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quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Edição 147 - Agosto 2009
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Editorial | Imagens de luz e palavras de fogo
O tempo quente leva-nos a sair, a tirar férias, a festejar. Procuramos paisagens coloridas, seja para gozo do calor num areal, seja na fuga até paragens refrescantes. É tempo propício para apreciar as imagens, desde as que passam fugazes pelos caminhos percorridos até às que se guardam no registo da máquina. Imagens de luz, movimento e alegria. Por isso, nesta edição damos espaço às imagens. Mesmo que a preto e branco, elas são o retrato mais fiel dos momentos felizes e coloridos deste mês de Agosto e das festas. Mais do que as palavras de uma descrição, valem os sorrisos que saltam em cada foto.
Mas o texto tem também lugar, quando entramos em festejos que significam muito mais do que a aparência. É o caso do nosso feriado municipal de 14 de Agosto, este ano com mais um motivo de orgulho no palmarés: a recente canonização de Nuno Álvares Pereira, o herói de Aljubarrota, de Portugal e de Deus.
Mas este é também o tempo em que começamos a preparar o regresso ao trabalho. E é de palavras que precisamos para aprofundar os assuntos que teremos entre mãos. O novo ano escolar vai trazer a novidade da Educação Sexual obrigatória em todas as escolas, um assunto que tem andado em lume brando, cujo fogo poucos ainda sentiram, mas que promete escaldar em Setembro. Porque a pressa da lei não corresponde à sua necessária preparação... e é a formação da personalidade dos nossos filhos que está em jogo. A não ser que deixemos ao Estado essa tarefa, cruzemos os braços e deixemos andar... nesse caso, está tudo bem. Pelo menos, até ao dia em que eles nos atirem à cara essa traição.
Mas o texto tem também lugar, quando entramos em festejos que significam muito mais do que a aparência. É o caso do nosso feriado municipal de 14 de Agosto, este ano com mais um motivo de orgulho no palmarés: a recente canonização de Nuno Álvares Pereira, o herói de Aljubarrota, de Portugal e de Deus.
Mas este é também o tempo em que começamos a preparar o regresso ao trabalho. E é de palavras que precisamos para aprofundar os assuntos que teremos entre mãos. O novo ano escolar vai trazer a novidade da Educação Sexual obrigatória em todas as escolas, um assunto que tem andado em lume brando, cujo fogo poucos ainda sentiram, mas que promete escaldar em Setembro. Porque a pressa da lei não corresponde à sua necessária preparação... e é a formação da personalidade dos nossos filhos que está em jogo. A não ser que deixemos ao Estado essa tarefa, cruzemos os braços e deixemos andar... nesse caso, está tudo bem. Pelo menos, até ao dia em que eles nos atirem à cara essa traição.
Destaque | (Que?) Educação Sexual obrigatória
Abertura do ano escolar promete nova polémica
A partir do próximo ano lectivo, a Educação Sexual será "objecto de inclusão obrigatória nos projectos educativos dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas", como determina a lei n.º 60/2009, que já foi publicada em Diário da República. Assim, "o projecto de educação sexual" deverá ser elaborado pelo director de cada turma, com alguns professores de uma equipa interdisciplinar, designando os conteúdos e iniciativas a promover, numa carga horária "não inferior a seis horas para os 1º e 2º ciclos e a 12 horas para o 3º Ciclo e Secundário".
A mesma equipa, que será dirigida por um professor-coordenador para a área da Educação para a Saúde e Educação Sexual, terá também a seu cargo a gestão do gabinete de informação e apoio, que deverá funcionar "pelo menos uma manhã e uma tarde por semana" e disponibilizar "um espaço na internet" para responder a questões dos alunos.
O problema é que ainda não foram definidas as matérias que serão ensinadas nem quais os professores que as vão leccionar e que habilitações deverão ter. Apesar de o Ministério da Educação garantir que irá promover a formação de docentes, não explica como. E, se é para começar neste ano lectivo, já devia ter sido feita. Tal como sucedeu com o computador "Magalhães", os professores voltam a acusar o Governo de avançar com medidas antes de formar os professores para elas. Mas, dada a matéria de que agora se trata, o problema é bem mais grave e sensível do que foi o do referido brinquedo.
Uma das vozes que já se fez ouvir sobre o assunto foi a dos sindicatos, que afirmam a sua preocupação com o número "escasso" de professores com formação ou especialização nessa área. "O sistema não está preparado para responder em larga escala, ou na sua generalidade" a esta lei, referiu Carlos Chagas, presidente do Fenei/Sindep. "Não conhecemos especialização nessa área; se algum professor a fez, pagou-a do seu bolso e deve ser uma gotinha num oceano. E também não é uma formação que se dê em meia dúzia de horas", reitera Lucinda Dâmaso, da Federação Nacional dos Sindicatos de Educação.
Há um acordo na sociedade sobre a pertinência deste tema. Os princípios colocados na sua base são importantes, tais como "acabar com a discriminação e violência baseada na orientação sexual, reduzir gravidezes não desejadas e infecções sexualmente transmissíveis, defender a igualdade entre os sexos e a capacidade de protecção face a todas as formas de exploração e abuso sexuais, promover a compreensão científica do funcionamento dos mecanismos biológicos reprodutivos e valorizar uma sexualidade responsável e informada". O problema está na forma como isso será feito e quem terá competência para o fazer. Até porque sobre isso, há teorias e práticas diversas, algumas delas influenciadas por diferentes tradições culturais ou religiosas, que a Constituição manda defender.
Afirma-se que os pais vão poder monitorar a aplicação da lei e que os encarregados de educação serão "informados de todas as actividades desenvolvidas no âmbito da Educação Sexual". Mas como será isso feito? Tendo em conta o historial de participação dos pais na vida da escolar, quem o fará? E se não concordarem com o que observam, até que ponto podem recusar a participação dos seus filhos, sem serem eles próprios vítimas de discriminação?
São várias as perguntas a fazer no início deste ano lectivo, por muitos pais e encarregados de educação. Para ajudar à reflexão dos leitores, publicamos de seguida alguns textos sobre o assunto.
LMF
Um novo projecto de educação sexual
Recentemente, o Presidente da República alertou para a falta de qualidade de muitos textos legislativos. A falta de qualidade de leis da Assembleia da República e de decretos-leis do Governo não é um problema de hoje. Mas hoje é agravado pela hiperinflação legislativa. No momento em que se avizinham novas eleições, a novidade parece ser a de leis balneares, preparadas de modo apressado para aprovação antes de férias.
Entre os frutos sazonais da actividade parlamentar contam-se cada vez mais leis simbólicas, isto é, leis que se destinam mais a marcar a agenda política e satisfazer compromissos eleitorais do que, efectivamente, a legislar para o futuro.
A recente proposta de lei relativa à "aplicação da educação sexual em meio escolar" (Projecto de Lei n.º 660/X) é um bom exemplo do que não deve fazer-se.
Ninguém contesta ser necessário que jovens e adolescentes recebam informação científica sobre a sexualidade. Também ninguém contesta que o objectivo de diminuir o número de situações de gravidez precoce entre as adolescentes é correcto. A questão central é a de saber se o caminho adoptado pelo legislador é o mais adequado e, sobretudo, se estão respeitados os direitos das pessoas.
A mais recente iniciativa legislativa parlamentar é um cheque em branco a um futuro governo nesta matéria. De facto, tudo o que é essencial fica dependente de regulamentação pelo governo e não são definidos parâmetros legais em relação a tema nenhum, excepto em matérias administrativas que, estas sim, só pelo governo deviam ser regulamentadas.
Por um lado, portanto, é posto em causa o princípio da determinação e precisão das leis. Por outro, legisla-se em matéria que pode integrar o conteúdo de reserva de administração. Por exemplo, o funcionamento de gabinetes de informação nas escolas, que não serão dirigidos por médicos apesar de terem, entre outras atribuições, a de assegurar aos alunos os "meios contraceptivos adequados".
Pertencerá ao governo estabelecer o conteúdo curricular da disciplina. Mas o diploma em causa nada dispõe quanto aos direitos das crianças nesta matéria e ao modo como os podem exercer. Nada se regula também sobre os direitos dos pais.
Recentes episódios divulgados pela comunicação social em que professores têm conversas, no mínimo, inconvenientes com jovens estudantes deveriam aconselhar muita prudência em matéria tão delicada e que se prende com a saúde e o bem-estar físico e psíquico das crianças e jovens. E que, também por essa razão, exige professores com formação específica.
Compreende-se, assim, a preocupação de muitos pais com esta legislação confusa e errada, que coloca no mesmo plano normativo crianças de 6 anos e adultos que terminam o ensino secundário com 17 ou 18 anos.Estas questões são melindrosas e deveriam merecer maior respeito pela Constituição. Esta começa por estabelecer a responsabilidade primeira dos pais na educação dos seus filhos. São as mesmas responsabilidades que a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Convenção Europeia dos Direitos do Homem estabelecem.
Seria correcto pensar que o Estado assume o dever de ensinar os jovens sobre a sexualidade de modo objectivo e de acordo com a sua idade. Porém, se o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas (art.º 43.º da Constituição) e se os pais têm primazia na escolha do género de educação a dar aos seus filhos, a resposta própria de um Estado pluralista é a de que tem de reconhecer-se aos pais o direito de opor-se a que os seus filhos recebam conteúdos informativos quando estes ofendem as suas convicções religiosas e filosóficas profundas.
Recorde-se que a orientação do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem vai em três sentidos fundamentais: os pais não podem opor-se ao ensino obrigatório da educação sexual se os fins e o conteúdo do currículo forem objectivos e cientificamente adequados à idade das crianças; tem de ficar assegurado o direito dos pais a aconselhar e guiar os seus filhos de acordo com as suas convicções; as indicações curriculares não podem ser entendidas como uma exaltação da vida sexual e da entrada precoce das crianças em práticas perigosas para a sua estabilidade, saúde ou futuro.
Pedro Barbas Homem, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (Público - 15.07.2009)
Educação para Sexualidade: a ditadura da maioria
Com a aprovação, pela maioria parlamentar, do projecto de lei relativo à aplicação da educação sexual em meio escolar, estamos perante um caso gritante de ditadura da maioria e de utilização do Estado para propagar uma doutrina particular.
Ditadura da maioria porque uma maioria parlamentar, seja ela de que dimensão for, se arroga o direito de impor o que deverá ser leccionado em matéria de sexualidade aos filhos de todos os portugueses, mesmo daqueles que consideram profundamente errada e prejudicial a visão sobre a sexualidade que está subjacente aos conteúdos que constam do referido diploma legal.
Não está em causa a visão propriamente dita, mas tão-somente o facto de se tratar de uma visão particular, ou seja, de existir na sociedade um conjunto significativo de cidadãos que a refuta totalmente. Ninguém tem o direito de impor a todos os pais qual é forma como deve a escola ensinar aos seus filhos a "melhoria dos relacionamentos afectivo-sexuais dos jovens" ou o que é a "noção de família". Quais relacionamentos? Melhoria segundo que critério? Quem escolhe esse critério? E que "noção de família" vai ser propagada? E que dizer sobre os valores que vão ser veiculados com a criação do "dia anual da educação sexual nas escolas"?
Ora, perante a óbvia divergência num tema que toca o mais íntimo das pessoas, será que pode um conjunto de iluminados, mesmo tratando-se de deputados da República, impor a obrigatoriedade da sua visão particular? Ou seja, impor aos pais que os seus filhos sejam educados para a sexualidade na escola segundo critérios e valores que eles não partilham não será sinal de uma postura ditatorial?
Perante este quadro, importa questionar: as escolas existem para auxiliar os pais na educação dos filhos, como a Constituição da República Portuguesa prevê, ou para um conjunto de personalidades, mais ou menos iluminadas, as utilizar como veículo da sua visão particular do mundo?
Da leitura do projecto de lei surge o absurdo de tudo isto: "A presente lei aplica-se a todos os estabelecimentos da rede pública, bem como aos estabelecimentos da rede privada e cooperativa com contrato de associação, de todo o território nacional". Ou seja, aqueles que tiverem capacidade financeira para escolher a escola dos filhos, esses estão fora da alçada iluminada do legislador. Donde se conclui que os critérios e as matérias em causa já não são fundamentais ao pleno desenvolvimento e preparação para a vida activa. Afinal, a maioria parlamentar está apenas a zelar pela plebe que frequenta as escolas suportadas pelos nossos impostos, no fundo, aquelas que ela considera, como o consideraram outras maiorias parlamentares antes desta, serem as suas escolas. É dessas que se trata e nessas, sua coutada particular, arroga-se o direito de pôr e dispor como lhe aprouver, tratando os cidadãos como seus servos.
Normalmente, porque depende do voto, segue "as modas" do politicamente correcto, mas não é por isso que deixa de ser uma ditadura. A liberdade perde-se pouco a pouco. Por isso, não há regime democrático sem a protecção daqueles que não pensam de acordo com a maioria, dos que são politicamente incorrectos, dos que defendem ideias que a maioria considera imbecis, tontas ou mesmo irrealistas; daqueles de quem não gostamos, mas que toleramos, porque aceitam obedecer às mesmas leis. Insuflar de valores e critérios obrigatórios o currículo obrigatório, mesmo com pretensas boas intenções, só pode agradar aos inimigos da liberdade.
