantou-se mesmo a possibilidade de um debate alargado na comunidade, mas o certo é que mais nada de concreto veio a ser feito. Talvez as condições na altura não fossem as melhores, dado que ambas as comissões andavam envolvidas em obras nas respectivas igrejas...
Essas condições parecem ser agora muito favoráveis. As duas igrejas mais antigas – Senhor dos Aflitos e S. Bento – estão restauradas e os respectivos adros e espaços de apoio também estão minimamente consolidados. Resta, portanto, pensar na igreja de Nossa Senhora de Fátima, que é o único local onde existe culto dominical, onde funciona o centro de catequese e onde toda a vida religiosa se concentra.
A situação actual é, portanto, favorável a um trabalho de união, e todos os presentes neste encontro manifestaram estar de acordo em considerar muito a sério essa hipótese, em especial os membros das duas comissões actualmente em funções. Existe apenas o problema de a comissão da igreja da Golpilheira estar em final de mandato, pelo que terá de haver uma nova conversa após a reestruturação da equipa.

As festas
Havendo apenas uma comissão, será muito mais fácil gerir os fundos e programar as acções comuns, envolvendo mais gente e dando uma força maior às decisões tomadas. Evita-se, por outro lado, a impressão de haver divisão ou "espírito de capelinha", que não se justifica numa freguesia tão pequena como a nossa. Afinal de contas, tudo é de todos, o património é de toda a comunidade cristã e a todos compete cuidar dele e usufruir da sua utilização.
Um exemplo dessa possibilidade de colaboração é a calendarização das duas festas religiosas, que têm sido feitas nos últimos anos em Agosto, com um intervalo de 15 dias, juntando-se ainda a festa da colectividade, cerca de 15 dias antes destas duas. Para além do natural cansaço dos organizadores, alguns dos quais colaboram nos vários eventos, mais uma vez transparece a ideia de que são grupos diferentes a trabalhar e que também os destinatários são diferentes, quando toda a freguesia deveria estar unida nestes momentos de celebração e convívio.
Mesmo fazendo duas ou três festas, elas poderão ser mais espaçadas no ano, permitindo melhor programação e uma oferta mais variada à população e menos cansativa para todos, sobretudo os que nestas alturas gostam de contribuir para os fundos das entidades organizadoras.
É claro também que, juntando os lucros sob a mesma conta, haveria uma maior margem de manobra para realizar obras de grande envergadura, como a que agora surge no horizonte das necessidades...

E a Igreja?
Outra questão que surgiu – não menos importante – foi a da renovação da Igreja, desta vez com "maiúscula", isto é, do grupo de cristãos que forma esta comunidade. Bem vistas as coisas, é por aí que tudo deve começar, pois nem faz sentido pensar-se em investir em obras numa igreja (paredes) cuja Igreja (pessoas) não exista.
É um dado adquirido – e tem sido sublinhado pelo pároco diversas vezes – que a participação na missa dominical tem registado uma enorme quebra nos últimos anos. Sabemos que o número de praticantes tem reduzido a nível geral e não interessa ter a igreja cheia "só por ter", com pessoas que não sentem a prática religiosa como algo pessoal e assumido em comunidade. Como diz o ditado, "mais vale serem poucos, mas bons". Mas o certo é que se forem mesmo muito poucos, não justificarão um grande investimento, sendo preferível arranjar um espaço mais pequeno e adequado a esse número.
No entanto, não parece ser essa a nossa realidade, como se comprova com a igreja cheia quando há festas com as crianças da catequese ou outras celebrações mais "especiais", que revelam uma comunidade ainda bastante numerosa, merecedora de um espaço condigno para celebrar em conjunto. Verificamos, por exemplo, que muitas pessoas vão a outras igrejas ao domingo, seja na Batalha, seja nas paróquias vizinhas. Como se costuma dizer, "não adianta esconder o sol com a peneira": as motivações podem ser várias, como o gosto por um espaço mais apelativo, a preferência por outro padre a presidir, a melhor animação da liturgia, a procura de algum "anonimato", etc. Todas as desculpas podem ser válidas e, no entanto, nenhuma explica toda a realidade.
Assim, um dos aspectos onde é preciso investir, também aqui com a exigência de uma maior união entre todos, é na procura de consolidação da comunidade cristã. As iniciativas poderão ser várias, como por exemplo, através de uma participação mais regular das crianças da catequese nos actos litúrgicos, pois é certo que com elas virão outros familiares. Até porque esse será um primeiro passo para motivar as pessoas a colaborar numa eventual obra de renovação do espaço, já que todos sentirão que é também para o seu benefício.