A coberto de ideias generosas, como a diminuição da gravidez na adolescência ou da incidência do vírus VIH/SIDA, obrigar os pais a aceitar que os seus filhos recebam informação e formação de acordo com critérios que não desejam e de uma forma contrária aos seus princípios, não só é cruel como contribui para desresponsabilizar os pais. E falar do "reconhecimento em tudo isto do papel indispensável da família, dos pais, dos encarregados de educação e dos professores", num sistema de ensino em que as escolas têm uma reduzidíssima autonomia na construção do seu currículo e os pais uma ínfima palavra nos destinos da escola, é simplesmente hipócrita.
Francisco Vieira e Sousa, militante do PS e secretário-geral do Fórum para a Liberdade de Educação (Público - 11/04/09)
Parecer da Comissão Episcopal da Educação Cristã na audição parlamentar
Igreja preocupada com "ambiguidades" da lei
A Comissão Episcopal da Educação Cristã (CEEC) manifestou as suas preocupações em relação à lei sobre a Educação Sexual nas Escolas, quando ainda estava em projecto, criticando a "redução da sexualidade à dimensão dos mecanismos corporais e reprodutores, que se pretendem controlar". "Todo o articulado se orienta para que apenas se comunique aos alunos informação que, supostamente, lhes permita precaverem-se contra gravidezes indesejadas, infecções transmissíveis e abusos sexuais", refere o parecer, apresentado na audição parlamentar que decorreu no âmbito dos trabalhos de apreciação na especialidade destes projectos de lei.
Para a CEEC, o documento do PS manifesta "muitas imprecisões e ambiguidades", vinculando "Educação Sexual" à "Educação para a Saúde", com a "ausência de uma clara e determinante relação com o desenvolvimento global da pessoa". O parecer lamenta a "falta de clareza de conceitos e de expressões, como por exemplo «igualdade de género», «sexualidade e género», «melhoria dos relacionamentos afectivo-sexuais dos jovens», «protecção do corpo e noção dos limites», «diversidade e tolerância» e «prevalência dos métodos contraceptivos»".
As críticas estendem-se à "ausência de referência à perspectiva das religiões e das diversas culturas, elementos que integram a sexualidade humana e desvendam a sua beleza". Por outro lado, "embora se afirme a importância do papel da família na educação sexual, continua a não aparecer com clareza a relação subsidiária da escola em relação à família, e, nessa óptica, a função educativa que a escola deveria exercer junto dos pais, ao serviço de uma adequada preparação dos mesmos, como educadores dos filhos no domínio da sexualidade", acrescenta o parecer.
A CEEC destaca como pontos positivos "a valorização da sexualidade – enquadrada em relações afectivas e vivida com responsabilidade – para o desenvolvimento harmonioso da pessoa humana", "a consideração do papel indispensável da família, dos pais, dos encarregados de educação e dos professores enquanto parceiros decisivos na educação sexual dos adolescentes e dos jovens" e "o entendimento da sexualidade como elemento indispensável na construção dum projecto de vida com valores e uma dimensão ética". Mas alerta para o facto de que "a educação da sexualidade deve ter um alcance muito mais vasto do que a aquisição de informação científica e técnica; sendo importante, permanecer nesse patamar é abrir a porta à vulgarização de relações humanas permissivas e irresponsáveis".
A partir do próximo ano lectivo, a Educação Sexual será "objecto de inclusão obrigatória nos projectos educativos dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas", como determina a lei n.º 60/2009, que já foi publicada em Diário da República. Assim, "o projecto de educação sexual" deverá ser elaborado pelo director de cada turma, com alguns professores de uma equipa interdisciplinar, designando os conteúdos e iniciativas a promover, numa carga horária "não inferior a seis horas para os 1º e 2º ciclos e a 12 horas para o 3º Ciclo e Secundário".
A mesma equipa, que será dirigida por um professor-coordenador para a área da Educação para a Saúde e Educação Sexual, terá também a seu cargo a gestão do gabinete de informação e apoio, que deverá funcionar "pelo menos uma manhã e uma tarde por semana" e disponibilizar "um espaço na internet" para responder a questões dos alunos.
O problema é que ainda não foram definidas as matérias que serão ensinadas nem quais os professores que as vão leccionar e que habilitações deverão ter. Apesar de o Ministério da Educação garantir que irá promover a formação de docentes, não explica como. E, se é para começar neste ano lectivo, já devia ter sido feita. Tal como sucedeu com o computador "Magalhães", os professores voltam a acusar o Governo de avançar com medidas antes de formar os professores para elas. Mas, dada a matéria de que agora se trata, o problema é bem mais grave e sensível do que foi o do referido brinquedo.
Uma das vozes que já se fez ouvir sobre o assunto foi a dos sindicatos, que afirmam a sua preocupação com o número "escasso" de professores com formação ou especialização nessa área. "O sistema não está preparado para responder em larga escala, ou na sua generalidade" a esta lei, referiu Carlos Chagas, presidente do Fenei/Sindep. "Não conhecemos especialização nessa área; se algum professor a fez, pagou-a do seu bolso e deve ser uma gotinha num oceano. E também não é uma formação que se dê em meia dúzia de horas", reitera Lucinda Dâmaso, da Federação Nacional dos Sindicatos de Educação.
Há um acordo na sociedade sobre a pertinência deste tema. Os princípios colocados na sua base são importantes, tais como "acabar com a discriminação e violência baseada na orientação sexual, reduzir gravidezes não desejadas e infecções sexualmente transmissíveis, defender a igualdade entre os sexos e a capacidade de protecção face a todas as formas de exploração e abuso sexuais, promover a compreensão científica do funcionamento dos mecanismos biológicos reprodutivos e valorizar uma sexualidade responsável e informada". O problema está na forma como isso será feito e quem terá competência para o fazer. Até porque sobre isso, há teorias e práticas diversas, algumas delas influenciadas por diferentes tradições culturais ou religiosas, que a Constituição manda defender.
Afirma-se que os pais vão poder monitorar a aplicação da lei e que os encarregados de educação serão "informados de todas as actividades desenvolvidas no âmbito da Educação Sexual". Mas como será isso feito? Tendo em conta o historial de participação dos pais na vida da escolar, quem o fará? E se não concordarem com o que observam, até que ponto podem recusar a participação dos seus filhos, sem serem eles próprios vítimas de discriminação?
São várias as perguntas a fazer no início deste ano lectivo, por muitos pais e encarregados de educação. Para ajudar à reflexão dos leitores, publicamos de seguida alguns textos sobre o assunto.
LMF
Um novo projecto de educação sexual
Recentemente, o Presidente da República alertou para a falta de qualidade de muitos textos legislativos. A falta de qualidade de leis da Assembleia da República e de decretos-leis do Governo não é um problema de hoje. Mas hoje é agravado pela hiperinflação legislativa. No momento em que se avizinham novas eleições, a novidade parece ser a de leis balneares, preparadas de modo apressado para aprovação antes de férias.
Entre os frutos sazonais da actividade parlamentar contam-se cada vez mais leis simbólicas, isto é, leis que se destinam mais a marcar a agenda política e satisfazer compromissos eleitorais do que, efectivamente, a legislar para o futuro.
A recente proposta de lei relativa à "aplicação da educação sexual em meio escolar" (Projecto de Lei n.º 660/X) é um bom exemplo do que não deve fazer-se.
Ninguém contesta ser necessário que jovens e adolescentes recebam informação científica sobre a sexualidade. Também ninguém contesta que o objectivo de diminuir o número de situações de gravidez precoce entre as adolescentes é correcto. A questão central é a de saber se o caminho adoptado pelo legislador é o mais adequado e, sobretudo, se estão respeitados os direitos das pessoas.
A mais recente iniciativa legislativa parlamentar é um cheque em branco a um futuro governo nesta matéria. De facto, tudo o que é essencial fica dependente de regulamentação pelo governo e não são definidos parâmetros legais em relação a tema nenhum, excepto em matérias administrativas que, estas sim, só pelo governo deviam ser regulamentadas.
Por um lado, portanto, é posto em causa o princípio da determinação e precisão das leis. Por outro, legisla-se em matéria que pode integrar o conteúdo de reserva de administração. Por exemplo, o funcionamento de gabinetes de informação nas escolas, que não serão dirigidos por médicos apesar de terem, entre outras atribuições, a de assegurar aos alunos os "meios contraceptivos adequados".
Pertencerá ao governo estabelecer o conteúdo curricular da disciplina. Mas o diploma em causa nada dispõe quanto aos direitos das crianças nesta matéria e ao modo como os podem exercer. Nada se regula também sobre os direitos dos pais.
Recentes episódios divulgados pela comunicação social em que professores têm conversas, no mínimo, inconvenientes com jovens estudantes deveriam aconselhar muita prudência em matéria tão delicada e que se prende com a saúde e o bem-estar físico e psíquico das crianças e jovens. E que, também por essa razão, exige professores com formação específica.
Compreende-se, assim, a preocupação de muitos pais com esta legislação confusa e errada, que coloca no mesmo plano normativo crianças de 6 anos e adultos que terminam o ensino secundário com 17 ou 18 anos.Estas questões são melindrosas e deveriam merecer maior respeito pela Constituição. Esta começa por estabelecer a responsabilidade primeira dos pais na educação dos seus filhos. São as mesmas responsabilidades que a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Convenção Europeia dos Direitos do Homem estabelecem.
Seria correcto pensar que o Estado assume o dever de ensinar os jovens sobre a sexualidade de modo objectivo e de acordo com a sua idade. Porém, se o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas (art.º 43.º da Constituição) e se os pais têm primazia na escolha do género de educação a dar aos seus filhos, a resposta própria de um Estado pluralista é a de que tem de reconhecer-se aos pais o direito de opor-se a que os seus filhos recebam conteúdos informativos quando estes ofendem as suas convicções religiosas e filosóficas profundas.
Recorde-se que a orientação do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem vai em três sentidos fundamentais: os pais não podem opor-se ao ensino obrigatório da educação sexual se os fins e o conteúdo do currículo forem objectivos e cientificamente adequados à idade das crianças; tem de ficar assegurado o direito dos pais a aconselhar e guiar os seus filhos de acordo com as suas convicções; as indicações curriculares não podem ser entendidas como uma exaltação da vida sexual e da entrada precoce das crianças em práticas perigosas para a sua estabilidade, saúde ou futuro.
Pedro Barbas Homem, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (Público - 15.07.2009)
Educação para Sexualidade: a ditadura da maioria
Com a aprovação, pela maioria parlamentar, do projecto de lei relativo à aplicação da educação sexual em meio escolar, estamos perante um caso gritante de ditadura da maioria e de utilização do Estado para propagar uma doutrina particular.
Ditadura da maioria porque uma maioria parlamentar, seja ela de que dimensão for, se arroga o direito de impor o que deverá ser leccionado em matéria de sexualidade aos filhos de todos os portugueses, mesmo daqueles que consideram profundamente errada e prejudicial a visão sobre a sexualidade que está subjacente aos conteúdos que constam do referido diploma legal.
Não está em causa a visão propriamente dita, mas tão-somente o facto de se tratar de uma visão particular, ou seja, de existir na sociedade um conjunto significativo de cidadãos que a refuta totalmente. Ninguém tem o direito de impor a todos os pais qual é forma como deve a escola ensinar aos seus filhos a "melhoria dos relacionamentos afectivo-sexuais dos jovens" ou o que é a "noção de família". Quais relacionamentos? Melhoria segundo que critério? Quem escolhe esse critério? E que "noção de família" vai ser propagada? E que dizer sobre os valores que vão ser veiculados com a criação do "dia anual da educação sexual nas escolas"?
Ora, perante a óbvia divergência num tema que toca o mais íntimo das pessoas, será que pode um conjunto de iluminados, mesmo tratando-se de deputados da República, impor a obrigatoriedade da sua visão particular? Ou seja, impor aos pais que os seus filhos sejam educados para a sexualidade na escola segundo critérios e valores que eles não partilham não será sinal de uma postura ditatorial?
Perante este quadro, importa questionar: as escolas existem para auxiliar os pais na educação dos filhos, como a Constituição da República Portuguesa prevê, ou para um conjunto de personalidades, mais ou menos iluminadas, as utilizar como veículo da sua visão particular do mundo?
Da leitura do projecto de lei surge o absurdo de tudo isto: "A presente lei aplica-se a todos os estabelecimentos da rede pública, bem como aos estabelecimentos da rede privada e cooperativa com contrato de associação, de todo o território nacional". Ou seja, aqueles que tiverem capacidade financeira para escolher a escola dos filhos, esses estão fora da alçada iluminada do legislador. Donde se conclui que os critérios e as matérias em causa já não são fundamentais ao pleno desenvolvimento e preparação para a vida activa. Afinal, a maioria parlamentar está apenas a zelar pela plebe que frequenta as escolas suportadas pelos nossos impostos, no fundo, aquelas que ela considera, como o consideraram outras maiorias parlamentares antes desta, serem as suas escolas. É dessas que se trata e nessas, sua coutada particular, arroga-se o direito de pôr e dispor como lhe aprouver, tratando os cidadãos como seus servos.
Normalmente, porque depende do voto, segue "as modas" do politicamente correcto, mas não é por isso que deixa de ser uma ditadura. A liberdade perde-se pouco a pouco. Por isso, não há regime democrático sem a protecção daqueles que não pensam de acordo com a maioria, dos que são politicamente incorrectos, dos que defendem ideias que a maioria considera imbecis, tontas ou mesmo irrealistas; daqueles de quem não gostamos, mas que toleramos, porque aceitam obedecer às mesmas leis. Insuflar de valores e critérios obrigatórios o currículo obrigatório, mesmo com pretensas boas intenções, só pode agradar aos inimigos da liberdade.
A coberto de ideias generosas, como a diminuição da gravidez na adolescência ou da incidência do vírus VIH/SIDA, obrigar os pais a aceitar que os seus filhos recebam informação e formação de acordo com critérios que não desejam e de uma forma contrária aos seus princípios, não só é cruel como contribui para desresponsabilizar os pais. E falar do "reconhecimento em tudo isto do papel indispensável da família, dos pais, dos encarregados de educação e dos professores", num sistema de ensino em que as escolas têm uma reduzidíssima autonomia na construção do seu currículo e os pais uma ínfima palavra nos destinos da escola, é simplesmente hipócrita.
Francisco Vieira e Sousa, militante do PS e secretário-geral do Fórum para a Liberdade de Educação (Público - 11/04/09)
Parecer da Comissão Episcopal da Educação Cristã na audição parlamentar
Igreja preocupada com "ambiguidades" da lei
A Comissão Episcopal da Educação Cristã (CEEC) manifestou as suas preocupações em relação à lei sobre a Educação Sexual nas Escolas, quando ainda estava em projecto, criticando a "redução da sexualidade à dimensão dos mecanismos corporais e reprodutores, que se pretendem controlar". "Todo o articulado se orienta para que apenas se comunique aos alunos informação que, supostamente, lhes permita precaverem-se contra gravidezes indesejadas, infecções transmissíveis e abusos sexuais", refere o parecer, apresentado na audição parlamentar que decorreu no âmbito dos trabalhos de apreciação na especialidade destes projectos de lei.
Para a CEEC, o documento do PS manifesta "muitas imprecisões e ambiguidades", vinculando "Educação Sexual" à "Educação para a Saúde", com a "ausência de uma clara e determinante relação com o desenvolvimento global da pessoa". O parecer lamenta a "falta de clareza de conceitos e de expressões, como por exemplo «igualdade de género», «sexualidade e género», «melhoria dos relacionamentos afectivo-sexuais dos jovens», «protecção do corpo e noção dos limites», «diversidade e tolerância» e «prevalência dos métodos contraceptivos»".
As críticas estendem-se à "ausência de referência à perspectiva das religiões e das diversas culturas, elementos que integram a sexualidade humana e desvendam a sua beleza". Por outro lado, "embora se afirme a importância do papel da família na educação sexual, continua a não aparecer com clareza a relação subsidiária da escola em relação à família, e, nessa óptica, a função educativa que a escola deveria exercer junto dos pais, ao serviço de uma adequada preparação dos mesmos, como educadores dos filhos no domínio da sexualidade", acrescenta o parecer.
A CEEC destaca como pontos positivos "a valorização da sexualidade – enquadrada em relações afectivas e vivida com responsabilidade – para o desenvolvimento harmonioso da pessoa humana", "a consideração do papel indispensável da família, dos pais, dos encarregados de educação e dos professores enquanto parceiros decisivos na educação sexual dos adolescentes e dos jovens" e "o entendimento da sexualidade como elemento indispensável na construção dum projecto de vida com valores e uma dimensão ética". Mas alerta para o facto de que "a educação da sexualidade deve ter um alcance muito mais vasto do que a aquisição de informação científica e técnica; sendo importante, permanecer nesse patamar é abrir a porta à vulgarização de relações humanas permissivas e irresponsáveis".
Crónica das Festas da Batalha
"Muralha de silêncio num País sem memória"
O feriado que é municipal, mas deveria ser nacional. A memória que enfraquece e as palavras de quem teima em perpetuá-la. A ausência das pessoas e as enchentes de gente. Da lição histórica ao desporto, da sessão solene ao beberete de emigrantes, das artes ao espectáculo, os momentos e as contradições das festas de Agosto, que são da Batalha, mas deveriam ser dos batalhenses, ou
melhor, dos portugueses.
Cerimónia
Dia 14 de Agosto, 12h00, capela do fundador do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Começam oficialmente as Festas da Batalha 2009. Sem contar os turistas que vão deambulando pelo espaço, cerca de duas dezenas de pessoas estão presentes para a homenagem a D. João I. Acompanhando o toque da parada militar constituída por uma dezena de soldados, os representantes de algumas entidades públicas, como o Governo Civil de Leiria, a Câmara Municipal da Batalha, a Fundação Batalha de Aljubarrota e o próprio Mosteiro, depositam coroas de flores junto ao túmulo real.
Toma a palavra o historiador Saul Gomes. Num discurso breve e acutilante, sintetiza o simbolismo deste dia e daquele ambiente. Os portugueses "a banhos" de hoje, não são já os mesmos que lutaram pela sua pátria em 1385, nem os que navegaram à descoberta do mundo. Este, que deveria ser um "acto de cidadania e de afirmação da identidade nacional", não passa de uma "envergonhada cerimónia", cuja comemoração passa ao lado das entidades nacionais, das agendas dos meios de comunicação social e dos portugueses em geral.
"Como é possível chegarmos a este ponto?", pergunta o ilustre académico, ao constatar que "nas comemoração após Abril de 1974, o Mosteiro da Batalha foi sempre esquecido no seu valor e simbolismo, excepto em pequenas notas de rodapé". A "forte consciência nacional que levou ao tudo ou nada em 1385" já não se vislumbra nos nossos dias, quando a ideia de Pátria deveria ainda ser a mesma, assente nos ideais de "lealdade" e "fazer o bem" que moveram os heróis de outrora e que "ecoam mil vezes" nos pormenores esculpidos neste Mosteiro.
"Muralha de silêncio num País sem memória" foi a bela expressão de uma triste realidade com que o orador caracterizou este monumento, "onde desde há vários séculos se evoca Portugal, e onde nos sentimos mais portugueses e orgulhosos de o sermos".
O discurso é digno de ser lido na sua íntegra e temos já a promessa do seu envio pelo autor, para publicação no próximo mês.
Sessão solene
Da parte da tarde, após a inauguração da exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas" (ver ao fundo), realizou-se a sessão solene do feriado municipal, que contou com a animação musical de Francisco Chirife, pianista argentino residente na Batalha. Cerca de 60 pessoas presentes, muitas delas por amizade ao escritor Aníbal Nobre, cuja obra "Lendas e histórias da nossa História" foi aí apresentada, outras porque iriam receber as medalhas de mérito ou de bons serviços do Município.
O livro de Aníbal Nobre, editado pela autarquia, reúne um conjunto de textos premiados em concursos literários, onde as personagens principais estão profundamente ligadas à Batalha. "Trata-se de uma mistura da História com a imaginação, em lendas que brotam da minha admiração e do consumo compulsivo por tudo o que diz respeito à Dinastia de Avis", referiu o autor, natural de Olhão, mas que se considera por essa via muito ligado à nossa história local. "Na publicação que agora editamos, encontram-se retratados factos, histórias e lendas que de uma forma interessante, pedagógica e bastante actual, envolvem D. João I, D. Duarte, D. Afonso V, D. João II (todos a repousar no Mosteiro de Santa Maria da Vitória) e também o recentemente canonizado pela Igreja Católica, São Nuno de Santa Maria. (...) [A todos] são reconhecidas enormes virtudes, grande capacidade de liderança e uma estreita ligação à Batalha, à sua história e ao seu património", refere António Lucas no prefácio.
Seguiu-se a atribuição de medalhas de assiduidade e bons serviços aos funcionários da autarquia já aposentados e também das medalhas de mérito municipal. Neste campo, coube a especial distinção com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal ao padre Virgílio Antunes, natural de S. Mamede, pelo distinto currículo eclesiástico, nomeadamente pela nomeação como Reitor do Santuário de Fátima, em Setembro de 2008.
Foi ainda atribuída a medalha de prata de mérito cultural e desportivo ao nadador Nuno Maximiano, ao agente cultural Joaquim Lima da Silva, ao Batalha Andebol Clube, à Associação Desportiva da Batalha, à Associação Recreativa Amarense, ao Rancho Folclórico do Penedo, à Associação Cultural Sons do Lena, ao rancho "As Lavadeiras do Vale do Lena", este último do nosso Centro Recreativo da Golpilheira.
No discurso de encerramento, o presidente da autarquia, António Lucas, salientou a importância deste acto solene de reconhecimento do talento e do trabalho das pessoas e instituições do concelho. E não deixou de lembrar a linha de acção que o município está a seguir, com destaque para a área social, cujos projectos "são os que menos se vêem, onde menos verbas são dispendidas, mas aqueles que nos dão maior sensação do dever cumprido".
Multidões
Após a sessão, realizou-se no pavilhão multiusos da vila mais um Encontro Anual de Emigrantes do Concelho da Batalha. À volta de um banquete oferecido pela autarquia, em sinal do bom acolhimento aos batalhenses que andam pelos vários países da diáspora, cerca de duas centenas de pessoas conviveram alegremente, com animação do grupo "Cancioneiro da Região da Magueixa". Enquanto isso, abria a 2.ª edição da Mostra das Actividades Económicas, no largo Cónego Simões Inácio, com a presença de algumas empresas, sobretudo dos sectores automóvel, de maquinarias e agrícola.
O cair da noite trouxe mais algumas dezenas de pessoas junto à estátua equestre do Santo Condestável, onde a apresentação multimédia "D. Nuno Revisitado", dirigida pelo actor batalhense Tobias Monteiro, lembrou os principais momentos da vida do homem, do herói e do novo Santo português. A homenagem, baseada em projecção de imagens, jogos de luz e interacção do actor com o público, contou ainda com as intervenções filmadas de José Travaços Santos, historial local, e Alexandre Patrício Gouveia, presidente da Fundação Batalha de Aljubarrota.
Mas a verdadeira festa de multidões começaria apenas depois deste momento, já no recinto junto às Capelas Imperfeitas, onde o palco principal iria receber a batalhense Suzana e o famoso Paulo Gonzo. Aqui, as dezenas passaram a milhares, dando um sinal do acerto da organização quanto aos artistas convidados para encher o espaço. Se neste primeiro dia estava "composto", no último serão iria estar "à pinha", com o grupo "Xutos e Pontapés" a trazer à Batalha, sem qualquer dúvida, uma das maiores enchentes dos últimos anos.
Pelo meio, o rancho Rosas do Lena organizou a 24.ª Gala Internacional de Folclore, também ela catalizadora de muitas centenas de visitantes.
O grupo anfitrião abriu com o espectáculo etnográfico "A Batalha a Cantar e a Dançar, da Quaresma a Santo António", uma interessante mostra de alguns usos e costumes tradicionais da Alta Estremadura, seguindo a actuação dos convidados: Grupo de Capoeira Ginga Camará (Brasil), Grupo "Os Ceifeiros da Bemposta" (Estremadura), Grupo IZMIR (Turquia), Grupo Dr. Gonçalo Sampaio (Minho) e Grupo Pääsuke (Estónia).
Foi mais excelente mostra etnográfica, rica e diversificada nos ritmos e cores próprios de cada cultura, não só regional como internacional.
Desporto
É já habitual a inclusão do desporto e lazer no programa destas festas. Assim, no dia 15, realizou-se na zona desportiva da vila mais uma prova de atletismo "Batalha Jovem" (benjamins, infantis e iniciados) e um Grande Prémio de Atletismo "Mestre de Avis – São Nuno de Santa Maria", com percurso entre S. Jorge e a Batalha. Enquanto isso, decorria um passeio pedestre pelas margens do Lena para os apreciadores das caminhadas.
Mas a novidade deste ano foi a realização, no campo sintético, do I Torneio de Futebol Inter-Freguesias "São Nuno de Santa Maria". Cada freguesia apresentou a sua selecção, constituída por cerca de duas dezenas de atletas veteranos, para um evento que pretendeu, acima de tudo motivar o convívio e o são desportivismo entre todos.
Dado que os prémios eram o menos importante, o torneio disputou-se por eliminatórias directas, sem chegar a haver confronto entre as quatro participantes. Assim, no primeiro jogo, estiveram frente a frente a Golpilheira e a Batalha, que a nossa equipa perdeu por 3-1. No jogo entre derrotados da primeira-mão, a Golpilheira acabou por vencer o Reguengo do Fetal por 2-0, conquistando assim o 3º lugar. No jogo da final, S. Mamede sagrou-se campeã, frente à Batalha.
Ainda no decorrer das festas, houve espaço para um torneio aberto de xadrez, para diversos jogos tradicionais, e até para uma tarde de caricaturas realizadas por José Oliveira, conhecido autor de "Os Corvos".
Luís Miguel Ferraz
Na galeria Mouzinho de Albuquerque até 13 de Setembro
Exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas"
Foi inaugurada, no dia 14 de Agosto, na galeria Mouzinho de Albuquerque, a exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas", do Museu da Presidência da República. A mostra, que reúne todas as ordens honoríficas existentes em Portugal e explica o significado de cada uma dessas condecorações, poderá ser visitada até 13 de Setembro.