Conclusões
Já que estamos em maré de provérbios, podemos dizer que a principal conclusão deste encontro foi: "a união faz a força". Todos manifestaram ser importante avançar com algumas destas sugestões e aprofundar esta reflexão, alargando-a a todas as pessoas da comunidade. Também o pároco, padre José Gonçalves, ao qual foi comunicado o teor desta conversa informal, se manifestou contente pela iniciativa e concordou que o caminho a seguir deverá ser o da união entre todos com o mesmo objectivo pastoral: renovar a comunidade e dotá-la das estruturas necessárias.
Dada a aproximação das festas já em preparação, e o facto de o período de férias dispersar muito as pessoas, para além de ser ainda indefinida a constituição da Comissão da Igreja da Golpilheira, ficou a proposta de cada um dos presentes reflectir um pouco mais sobre o assunto, em ordem a uma nova conversa em finais de Setembro. Nessa altura se verá por onde começar, sendo certo que não se fará nada sem a elaboração prévia de um projecto bem pensado e previamente sujeito às propostas de toda a população.
Ficou também decidido por todos que o assunto seria apresentado nesta edição do nosso Jornal, precisamente antes de começarem as festas religiosas, que podem ser um período propício ao diálogo e à partilha de opiniões. Espera-se que nasça um movimento saudável por parte de todos, evitando os confrontos e as críticas destrutivas, mas com espírito de colaboração e de procura das melhores soluções comunitárias, mesmo quando houver que aceitar ideias diferentes das que cada um terá.
O Jornal da Golpilheira esteve desde o início no âmago desta problemática, é um meio privilegiado e aberto a todos para a comunicação de ideias e propostas, e quer ser um parceiro activo em mais esta tarefa comum, para o bem de todos e o desenvolvimento da nossa comunidade.

Luís Miguel Ferraz

Festa da Golpilheira 2009

A festa em honra do Bom Jesus dos Aflitos, na igreja da Golpilheira, será nos dias 1 a 3, antecedida por um tríduo de preparação espiritual para a festa.
No cartaz constam três serões, com os grupos musicais "Fusão", "Duo Irmãos Tarau" e "Banda Selecção", a animar um arraial onde não faltará a quermesse, bar, restaurante e espaços de jogos de setas, tiro ao alvo, jogo do rato e jogo do prego.
O dia forte será o domingo, com recolha das ofertas pelas 11h00, acompanhada pelos "Triunfantes", e a Missa solene pelas 12h00, seguida de procissão.
Destaque ainda para a actuação do rancho folclórico "As Lavadeiras do Vale do Lena", no dia 2, pelas 18h00, e para a corrida de frangos, a quebra de panelas e a corrida de cântaros, na segunda-feira, depois da Missa pelos festeiros, que será às 18h30.
(Ver cartaz)


LMF

Festa de S. Bento 2009

A festa em honra de Nossa Senhora da Esperança, em S. Bento, será nos dias 15 a 17, a começar com Missa vespertina pelas 12h30 de sábado, após o que abrirá o restaurante com serviço de almoços.
Ainda no sábado, haverá a já tradicional "vacada", a começar pelas 16h00.
Os serões serão animados, respectivamente, pelos grupos musicais "Trap.Zap", "Banda Kroll" e "Zé Café e Guida". No arraial haverá quermesse, bar, restaurante e diversos espaços de diversão.
O dia especial será o domingo, com recolha de andores pelas 11h00 com os "Triunfantes" e Missa solene pelas 12h30, seguida de procissão. Na segunda-feira, haverá Missa pelos festeiros, pelas 18h00, seguindo-se os jogos tradicionais.
(Ver cartaz)

LMF