As Ordens Honoríficas Portuguesas são agrupadas conforme a sua origem ou natureza em Antigas Ordens Militares, Ordens Nacionais e Ordens de Mérito Civil. A sua atribuição conta com uma longa tradição, cabendo ao Chefe de Estado superintender todo o processo. O sistema sofreu uma natural evolução ao longo dos séculos, tendo algumas das actuais ordens origem na Idade Média – as antigas ordens monástico-militares de Cristo, de Avis e de Santiago da Espada. Até à sua extinção, em 1834, foram verdadeiras ordens religiosas, criadas nos séculos XII a XIV, com aprovação da Santa Sé e protecção régia, visando a «Reconquista», para a qual muito contribuíram. Inspiraram-se nas ordens militares criadas no Reino de Jerusalém no século XI para defesa da Terra Santa - a Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém e a Ordem dos Templários.
Na mesma inspiração surgiram, no século XIV, as ordens de cavalaria, tendo por fim recompensar serviços ou a fidelidade ao Soberano, tendo a natureza de confrarias ou corporações nobiliárquicas de natureza secular mas confessionais e de inspiração cristã.
Sucederam-se no tempo, após a Revolução Francesa, as modernas ordens de mérito inspiradas no princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei e totalmente laicas. O seu modelo foi a Legião de Honra, criada em 1802, pelo Primeiro-Cônsul Napoleão Bonaparte. Possuindo vários graus, visavam recompensar o mérito civil ou militar.
Com o fim da «Reconquista» no território português, as ordens militares sofreram igualmente uma evolução que passou pelo relaxamento dos primitivos votos de pobreza e castidade e pela perda da sua autonomia no século XVI, com a entrega da sua administração à Coroa. O processo culminaria no século XIX, com a extinção das ordens religiosas, que conduziu à sua transformação em ordens de mérito assentes no mérito individual, laicas e puramente honoríficas.
Em 1910, logo após Revolução Republicana, as ordens vigentes sob o deposto regime monárquico foram extintas, tendo no entanto, em 1918, em plena Guerra Mundial, sido restabelecidas como ordens honoríficas ou de mérito, sendo a função de Grão-Mestre atribuída ao Presidente da República.
O feriado que é municipal, mas deveria ser nacional. A memória que enfraquece e as palavras de quem teima em perpetuá-la. A ausência das pessoas e as enchentes de gente. Da lição histórica ao desporto, da sessão solene ao beberete de emigrantes, das artes ao espectáculo, os momentos e as contradições das festas de Agosto, que são da Batalha, mas deveriam ser dos batalhenses, ou
melhor, dos portugueses.
Cerimónia
Dia 14 de Agosto, 12h00, capela do fundador do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Começam oficialmente as Festas da Batalha 2009. Sem contar os turistas que vão deambulando pelo espaço, cerca de duas dezenas de pessoas estão presentes para a homenagem a D. João I. Acompanhando o toque da parada militar constituída por uma dezena de soldados, os representantes de algumas entidades públicas, como o Governo Civil de Leiria, a Câmara Municipal da Batalha, a Fundação Batalha de Aljubarrota e o próprio Mosteiro, depositam coroas de flores junto ao túmulo real.
Toma a palavra o historiador Saul Gomes. Num discurso breve e acutilante, sintetiza o simbolismo deste dia e daquele ambiente. Os portugueses "a banhos" de hoje, não são já os mesmos que lutaram pela sua pátria em 1385, nem os que navegaram à descoberta do mundo. Este, que deveria ser um "acto de cidadania e de afirmação da identidade nacional", não passa de uma "envergonhada cerimónia", cuja comemoração passa ao lado das entidades nacionais, das agendas dos meios de comunicação social e dos portugueses em geral.
"Como é possível chegarmos a este ponto?", pergunta o ilustre académico, ao constatar que "nas comemoração após Abril de 1974, o Mosteiro da Batalha foi sempre esquecido no seu valor e simbolismo, excepto em pequenas notas de rodapé". A "forte consciência nacional que levou ao tudo ou nada em 1385" já não se vislumbra nos nossos dias, quando a ideia de Pátria deveria ainda ser a mesma, assente nos ideais de "lealdade" e "fazer o bem" que moveram os heróis de outrora e que "ecoam mil vezes" nos pormenores esculpidos neste Mosteiro.
"Muralha de silêncio num País sem memória" foi a bela expressão de uma triste realidade com que o orador caracterizou este monumento, "onde desde há vários séculos se evoca Portugal, e onde nos sentimos mais portugueses e orgulhosos de o sermos".
O discurso é digno de ser lido na sua íntegra e temos já a promessa do seu envio pelo autor, para publicação no próximo mês.
Sessão solene
Da parte da tarde, após a inauguração da exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas" (ver ao fundo), realizou-se a sessão solene do feriado municipal, que contou com a animação musical de Francisco Chirife, pianista argentino residente na Batalha. Cerca de 60 pessoas presentes, muitas delas por amizade ao escritor Aníbal Nobre, cuja obra "Lendas e histórias da nossa História" foi aí apresentada, outras porque iriam receber as medalhas de mérito ou de bons serviços do Município.
O livro de Aníbal Nobre, editado pela autarquia, reúne um conjunto de textos premiados em concursos literários, onde as personagens principais estão profundamente ligadas à Batalha. "Trata-se de uma mistura da História com a imaginação, em lendas que brotam da minha admiração e do consumo compulsivo por tudo o que diz respeito à Dinastia de Avis", referiu o autor, natural de Olhão, mas que se considera por essa via muito ligado à nossa história local. "Na publicação que agora editamos, encontram-se retratados factos, histórias e lendas que de uma forma interessante, pedagógica e bastante actual, envolvem D. João I, D. Duarte, D. Afonso V, D. João II (todos a repousar no Mosteiro de Santa Maria da Vitória) e também o recentemente canonizado pela Igreja Católica, São Nuno de Santa Maria. (...) [A todos] são reconhecidas enormes virtudes, grande capacidade de liderança e uma estreita ligação à Batalha, à sua história e ao seu património", refere António Lucas no prefácio.
Seguiu-se a atribuição de medalhas de assiduidade e bons serviços aos funcionários da autarquia já aposentados e também das medalhas de mérito municipal. Neste campo, coube a especial distinção com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal ao padre Virgílio Antunes, natural de S. Mamede, pelo distinto currículo eclesiástico, nomeadamente pela nomeação como Reitor do Santuário de Fátima, em Setembro de 2008.
Foi ainda atribuída a medalha de prata de mérito cultural e desportivo ao nadador Nuno Maximiano, ao agente cultural Joaquim Lima da Silva, ao Batalha Andebol Clube, à Associação Desportiva da Batalha, à Associação Recreativa Amarense, ao Rancho Folclórico do Penedo, à Associação Cultural Sons do Lena, ao rancho "As Lavadeiras do Vale do Lena", este último do nosso Centro Recreativo da Golpilheira.
No discurso de encerramento, o presidente da autarquia, António Lucas, salientou a importância deste acto solene de reconhecimento do talento e do trabalho das pessoas e instituições do concelho. E não deixou de lembrar a linha de acção que o município está a seguir, com destaque para a área social, cujos projectos "são os que menos se vêem, onde menos verbas são dispendidas, mas aqueles que nos dão maior sensação do dever cumprido".
Multidões
Após a sessão, realizou-se no pavilhão multiusos da vila mais um Encontro Anual de Emigrantes do Concelho da Batalha. À volta de um banquete oferecido pela autarquia, em sinal do bom acolhimento aos batalhenses que andam pelos vários países da diáspora, cerca de duas centenas de pessoas conviveram alegremente, com animação do grupo "Cancioneiro da Região da Magueixa". Enquanto isso, abria a 2.ª edição da Mostra das Actividades Económicas, no largo Cónego Simões Inácio, com a presença de algumas empresas, sobretudo dos sectores automóvel, de maquinarias e agrícola.
O cair da noite trouxe mais algumas dezenas de pessoas junto à estátua equestre do Santo Condestável, onde a apresentação multimédia "D. Nuno Revisitado", dirigida pelo actor batalhense Tobias Monteiro, lembrou os principais momentos da vida do homem, do herói e do novo Santo português. A homenagem, baseada em projecção de imagens, jogos de luz e interacção do actor com o público, contou ainda com as intervenções filmadas de José Travaços Santos, historial local, e Alexandre Patrício Gouveia, presidente da Fundação Batalha de Aljubarrota.
Mas a verdadeira festa de multidões começaria apenas depois deste momento, já no recinto junto às Capelas Imperfeitas, onde o palco principal iria receber a batalhense Suzana e o famoso Paulo Gonzo. Aqui, as dezenas passaram a milhares, dando um sinal do acerto da organização quanto aos artistas convidados para encher o espaço. Se neste primeiro dia estava "composto", no último serão iria estar "à pinha", com o grupo "Xutos e Pontapés" a trazer à Batalha, sem qualquer dúvida, uma das maiores enchentes dos últimos anos.
Pelo meio, o rancho Rosas do Lena organizou a 24.ª Gala Internacional de Folclore, também ela catalizadora de muitas centenas de visitantes.
O grupo anfitrião abriu com o espectáculo etnográfico "A Batalha a Cantar e a Dançar, da Quaresma a Santo António", uma interessante mostra de alguns usos e costumes tradicionais da Alta Estremadura, seguindo a actuação dos convidados: Grupo de Capoeira Ginga Camará (Brasil), Grupo "Os Ceifeiros da Bemposta" (Estremadura), Grupo IZMIR (Turquia), Grupo Dr. Gonçalo Sampaio (Minho) e Grupo Pääsuke (Estónia).
Foi mais excelente mostra etnográfica, rica e diversificada nos ritmos e cores próprios de cada cultura, não só regional como internacional.
Desporto
É já habitual a inclusão do desporto e lazer no programa destas festas. Assim, no dia 15, realizou-se na zona desportiva da vila mais uma prova de atletismo "Batalha Jovem" (benjamins, infantis e iniciados) e um Grande Prémio de Atletismo "Mestre de Avis – São Nuno de Santa Maria", com percurso entre S. Jorge e a Batalha. Enquanto isso, decorria um passeio pedestre pelas margens do Lena para os apreciadores das caminhadas.
Mas a novidade deste ano foi a realização, no campo sintético, do I Torneio de Futebol Inter-Freguesias "São Nuno de Santa Maria". Cada freguesia apresentou a sua selecção, constituída por cerca de duas dezenas de atletas veteranos, para um evento que pretendeu, acima de tudo motivar o convívio e o são desportivismo entre todos.
Dado que os prémios eram o menos importante, o torneio disputou-se por eliminatórias directas, sem chegar a haver confronto entre as quatro participantes. Assim, no primeiro jogo, estiveram frente a frente a Golpilheira e a Batalha, que a nossa equipa perdeu por 3-1. No jogo entre derrotados da primeira-mão, a Golpilheira acabou por vencer o Reguengo do Fetal por 2-0, conquistando assim o 3º lugar. No jogo da final, S. Mamede sagrou-se campeã, frente à Batalha.
Ainda no decorrer das festas, houve espaço para um torneio aberto de xadrez, para diversos jogos tradicionais, e até para uma tarde de caricaturas realizadas por José Oliveira, conhecido autor de "Os Corvos".
Luís Miguel Ferraz
Na galeria Mouzinho de Albuquerque até 13 de Setembro
Exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas"
Foi inaugurada, no dia 14 de Agosto, na galeria Mouzinho de Albuquerque, a exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas", do Museu da Presidência da República. A mostra, que reúne todas as ordens honoríficas existentes em Portugal e explica o significado de cada uma dessas condecorações, poderá ser visitada até 13 de Setembro.
As Ordens Honoríficas Portuguesas são agrupadas conforme a sua origem ou natureza em Antigas Ordens Militares, Ordens Nacionais e Ordens de Mérito Civil. A sua atribuição conta com uma longa tradição, cabendo ao Chefe de Estado superintender todo o processo. O sistema sofreu uma natural evolução ao longo dos séculos, tendo algumas das actuais ordens origem na Idade Média – as antigas ordens monástico-militares de Cristo, de Avis e de Santiago da Espada. Até à sua extinção, em 1834, foram verdadeiras ordens religiosas, criadas nos séculos XII a XIV, com aprovação da Santa Sé e protecção régia, visando a «Reconquista», para a qual muito contribuíram. Inspiraram-se nas ordens militares criadas no Reino de Jerusalém no século XI para defesa da Terra Santa - a Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém e a Ordem dos Templários.
Na mesma inspiração surgiram, no século XIV, as ordens de cavalaria, tendo por fim recompensar serviços ou a fidelidade ao Soberano, tendo a natureza de confrarias ou corporações nobiliárquicas de natureza secular mas confessionais e de inspiração cristã.
Sucederam-se no tempo, após a Revolução Francesa, as modernas ordens de mérito inspiradas no princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei e totalmente laicas. O seu modelo foi a Legião de Honra, criada em 1802, pelo Primeiro-Cônsul Napoleão Bonaparte. Possuindo vários graus, visavam recompensar o mérito civil ou militar.
Com o fim da «Reconquista» no território português, as ordens militares sofreram igualmente uma evolução que passou pelo relaxamento dos primitivos votos de pobreza e castidade e pela perda da sua autonomia no século XVI, com a entrega da sua administração à Coroa. O processo culminaria no século XIX, com a extinção das ordens religiosas, que conduziu à sua transformação em ordens de mérito assentes no mérito individual, laicas e puramente honoríficas.
Em 1910, logo após Revolução Republicana, as ordens vigentes sob o deposto regime monárquico foram extintas, tendo no entanto, em 1918, em plena Guerra Mundial, sido restabelecidas como ordens honoríficas ou de mérito, sendo a função de Grão-Mestre atribuída ao Presidente da República.
Especial • São Nuno de Santa Maria
A propósito de mais uma comemoração aniversária da Batalha de Aljubarrota,
publicamos nestas páginas dois textos sobre a figura do seu herói maior: D. Nuno Álvares Pereira, ou Santo Condestável, ou – agora – São Nuno de Santa Maria.
Nunca é demais lembrar o homem que viveu exemplarmente a sua humanidade, o valoroso cavaleiro que lutou corajosamente pela defesa da independência e da identidade da sua Pátria, o frade que encontrou nas virtudes cristãs da pobreza e da doação de si o caminho para a santidade. Uma santidade que, antes de ser reconhecida oficialmente pela Igreja, já o era, desde sempre, pelo povo que amava e servia.
O primeiro artigo é uma reflexão que cruza estas várias facetas de D. Nuno, da autoria do conceituado Doutor Saul António Gomes, um dos maiores estudiosos da actualidade sobre a história e o património, sobretudo, da nossa região.
O segundo texto é a nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, emitida aquando do
anúncio da canonização deste santo português, onde se destacam os principais elementos deste processo e se apontam vias para que saibamos, hoje, ser dignos do seu exemplo e imitadores das suas virtudes.
Esperamos que sirvam para um maior conhecimento sobre este nosso “herói” e para uma maior consciência do seu valor enquanto exemplo válido e actual para os nossos dias.
D. Nuno Álvares Pereira
Glória, honra e exemplo
Grande mistério é a história que só no tempo longo e secular se confirma como sucede, nos dias felizes em que nos é dado viver, com a vida e a memória de D. Nuno Álvares Pereira, Condestável do exércitos portugueses que, nos campos dentre Aljubarrota e Porto de Mós, no distante dia 14 de Agosto de 1385, destroçaram o orgulho castelhano e asseguraram novo rei, nova dinastia e uma nova Era nos destinos de Portugal no Mundo.
D. Nuno Álvares Pereira nasceu, segundo asseveram velhas crónicas, em 24 de Junho de 1360, dia de S. João Baptista. No nascimento certo astrólogo, profissão benquista nesses séculos, prognosticou ao recém-nascido um destino de excepção. Nuno fez-se notar desde cedo pela sua argúcia e comportamento. Seu pai, Dom Prior do Crato, levou-o com o irmão mais velho à intimidade da cúria régia de D. Fernando.
Não foi o Condestável, nos dias da sua vida militar e de grande cortesão e senhor, homem de humildades. Pelo contrário. Os historiadores sabem bem que o herói da Real Batalha de Aljubarrota não conhecia limites em matéria de património, de benefícios e de privilégios. Exigia-os mesmo do seu soberano rei e fê-lo, até, em determinado momento, no extremo da ameaça presente a D. João I de se desnaturalizar da pátria que tanto servira.
Mas não é o senhor de guerras e de grandes e faustosos palácios e invejáveis mordomias que, agora, tantos séculos passados sobre a sua morte e vida, a Igreja Católica confirma no altar dos mais veneráveis exemplos de santidade. É antes o de Fr. Nuno de Santa Maria, o fiel que, na recepção do hábito do Carmelo, assumiu uma nova aliança com o Deus em que tanto confiara e que tão profeticamente lhe marcara a vida e o poupara de perigos e da iminência da morte nos campos de batalha.
Aos 62 anos de idade, no ano de Cristo de 1422, de facto, recolheu-se D. Nuno Álvares Pereira ao Convento do Carmo de Lisboa, que ele mesmo erguera anos antes, para, renunciando às glórias e às honras temporais com que o destino tanto o brindara tão generosamente, se entregar às asceses mais rigorosas do convívio espiritual dos pobres frades carmelitas. Na renúncia às riquezas do mundo, Fr. Nuno traçava para ele próprio a batalha última da sua vida, procurando, pelo preço da renúncia radical ao Mundo e ao conforto dos bens materiais, a Verdade última que a morte de todo o homem encerra.
A 1 de Abril de 1431, justamente em Domingo de Páscoa, Fr. Nuno de Santa Maria, com 71 anos incompletos, fechava os olhos para os dias e os trabalhos mundanos e abria-os, à luz da Fé e da doutrina eclesial, para os verdes prados do Bom-Pastor e para a ceia eterna com o Filho do Homem. A sua biografia de general dos exércitos e de senhor feudal não esconde uma personalidade indómita e irascível, homem que era de excepcional carisma e capacidade de mando, frequentemente, até, capaz de destratar família e criadagem de modo humilhante e sem pingo de ternura.
Dele bem poderemos escrever, como o proclamaram os profetas dos reis de Israel, que o Senhor o coroou de glória e de honra. Fr. Nuno de Santa Maria faleceu em odor de santidade. Teve, entre os filhos de D. João I, os seus mais fervorosos admiradores a começar por D. Duarte, que imaginamos, na distância virtual de tanto tempo passado, presente nas exéquias de Fr. Nuno, lá na igreja quase batalhina do Convento do Carmo, nela escutando a pregação de Mestre Francisco, para cujo sermão, aliás, lhe dera os temas que desejava ver proclamados do púlpito. Em 21 de Abril de 1437, o Rei Eloquente escrevia ao influente Abade D. Gomes, de Florença, falando-lhe da canonização do “Santo Condestável”, sendo que o Papa Eugénio IV, por esses dias, mandara organizar o respectivo processo.
Também o Infante D. Pedro, caído em Alfarrobeira (†1449), mostrou grande devoção por S. Nuno, atribuindo-se-lhe a responsabilidade da redacção da oração litúrgica própria: “Norma principum, exemplar dominorum, speculum anachoretarum es, beate Nune. Tu securus et fortis in proelio, tu humilis et pius in victoria, tu justus et misericors in pace, tu oboediens et devotus in claustro…” (“Esteio dos príncipes, exemplo dos senhores, espelho de monges és tu S. Nuno. Tu, seguro e forte no combate, tu, humilde e piedoso na vitória, tu, justo e misericordioso na paz, tu, obediente e devoto no claustro”).
Nos anos imediatos ao seu passamento, os frades carmelitas de Lisboa coligiram várias centenas de milagres, tendo cabido ao famoso cronista Gomes Eanes de Zurara (†1474) redigir uma narrativa de 221 deles, na maior parte ocorridos no reinado de D. Afonso V (†1481). Nalguns Breviários carmelitas do Século XV regista-se a festa, a 1 de Abril, de “Nonii comitis confessoris” (Do Confessor Conde Nuno), sinal de que, dentro da Ordem, colhia devoções e culto. Dessa mesma Centúria é o testemunho do Chantre de Évora, Martim Vasques, que fora criado da casa de D. Nuno e protegido da Casa de Bragança, chamando-lhe, em testamento de 22 de Maio de 1470, “Conde Santo”.
A veneração ao Santo Condestável manter-se-á entre os Portugueses desde então, posto que nem sempre com a visibilidade pública e o reconhecimento canónico desejáveis. Mas esta é matéria que aguarda ainda uma ingente investigação histórica, assim como seria desejável que se promovesse uma nova biografia, com amplo rigor histórico, sobre D. Nuno Álvares Pereira.
A 15 de Janeiro de 1918, o Papa Bento XV, pelo decreto Clementissimus Deus, reconheceu o Beato Nuno e consentiu-lhe culto oficial, assim incrementando a devoção católica ao Santo Condestável. Agora, é o novo Sumo Pontífice, Bento XVI, que fecha o círculo do processo, declarando-o canonicamente digno de culto em todo o orbe católico. Grandes, intemporais e misteriosos são, na verdade, os desígnios do Senhor, para os que crêem, ou do destino, para os que duvidam, todavia, sempre o tempo e o seu devir sem tempo tecendo as malhas de uma vida exemplar que em 1385, há precisamente 624 anos, pisando campos próximos de Aljubarrota, se consagrou herói de uma Nação e senhor das terras alto-estremenhas de Ourém e de Porto de Mós.
Saul António Gomes
Também em: www.tintafresca.net
Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa por ocasião da canonização de Nuno Álvares
Exemplo heróico em tempo de crise
1. Nuno Pereira proclamado santo
A 21 de Fevereiro de 2009, o Papa Bento XVI anunciou a canonização de D. Nuno Álvares Pereira – o já beato Nuno de Santa Maria – para o dia 26 de Abril, junto com outras quatro figuras ilustres da Igreja.
Este facto é para Portugal e os portugueses motivo de júbilo e de esperança. Deve também constituir ocasião de reflexão sobre as qualidades e virtudes heróicas desta relevante personagem histórica, digna de ser conhecida e imitada nos dias de hoje. Nuno Álvares Pereira viveu em tempos difíceis de crise dinástica, com fortes divisões no tecido social e político português, que punham em perigo a própria identidade e independência da Nação.
Os Bispos de Portugal, em nome de todos os católicos do nosso país, desejam exprimir a sua alegria e gratidão pelo reconhecimento oficial da santidade heróica de mais um filho da nossa terra. Ultrapassando a mera saudade do passado e assumindo, com realismo e esperança, o tempo que nos é dado viver, querem ressaltar algumas virtudes heróicas de Nuno Álvares Pereira, cuja imitação ajudará a responder aos desafios do tempo presente.
2. Breves dados biográficos
Nascido em 1360, Nuno Álvares Pereira foi educado nos ideais nobres da Cavalaria medieval, no ambiente das ordens militares e depois na corte real. Tal ambiente marcou a sua juventude. As suas qualidades e virtudes impressionaram particularmente o Mestre de Aviz, futuro rei D. João I, que encontrou em D. Nuno o exímio chefe militar, estratega das batalhas dos Atoleiros, de Aljubarrota e Valverde, vencidas mais por mérito das suas virtudes pessoais e da sua táctica militar do que pelo poder bélico dos meios humanos e dos recursos materiais.
Casou com D. Leonor Alvim de quem teve três filhos, sobrevivendo apenas a sua filha Beatriz, que viria a casar com D. Afonso, dando origem à Casa de Bragança. Tendo ficado viúvo muito cedo e estando consolidada a paz, decidiu aprofundar os ideais da Cavalaria e dedicar-se mais intensamente aos valores do Evangelho, sobretudo à prática da oração e ao auxílio dos pobres. Assim, pediu para ser admitido como membro da Ordem do Carmo, que conhecera em Moura e apreciara pela sua vida de intensa oração, tomando o profeta Elias e Nossa Senhora como modelos no seguimento de Cristo.
De Moura, no Alentejo, vieram alguns membros da comunidade carmelita, para o novo convento que ele mesmo mandara construir em Lisboa. Em 1422, entra nesta comunidade e, a 15 de Agosto de 1423, professa como simples irmão, encarregado de atender a portaria e ajudar os pobres. Passou então a ser Frei Nuno de Santa Maria. Depois de uma intensa vida de oração e de bem fazer, numa conduta de grande humildade, simplicidade e amor à Virgem Maria e aos pobres, faleceu no convento do Carmo, onde foi sepultado.
Logo após a sua morte começou a ser venerado como santo pela piedade popular. As suas virtudes heróicas foram oficialmente reconhecidas pelo Papa Bento XV, que o proclamou beato, em 1918, passando a ter celebração litúrgica a 6 de Novembro.
3. Virtudes e valores afirmados na vida de Nuno Álvares Pereira
D. Nuno Álvares Pereira não é apenas o herói nacional, homem corajoso, austero, coerente, amigo da Pátria e dos pobres, que os cronistas e historiadores nos apresentam. Ele é também um homem santo. A sua coragem heróica em defender a identidade nacional, o seu desprendimento dos bens e amor aos mais necessitados brotavam, como água da fonte, do amor a Cristo e à Igreja. A sua beatificação, nos começos do século XX, apresentou-o ao povo de Deus como modelo de santidade e intercessor junto de Deus, a quem se pode recorrer nas tribulações e alegrias da vida.
Conscientes de que todos os santos são filhos do seu tempo e devem ser vistos e interpretados com os critérios próprios da sua época, desejamos propor alguns valores evangélicos que pautaram a sua vida e nos parecem de maior relevância e actualidade.
Os ideais da Cavalaria, nos quais se formou D. Nuno, podem agrupar-se em três arcos de acção: no plano militar, sobressaem a coragem, a lealdade e a generosidade; no campo religioso, evidenciam-se a fidelidade à Igreja, a obediência e a castidade; a nível social, propõem-se a cortesia, a humildade e a beneficência. Foram estes valores que impregnaram a personalidade de Nuno Álvares Pereira, em todas as vicissitudes da sua vida, como documentam os seus feitos militares, familiares, sociais e conventuais.
Fazia também parte dos ideais da Cavalaria a protecção das viúvas e dos órfãos, assim como o auxílio aos pobres. Em D. Nuno, estes ideais tornaram-se virtudes intensamente vividas, tanto no tempo das lides guerreiras como principalmente quando se desprendeu de tudo e professou na Ordem do Carmo. Como porteiro e esmoler da comunidade, acolhia os pobres de Lisboa, que batiam às portas do convento e atendia-os com grande humildade e generosidade. Diz-se que teve aqui origem a «sopa dos pobres».
Levado pela sua invulgar humildade, iluminada pela fé, desprendeu-se de todos os seus bens – que eram muitos, pois o Rei o tinha recompensado com numerosas comendas – e repartiu-os por instituições religiosas e sociais em benefício dos necessitados. Desejoso de seguir radicalmente a Jesus Cristo, optou por uma vida simples e pobre no Convento do Carmo e disponibilizou-se totalmente para acolher e servir os mais desfavorecidos. Esta foi a última batalha da sua vida. Para ela se preparou com as armas espirituais de que falam a carta aos Efésios (cf. Ef 6, 10-20) e a Regra do Carmo: a couraça da justiça, a espada do Espírito (isto é, a Palavra de Deus), o escudo da fé, a oração, o espírito de serviço para anunciar o Evangelho da paz, a perseverança na prática do bem.
Precisamos de figuras como Nuno Álvares Pereira: íntegras, coerentes, santas, ou seja, amigas de Deus e das suas criaturas, sobretudo das mais débeis. São pessoas como estas que despertam a confiança e o dinamismo da sociedade, que fazem superar e vencer as crises.
4. Apelo à Igreja em Portugal e a todos os homens e mulheres de boa vontade
Ao aproximar-se a data da canonização do beato Nuno Álvares Pereira, pelo Papa Bento XVI, em Roma, alegramo-nos por ver mais um filho da nossa terra elevado às honras dos altares. Algumas peregrinações estão a ser organizadas para marcar a nossa presença na Praça de S. Pedro, na festa da sua canonização, no dia 26 de Abril. Confiamos que outras iniciativas pastorais sejam promovidas para dar a conhecer e propor como modelo o exemplo de virtude heróica que nos deixou este nosso irmão na fé.
A pessoa e acção de Nuno Álvares Pereira são bem conhecidas do povo português. A nível civil, é lembrado em monumentos, praças e instituições; a nível religioso, é celebrado em igrejas, imagens e associações. Figura incontornável da nossa história, importa revitalizar a sua memória e dar a conhecer o seu testemunho de vida. Para além de ser um modelo de santidade, no seguimento radical de Cristo, que «não veio para ser servido mas para servir» (Mt 20, 28), apraz-nos pôr em relevo alguns aspectos de particular actualidade, para todos os homens e mulheres de boa vontade:
– Nuno Álvares Pereira foi um homem de Estado, que soube colocar os superiores interesses da Nação acima das suas conveniências, pretensões ou carreira. Fez da sua vida uma missão, correndo todos os riscos para bem servir a Pátria e o povo.
– Em tempo de grave crise nacional, optou corajosamente por ser parte da solução e, numa entrega sem limites, enfrentou com esperança os enormes desafios sociais e políticos da Nação.
– Coroado de glória com as vitórias alcançadas, senhor de imensas terras, despojou-se dos seus bens e optou pela radicalidade do seguimento de Cristo, como simples irmão da Ordem dos Carmelitas.
– Não se valeu dos seus títulos de nobreza, prestígio e riqueza, para viver num clima de luxos e grandezas, mas optou por servir preferencialmente os pobres e necessitados do seu tempo.
Vivemos em tempo de crise global, que tem origem num vazio de valores morais. O esbanjamento, a corrupção, a busca imparável do bem-estar material, o relativismo que facilita o uso de todos os meios para alcançar os próprios benefícios, geraram um quadro de desemprego, de angústia e de pobreza que ameaçam as bases sobre as quais se organiza a sociedade. Neste contexto, o testemunho de vida de D. Nuno constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários e de iniciativas de partilha de bens. Será também um apelo a uma cidadania exemplarmente vivida e um forte convite à dignificação da vida política como expressão do melhor humanismo ao serviço do bem comum.
Os Bispos de Portugal propõem, portanto, aos homens e mulheres de hoje o exemplo da vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres. Assim seremos parte activa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna que todos desejamos.
Fátima, 6 de Março de 2009
Conferência Episcopal Portuguesa
publicamos nestas páginas dois textos sobre a figura do seu herói maior: D. Nuno Álvares Pereira, ou Santo Condestável, ou – agora – São Nuno de Santa Maria.
Nunca é demais lembrar o homem que viveu exemplarmente a sua humanidade, o valoroso cavaleiro que lutou corajosamente pela defesa da independência e da identidade da sua Pátria, o frade que encontrou nas virtudes cristãs da pobreza e da doação de si o caminho para a santidade. Uma santidade que, antes de ser reconhecida oficialmente pela Igreja, já o era, desde sempre, pelo povo que amava e servia.
O primeiro artigo é uma reflexão que cruza estas várias facetas de D. Nuno, da autoria do conceituado Doutor Saul António Gomes, um dos maiores estudiosos da actualidade sobre a história e o património, sobretudo, da nossa região.
O segundo texto é a nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, emitida aquando do
anúncio da canonização deste santo português, onde se destacam os principais elementos deste processo e se apontam vias para que saibamos, hoje, ser dignos do seu exemplo e imitadores das suas virtudes.
Esperamos que sirvam para um maior conhecimento sobre este nosso “herói” e para uma maior consciência do seu valor enquanto exemplo válido e actual para os nossos dias.
D. Nuno Álvares Pereira
Glória, honra e exemplo
Grande mistério é a história que só no tempo longo e secular se confirma como sucede, nos dias felizes em que nos é dado viver, com a vida e a memória de D. Nuno Álvares Pereira, Condestável do exércitos portugueses que, nos campos dentre Aljubarrota e Porto de Mós, no distante dia 14 de Agosto de 1385, destroçaram o orgulho castelhano e asseguraram novo rei, nova dinastia e uma nova Era nos destinos de Portugal no Mundo.
D. Nuno Álvares Pereira nasceu, segundo asseveram velhas crónicas, em 24 de Junho de 1360, dia de S. João Baptista. No nascimento certo astrólogo, profissão benquista nesses séculos, prognosticou ao recém-nascido um destino de excepção. Nuno fez-se notar desde cedo pela sua argúcia e comportamento. Seu pai, Dom Prior do Crato, levou-o com o irmão mais velho à intimidade da cúria régia de D. Fernando.
Não foi o Condestável, nos dias da sua vida militar e de grande cortesão e senhor, homem de humildades. Pelo contrário. Os historiadores sabem bem que o herói da Real Batalha de Aljubarrota não conhecia limites em matéria de património, de benefícios e de privilégios. Exigia-os mesmo do seu soberano rei e fê-lo, até, em determinado momento, no extremo da ameaça presente a D. João I de se desnaturalizar da pátria que tanto servira.
Mas não é o senhor de guerras e de grandes e faustosos palácios e invejáveis mordomias que, agora, tantos séculos passados sobre a sua morte e vida, a Igreja Católica confirma no altar dos mais veneráveis exemplos de santidade. É antes o de Fr. Nuno de Santa Maria, o fiel que, na recepção do hábito do Carmelo, assumiu uma nova aliança com o Deus em que tanto confiara e que tão profeticamente lhe marcara a vida e o poupara de perigos e da iminência da morte nos campos de batalha.
Aos 62 anos de idade, no ano de Cristo de 1422, de facto, recolheu-se D. Nuno Álvares Pereira ao Convento do Carmo de Lisboa, que ele mesmo erguera anos antes, para, renunciando às glórias e às honras temporais com que o destino tanto o brindara tão generosamente, se entregar às asceses mais rigorosas do convívio espiritual dos pobres frades carmelitas. Na renúncia às riquezas do mundo, Fr. Nuno traçava para ele próprio a batalha última da sua vida, procurando, pelo preço da renúncia radical ao Mundo e ao conforto dos bens materiais, a Verdade última que a morte de todo o homem encerra.
A 1 de Abril de 1431, justamente em Domingo de Páscoa, Fr. Nuno de Santa Maria, com 71 anos incompletos, fechava os olhos para os dias e os trabalhos mundanos e abria-os, à luz da Fé e da doutrina eclesial, para os verdes prados do Bom-Pastor e para a ceia eterna com o Filho do Homem. A sua biografia de general dos exércitos e de senhor feudal não esconde uma personalidade indómita e irascível, homem que era de excepcional carisma e capacidade de mando, frequentemente, até, capaz de destratar família e criadagem de modo humilhante e sem pingo de ternura.
Dele bem poderemos escrever, como o proclamaram os profetas dos reis de Israel, que o Senhor o coroou de glória e de honra. Fr. Nuno de Santa Maria faleceu em odor de santidade. Teve, entre os filhos de D. João I, os seus mais fervorosos admiradores a começar por D. Duarte, que imaginamos, na distância virtual de tanto tempo passado, presente nas exéquias de Fr. Nuno, lá na igreja quase batalhina do Convento do Carmo, nela escutando a pregação de Mestre Francisco, para cujo sermão, aliás, lhe dera os temas que desejava ver proclamados do púlpito. Em 21 de Abril de 1437, o Rei Eloquente escrevia ao influente Abade D. Gomes, de Florença, falando-lhe da canonização do “Santo Condestável”, sendo que o Papa Eugénio IV, por esses dias, mandara organizar o respectivo processo.
Também o Infante D. Pedro, caído em Alfarrobeira (†1449), mostrou grande devoção por S. Nuno, atribuindo-se-lhe a responsabilidade da redacção da oração litúrgica própria: “Norma principum, exemplar dominorum, speculum anachoretarum es, beate Nune. Tu securus et fortis in proelio, tu humilis et pius in victoria, tu justus et misericors in pace, tu oboediens et devotus in claustro…” (“Esteio dos príncipes, exemplo dos senhores, espelho de monges és tu S. Nuno. Tu, seguro e forte no combate, tu, humilde e piedoso na vitória, tu, justo e misericordioso na paz, tu, obediente e devoto no claustro”).
Nos anos imediatos ao seu passamento, os frades carmelitas de Lisboa coligiram várias centenas de milagres, tendo cabido ao famoso cronista Gomes Eanes de Zurara (†1474) redigir uma narrativa de 221 deles, na maior parte ocorridos no reinado de D. Afonso V (†1481). Nalguns Breviários carmelitas do Século XV regista-se a festa, a 1 de Abril, de “Nonii comitis confessoris” (Do Confessor Conde Nuno), sinal de que, dentro da Ordem, colhia devoções e culto. Dessa mesma Centúria é o testemunho do Chantre de Évora, Martim Vasques, que fora criado da casa de D. Nuno e protegido da Casa de Bragança, chamando-lhe, em testamento de 22 de Maio de 1470, “Conde Santo”.
A veneração ao Santo Condestável manter-se-á entre os Portugueses desde então, posto que nem sempre com a visibilidade pública e o reconhecimento canónico desejáveis. Mas esta é matéria que aguarda ainda uma ingente investigação histórica, assim como seria desejável que se promovesse uma nova biografia, com amplo rigor histórico, sobre D. Nuno Álvares Pereira.
A 15 de Janeiro de 1918, o Papa Bento XV, pelo decreto Clementissimus Deus, reconheceu o Beato Nuno e consentiu-lhe culto oficial, assim incrementando a devoção católica ao Santo Condestável. Agora, é o novo Sumo Pontífice, Bento XVI, que fecha o círculo do processo, declarando-o canonicamente digno de culto em todo o orbe católico. Grandes, intemporais e misteriosos são, na verdade, os desígnios do Senhor, para os que crêem, ou do destino, para os que duvidam, todavia, sempre o tempo e o seu devir sem tempo tecendo as malhas de uma vida exemplar que em 1385, há precisamente 624 anos, pisando campos próximos de Aljubarrota, se consagrou herói de uma Nação e senhor das terras alto-estremenhas de Ourém e de Porto de Mós.
Saul António Gomes
Também em: www.tintafresca.net
Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa por ocasião da canonização de Nuno Álvares
Exemplo heróico em tempo de crise
1. Nuno Pereira proclamado santo
A 21 de Fevereiro de 2009, o Papa Bento XVI anunciou a canonização de D. Nuno Álvares Pereira – o já beato Nuno de Santa Maria – para o dia 26 de Abril, junto com outras quatro figuras ilustres da Igreja.
Este facto é para Portugal e os portugueses motivo de júbilo e de esperança. Deve também constituir ocasião de reflexão sobre as qualidades e virtudes heróicas desta relevante personagem histórica, digna de ser conhecida e imitada nos dias de hoje. Nuno Álvares Pereira viveu em tempos difíceis de crise dinástica, com fortes divisões no tecido social e político português, que punham em perigo a própria identidade e independência da Nação.
Os Bispos de Portugal, em nome de todos os católicos do nosso país, desejam exprimir a sua alegria e gratidão pelo reconhecimento oficial da santidade heróica de mais um filho da nossa terra. Ultrapassando a mera saudade do passado e assumindo, com realismo e esperança, o tempo que nos é dado viver, querem ressaltar algumas virtudes heróicas de Nuno Álvares Pereira, cuja imitação ajudará a responder aos desafios do tempo presente.
2. Breves dados biográficos
Nascido em 1360, Nuno Álvares Pereira foi educado nos ideais nobres da Cavalaria medieval, no ambiente das ordens militares e depois na corte real. Tal ambiente marcou a sua juventude. As suas qualidades e virtudes impressionaram particularmente o Mestre de Aviz, futuro rei D. João I, que encontrou em D. Nuno o exímio chefe militar, estratega das batalhas dos Atoleiros, de Aljubarrota e Valverde, vencidas mais por mérito das suas virtudes pessoais e da sua táctica militar do que pelo poder bélico dos meios humanos e dos recursos materiais.
Casou com D. Leonor Alvim de quem teve três filhos, sobrevivendo apenas a sua filha Beatriz, que viria a casar com D. Afonso, dando origem à Casa de Bragança. Tendo ficado viúvo muito cedo e estando consolidada a paz, decidiu aprofundar os ideais da Cavalaria e dedicar-se mais intensamente aos valores do Evangelho, sobretudo à prática da oração e ao auxílio dos pobres. Assim, pediu para ser admitido como membro da Ordem do Carmo, que conhecera em Moura e apreciara pela sua vida de intensa oração, tomando o profeta Elias e Nossa Senhora como modelos no seguimento de Cristo.
De Moura, no Alentejo, vieram alguns membros da comunidade carmelita, para o novo convento que ele mesmo mandara construir em Lisboa. Em 1422, entra nesta comunidade e, a 15 de Agosto de 1423, professa como simples irmão, encarregado de atender a portaria e ajudar os pobres. Passou então a ser Frei Nuno de Santa Maria. Depois de uma intensa vida de oração e de bem fazer, numa conduta de grande humildade, simplicidade e amor à Virgem Maria e aos pobres, faleceu no convento do Carmo, onde foi sepultado.
Logo após a sua morte começou a ser venerado como santo pela piedade popular. As suas virtudes heróicas foram oficialmente reconhecidas pelo Papa Bento XV, que o proclamou beato, em 1918, passando a ter celebração litúrgica a 6 de Novembro.
3. Virtudes e valores afirmados na vida de Nuno Álvares Pereira
D. Nuno Álvares Pereira não é apenas o herói nacional, homem corajoso, austero, coerente, amigo da Pátria e dos pobres, que os cronistas e historiadores nos apresentam. Ele é também um homem santo. A sua coragem heróica em defender a identidade nacional, o seu desprendimento dos bens e amor aos mais necessitados brotavam, como água da fonte, do amor a Cristo e à Igreja. A sua beatificação, nos começos do século XX, apresentou-o ao povo de Deus como modelo de santidade e intercessor junto de Deus, a quem se pode recorrer nas tribulações e alegrias da vida.
Conscientes de que todos os santos são filhos do seu tempo e devem ser vistos e interpretados com os critérios próprios da sua época, desejamos propor alguns valores evangélicos que pautaram a sua vida e nos parecem de maior relevância e actualidade.
Os ideais da Cavalaria, nos quais se formou D. Nuno, podem agrupar-se em três arcos de acção: no plano militar, sobressaem a coragem, a lealdade e a generosidade; no campo religioso, evidenciam-se a fidelidade à Igreja, a obediência e a castidade; a nível social, propõem-se a cortesia, a humildade e a beneficência. Foram estes valores que impregnaram a personalidade de Nuno Álvares Pereira, em todas as vicissitudes da sua vida, como documentam os seus feitos militares, familiares, sociais e conventuais.
Fazia também parte dos ideais da Cavalaria a protecção das viúvas e dos órfãos, assim como o auxílio aos pobres. Em D. Nuno, estes ideais tornaram-se virtudes intensamente vividas, tanto no tempo das lides guerreiras como principalmente quando se desprendeu de tudo e professou na Ordem do Carmo. Como porteiro e esmoler da comunidade, acolhia os pobres de Lisboa, que batiam às portas do convento e atendia-os com grande humildade e generosidade. Diz-se que teve aqui origem a «sopa dos pobres».
Levado pela sua invulgar humildade, iluminada pela fé, desprendeu-se de todos os seus bens – que eram muitos, pois o Rei o tinha recompensado com numerosas comendas – e repartiu-os por instituições religiosas e sociais em benefício dos necessitados. Desejoso de seguir radicalmente a Jesus Cristo, optou por uma vida simples e pobre no Convento do Carmo e disponibilizou-se totalmente para acolher e servir os mais desfavorecidos. Esta foi a última batalha da sua vida. Para ela se preparou com as armas espirituais de que falam a carta aos Efésios (cf. Ef 6, 10-20) e a Regra do Carmo: a couraça da justiça, a espada do Espírito (isto é, a Palavra de Deus), o escudo da fé, a oração, o espírito de serviço para anunciar o Evangelho da paz, a perseverança na prática do bem.
Precisamos de figuras como Nuno Álvares Pereira: íntegras, coerentes, santas, ou seja, amigas de Deus e das suas criaturas, sobretudo das mais débeis. São pessoas como estas que despertam a confiança e o dinamismo da sociedade, que fazem superar e vencer as crises.
4. Apelo à Igreja em Portugal e a todos os homens e mulheres de boa vontade
Ao aproximar-se a data da canonização do beato Nuno Álvares Pereira, pelo Papa Bento XVI, em Roma, alegramo-nos por ver mais um filho da nossa terra elevado às honras dos altares. Algumas peregrinações estão a ser organizadas para marcar a nossa presença na Praça de S. Pedro, na festa da sua canonização, no dia 26 de Abril. Confiamos que outras iniciativas pastorais sejam promovidas para dar a conhecer e propor como modelo o exemplo de virtude heróica que nos deixou este nosso irmão na fé.
A pessoa e acção de Nuno Álvares Pereira são bem conhecidas do povo português. A nível civil, é lembrado em monumentos, praças e instituições; a nível religioso, é celebrado em igrejas, imagens e associações. Figura incontornável da nossa história, importa revitalizar a sua memória e dar a conhecer o seu testemunho de vida. Para além de ser um modelo de santidade, no seguimento radical de Cristo, que «não veio para ser servido mas para servir» (Mt 20, 28), apraz-nos pôr em relevo alguns aspectos de particular actualidade, para todos os homens e mulheres de boa vontade:
– Nuno Álvares Pereira foi um homem de Estado, que soube colocar os superiores interesses da Nação acima das suas conveniências, pretensões ou carreira. Fez da sua vida uma missão, correndo todos os riscos para bem servir a Pátria e o povo.
– Em tempo de grave crise nacional, optou corajosamente por ser parte da solução e, numa entrega sem limites, enfrentou com esperança os enormes desafios sociais e políticos da Nação.
– Coroado de glória com as vitórias alcançadas, senhor de imensas terras, despojou-se dos seus bens e optou pela radicalidade do seguimento de Cristo, como simples irmão da Ordem dos Carmelitas.
– Não se valeu dos seus títulos de nobreza, prestígio e riqueza, para viver num clima de luxos e grandezas, mas optou por servir preferencialmente os pobres e necessitados do seu tempo.
Vivemos em tempo de crise global, que tem origem num vazio de valores morais. O esbanjamento, a corrupção, a busca imparável do bem-estar material, o relativismo que facilita o uso de todos os meios para alcançar os próprios benefícios, geraram um quadro de desemprego, de angústia e de pobreza que ameaçam as bases sobre as quais se organiza a sociedade. Neste contexto, o testemunho de vida de D. Nuno constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários e de iniciativas de partilha de bens. Será também um apelo a uma cidadania exemplarmente vivida e um forte convite à dignificação da vida política como expressão do melhor humanismo ao serviço do bem comum.
Os Bispos de Portugal propõem, portanto, aos homens e mulheres de hoje o exemplo da vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres. Assim seremos parte activa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna que todos desejamos.
Fátima, 6 de Março de 2009
Conferência Episcopal Portuguesa
quinta-feira, 30 de julho de 2009
EDITORIAL | Pensar sobre nós mesmos
Uma das mais importantes valências da capacidade racional da pessoa é a de poder pensar-se, isto é, pensar sobre si própria. Esse movimento auto-reflexivo é tão importante que, sem ele, facilmente caímos na rotina das acções e acabamos por tomar decisões erradas e contra o nosso próprio bem.
Se isto é verdade para cada um de nós, também o é para o colectivo. O sucesso das empresas, das instituições ou, até, dos grupos de amigos, depende em muito deste exercício regular de olhar sobre si mesmos enquanto conjunto funcional. Normalmente, trata-se de analisar o passado para decidir no presente o que fazer rumo aos projectos futuros, usando o célebre esquema do "ver, julgar e agir".
Com as comunidades organizadas num território, numa cultura, ou numa religião, o mesmo se passa: nas eleições, votamos naqueles que julgamos mais aptos para compreender a realidade e governá-la; nos valores que defendemos, procuramos que correspondam ao nosso património ético; na prática religiosa que vivemos, sentimos a expressão da fé em que acreditamos.
Vem isto a propósito do destaque desta edição. É salutar e digna de registo a iniciativa que um grupo de cristãos da nossa freguesia tomou, de se reunir para conversar sobre a própria comunidade. Daí resultou, como ideia forte, a necessidade de maior espírito de união entre estruturas e pessoas, para que os objectivos comuns sejam alcançados. Acreditamos que, na continuidade deste trabalho, algumas rotinas se quebrem, alguns sonhos se desenvolvam e algumas obras acabem por nascer. Porque a igreja feita de paredes tem de ser expressão da Igreja feita de pessoas.
Se isto é verdade para cada um de nós, também o é para o colectivo. O sucesso das empresas, das instituições ou, até, dos grupos de amigos, depende em muito deste exercício regular de olhar sobre si mesmos enquanto conjunto funcional. Normalmente, trata-se de analisar o passado para decidir no presente o que fazer rumo aos projectos futuros, usando o célebre esquema do "ver, julgar e agir".
Com as comunidades organizadas num território, numa cultura, ou numa religião, o mesmo se passa: nas eleições, votamos naqueles que julgamos mais aptos para compreender a realidade e governá-la; nos valores que defendemos, procuramos que correspondam ao nosso património ético; na prática religiosa que vivemos, sentimos a expressão da fé em que acreditamos.
Vem isto a propósito do destaque desta edição. É salutar e digna de registo a iniciativa que um grupo de cristãos da nossa freguesia tomou, de se reunir para conversar sobre a própria comunidade. Daí resultou, como ideia forte, a necessidade de maior espírito de união entre estruturas e pessoas, para que os objectivos comuns sejam alcançados. Acreditamos que, na continuidade deste trabalho, algumas rotinas se quebrem, alguns sonhos se desenvolvam e algumas obras acabem por nascer. Porque a igreja feita de paredes tem de ser expressão da Igreja feita de pessoas.
É preciso renovar a igreja e a Igreja
Grupo conversou sobre a comunidade cristã da GolpilheiraNo passado dia 18 de Junho, realizou-se na Golpilheira uma reunião muito especial. O assunto surgiu no dia da inauguração da Junta de Freguesia, no dia 14 desse mês. Alguém comentava que, depois desta obra, seria necessário pôr mãos a outra: o restauro da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, o centro de culto da comunidade cristã desta freguesia., cujo telhado precisa de uma intervenção urgente e onde as condições de conforto para as celebrações deixam muito a desejar.
A conversa rapidamente interessou a um grupo alargado de pessoas e algumas ideias começaram a circular. Para além das obras urgentes, poderia pensar-se numa intervenção de fundo, que desse outras condições àquele espaço, talvez um arranjo interior mais moderno e confortável, talvez algumas alterações de arquitectura. E como financiar tal projecto? O que fazer para concretizar essas ideias?
A primeira conclusão foi a de que tal empreendimento exigiria a união de toda a freguesia, especialmente das duas comissões das igrejas, da Junta de Freguesia e de outras instituições e pessoas mais activas. Daí a ideia de se marcar rapidamente uma reunião entre todos, para se discutir abertamente o assunto.
A reunião
No dia 18, sentados a uma mesa do salão de festa da igreja da Golpilheira, lá estavam os elementos da comissão local, os da comissão de S. Bento, os da Junta de Freguesia, e mais algumas pessoas que tinham participado na referida conversa.
Postos a par do assunto, cada um teve oportunidade de dizer o que pensa. Uns estão mais optimistas e acreditam que é possível pensar numa grande obra, outros estão mais receosos e preferem que se limite a intervenção ao básico. Mas todos estavam de acordo numa coisa: é preciso fazer alguma coisa para melhorar a nossa igreja.
Todos estão também conscientes de que, seja qual for o rumo, o investimento será sempre avultado. A actual comissão avançou já com a pintura do templo, mas o telhado terá de ser substituído em breve, uma vez que conta já com 45 anos e apresenta graves problemas. Além disso, as salas de catequese não têm o conforto mínimo para acolher as crianças, sobretudo, no Inverno e as paredes, janelas, estores, chão, etc., precisam também de reparações, para além do recheio com móveis e equipamentos de apoio mais apropriados. E a lista poderia ser mais extensa.
Comissões unidas
Uma das condições parece também ser consensual: é preciso unir ambas as comissões das igrejas, de S. Bento e da Golpilheira, em torno deste projecto comum.
A ideia de formar uma única comissão para cuidar do património religioso da freguesia já vem de longe. No Jornal da Golpilheira, abordámos esse assunto já em Fevereiro de 2004, numa entrevista aos responsáveis das duas comissões e ao pároco, onde sugeríamos essa fusão. Os três entrevistados afirmaram estar de acordo com uma solução desse género, adiantou-se mesmo a possibilidade de um debate alargado na comunidade, mas o certo é que mais nada de concreto veio a ser feito. Talvez as condições na altura não fossem as melhores, dado que ambas as comissões andavam envolvidas em obras nas respectivas igrejas...
Essas condições parecem ser agora muito favoráveis. As duas igrejas mais antigas – Senhor dos Aflitos e S. Bento – estão restauradas e os respectivos adros e espaços de apoio também estão minimamente consolidados. Resta, portanto, pensar na igreja de Nossa Senhora de Fátima, que é o único local onde existe culto dominical, onde funciona o centro de catequese e onde toda a vida religiosa se concentra.
A situação actual é, portanto, favorável a um trabalho de união, e todos os presentes neste encontro manifestaram estar de acordo em considerar muito a sério essa hipótese, em especial os membros das duas comissões actualmente em funções. Existe apenas o problema de a comissão da igreja da Golpilheira estar em final de mandato, pelo que terá de haver uma nova conversa após a reestruturação da equipa.
As festas
Havendo apenas uma comissão, será muito mais fácil gerir os fundos e programar as acções comuns, envolvendo mais gente e dando uma força maior às decisões tomadas. Evita-se, por outro lado, a impressão de haver divisão ou "espírito de capelinha", que não se justifica numa freguesia tão pequena como a nossa. Afinal de contas, tudo é de todos, o património é de toda a comunidade cristã e a todos compete cuidar dele e usufruir da sua utilização.
Um exemplo dessa possibilidade de colaboração é a calendarização das duas festas religiosas, que têm sido feitas nos últimos anos em Agosto, com um intervalo de 15 dias, juntando-se ainda a festa da colectividade, cerca de 15 dias antes destas duas. Para além do natural cansaço dos organizadores, alguns dos quais colaboram nos vários eventos, mais uma vez transparece a ideia de que são grupos diferentes a trabalhar e que também os destinatários são diferentes, quando toda a freguesia deveria estar unida nestes momentos de celebração e convívio.
Mesmo fazendo duas ou três festas, elas poderão ser mais espaçadas no ano, permitindo melhor programação e uma oferta mais variada à população e menos cansativa para todos, sobretudo os que nestas alturas gostam de contribuir para os fundos das entidades organizadoras.
É claro também que, juntando os lucros sob a mesma conta, haveria uma maior margem de manobra para realizar obras de grande envergadura, como a que agora surge no horizonte das necessidades...
E a Igreja?
Outra questão que surgiu – não menos importante – foi a da renovação da Igreja, desta vez com "maiúscula", isto é, do grupo de cristãos que forma esta comunidade. Bem vistas as coisas, é por aí que tudo deve começar, pois nem faz sentido pensar-se em investir em obras numa igreja (paredes) cuja Igreja (pessoas) não exista.
É um dado adquirido – e tem sido sublinhado pelo pároco diversas vezes – que a participação na missa dominical tem registado uma enorme quebra nos últimos anos. Sabemos que o número de praticantes tem reduzido a nível geral e não interessa ter a igreja cheia "só por ter", com pessoas que não sentem a prática religiosa como algo pessoal e assumido em comunidade. Como diz o ditado, "mais vale serem poucos, mas bons". Mas o certo é que se forem mesmo muito poucos, não justificarão um grande investimento, sendo preferível arranjar um espaço mais pequeno e adequado a esse número.
No entanto, não parece ser essa a nossa realidade, como se comprova com a igreja cheia quando há festas com as crianças da catequese ou outras celebrações mais "especiais", que revelam uma comunidade ainda bastante numerosa, merecedora de um espaço condigno para celebrar em conjunto. Verificamos, por exemplo, que muitas pessoas vão a outras igrejas ao domingo, seja na Batalha, seja nas paróquias vizinhas. Como se costuma dizer, "não adianta esconder o sol com a peneira": as motivações podem ser várias, como o gosto por um espaço mais apelativo, a preferência por outro padre a presidir, a melhor animação da liturgia, a procura de algum "anonimato", etc. Todas as desculpas podem ser válidas e, no entanto, nenhuma explica toda a realidade.
Assim, um dos aspectos onde é preciso investir, também aqui com a exigência de uma maior união entre todos, é na procura de consolidação da comunidade cristã. As iniciativas poderão ser várias, como por exemplo, através de uma participação mais regular das crianças da catequese nos actos litúrgicos, pois é certo que com elas virão outros familiares. Até porque esse será um primeiro passo para motivar as pessoas a colaborar numa eventual obra de renovação do espaço, já que todos sentirão que é também para o seu benefício.
Conclusões
Já que estamos em maré de provérbios, podemos dizer que a principal conclusão deste encontro foi: "a união faz a força". Todos manifestaram ser importante avançar com algumas destas sugestões e aprofundar esta reflexão, alargando-a a todas as pessoas da comunidade. Também o pároco, padre José Gonçalves, ao qual foi comunicado o teor desta conversa informal, se manifestou contente pela iniciativa e concordou que o caminho a seguir deverá ser o da união entre todos com o mesmo objectivo pastoral: renovar a comunidade e dotá-la das estruturas necessárias.
Dada a aproximação das festas já em preparação, e o facto de o período de férias dispersar muito as pessoas, para além de ser ainda indefinida a constituição da Comissão da Igreja da Golpilheira, ficou a proposta de cada um dos presentes reflectir um pouco mais sobre o assunto, em ordem a uma nova conversa em finais de Setembro. Nessa altura se verá por onde começar, sendo certo que não se fará nada sem a elaboração prévia de um projecto bem pensado e previamente sujeito às propostas de toda a população.
Ficou também decidido por todos que o assunto seria apresentado nesta edição do nosso Jornal, precisamente antes de começarem as festas religiosas, que podem ser um período propício ao diálogo e à partilha de opiniões. Espera-se que nasça um movimento saudável por parte de todos, evitando os confrontos e as críticas destrutivas, mas com espírito de colaboração e de procura das melhores soluções comunitárias, mesmo quando houver que aceitar ideias diferentes das que cada um terá.
O Jornal da Golpilheira esteve desde o início no âmago desta problemática, é um meio privilegiado e aberto a todos para a comunicação de ideias e propostas, e quer ser um parceiro activo em mais esta tarefa comum, para o bem de todos e o desenvolvimento da nossa comunidade.
Luís Miguel Ferraz
Festa da Golpilheira 2009
A festa em honra do Bom Jesus dos Aflitos, na igreja da Golpilheira, será nos dias 1 a 3, antecedida por um tríduo de preparação espiritual para a festa.No cartaz constam três serões, com os grupos musicais "Fusão", "Duo Irmãos Tarau" e "Banda Selecção", a animar um arraial onde não faltará a quermesse, bar, restaurante e espaços de jogos de setas, tiro ao alvo, jogo do rato e jogo do prego.
O dia forte será o domingo, com recolha das ofertas pelas 11h00, acompanhada pelos "Triunfantes", e a Missa solene pelas 12h00, seguida de procissão.
Destaque ainda para a actuação do rancho folclórico "As Lavadeiras do Vale do Lena", no dia 2, pelas 18h00, e para a corrida de frangos, a quebra de panelas e a corrida de cântaros, na segunda-feira, depois da Missa pelos festeiros, que será às 18h30.
(Ver cartaz)
LMF
Festa de S. Bento 2009
A festa em honra de Nossa Senhora da Esperança, em S. Bento, será nos dias 15 a 17, a começar com Missa vespertina pelas 12h30 de sábado, após o que abrirá o restaurante com serviço de almoços.Ainda no sábado, haverá a já tradicional "vacada", a começar pelas 16h00.
Os serões serão animados, respectivamente, pelos grupos musicais "Trap.Zap", "Banda Kroll" e "Zé Café e Guida". No arraial haverá quermesse, bar, restaurante e diversos espaços de diversão.
O dia especial será o domingo, com recolha de andores pelas 11h00 com os "Triunfantes" e Missa solene pelas 12h30, seguida de procissão. Na segunda-feira, haverá Missa pelos festeiros, pelas 18h00, seguindo-se os jogos tradicionais.
Os serões serão animados, respectivamente, pelos grupos musicais "Trap.Zap", "Banda Kroll" e "Zé Café e Guida". No arraial haverá quermesse, bar, restaurante e diversos espaços de diversão.
O dia especial será o domingo, com recolha de andores pelas 11h00 com os "Triunfantes" e Missa solene pelas 12h30, seguida de procissão. Na segunda-feira, haverá Missa pelos festeiros, pelas 18h00, seguindo-se os jogos tradicionais.
(Ver cartaz)
LMF
Os vários ritmos das festas da Batalha 2009
Suzana, Paulo Gonzo, Folclore Internacional e Xutos e PontapésOs nomes sonantes são sempre o maior atractivo dos cartazes e, no caso das festas de Agosto na Batalha, essa tem sido uma das preocupações.
Também este ano haverá bons espectáculos nos três dias de festa – 14, 15 e 16 de Agosto –, a começar com a batalhense Suzana, um dos nomes que subiu à ribalta nacional da nossa música romântica, e Paulo Gonzo, um músico que dispensa qualquer apresentação, actualmente a promover o álbum "Perfil", o seu mais recente trabalho.
O sábado contará durante a tarde com o grupo de percussão "Terra Nova", e a noite será dedicada ao folclore, com mais uma gala internacional organizada pelo rancho Rosas do Lena. Já na sua 24.ª edição, os convidados deste ano serão: Grupo Brasileiro de Capoeira "Ginga Camará", Grupo de Folclore e Etnografia "Os Ceifeiros de Benposta" de Loures, Grupo de Danças Folclóricas de Izmir (Turquia), Grupo Folclórico Dr. Gonçalo Sampaio de Braga e Grupo de Danças Folclóricas "Paasuke" (Estónia). O espectáculo iniciará com uma apresentação pelo rancho anfitrião de uma manifestação etnográfica intitulada "A Batalha a Cantar e a Dançar, da Quaresma a Santo António", um quadro de 15 minutos em que se resumem quatro aspectos da nossa religião popular: os Cânticos da Quaresma, o desfile das Ofertas da Santíssima Trindade, a Encamisada com as Loas a Santo António e o casamento tradicional.
Para o domingo está prometido um grande concerto com o grupo Xutos e Pontapés, uma das bandas mais emblemáticas do rock nacional, que está a comemorar com esta digressão os seus 30 anos de carreira.
A música de dança marcará presença nos dois primeiros dias, após as 24h00, com a "Batalha Fora d’Horas", enquanto que no último dia essa será a hora para um grandioso espectáculo pirotécnico.
Outros ritmos
Mas nem só de serões musicais se fazem as festas.
No dia 14, pelas 12h00, realizar-se-ão as cerimónias civis e militares comemorativas desta data histórica e do feriado municipal da Batalha, com uma alocução do historiador Saul António Gomes, seguindo-se a inauguração da exposição "Ordens Honoríficas Portuguesas" (ver na lateral). Pelas 16h00 haverá uma sessão solene, com animação musical pelo pianista Francisco Chirife, seguindo-se mais uma edição do encontro de emigrantes da Batalha. Pelas 21h00, decorrerá uma homenagem ao Santo Nuno Álvares Pereira, com o actor Tobias Monteiro.
Também o desporto e recreio marcarão presença no cartaz.
No dia 15, realiza-se mais um Grande Prémio de Atletismo Mestre de Aviz, que engloba a 3.ª edição de "Batalha Jovem", dirigida aos escalões de menor idade (inscrições até dia 13 para assleiria@adal.pt), bem como uma caminhada entre a Batalha e a Golpilheira, para todos os amantes dos passeios pedestres.
Uma novidade deste ano será a realização do "Torneio São Nuno de Santa Maria", na modalidade de futebol, que colocará em campo equipas representantes das quatro freguesias do Concelho. Decorrerá nos dias 15 e 16, no campo sintético da vila, com a final marcada para as 21h00.
Haverá ainda torneios de xadrez, oficinas de caricaturas, jogos tradicionais, animação de rua, tasquinhas com petiscos tradicionais e também, à semelhança do ano passado, uma mostra de actividades económicas do concelho da Batalha.
Os motivos são variados para uma visita demorada ao centro da vila da Batalha durante estes dias festivos (ver cartaz).
LMF
Centro Recreativo da Golpilheira... 40 anos de vida!
O Centro Recreativo da Golpilheira esteve em festa, nos passados dias 11 a 13 de Julho, num ano em que comemora o seu 40º aniversário de fundação.O primeiro dia foi marcado pela estreia da equipa de "Velhas Glórias" da Golpilheira, que irá participar no torneio distrital de veteranos, e pelo XX Festival de Folclore do rancho da colectividade, "As Lavadeiras do Vale do Lena", que este ano teve como convidados os ranchos folclóricos de Santo António da Covilhã (Beira Baixa), "Os Fontineiros da Maia" (Douro Litoral Norte) e de Torres Novas (Ribatejo).

No domingo, pela manhã, foi celebrada missa por alma dos sócios já falecidos e, durante a tarde, decorreu a já tradicional corrida de carros de rolamentos "Rodas de Aço". Na sua 9ª edição, esta divertida prova decorreu em três rampas da freguesia, que se encheram com algumas centenas de pessoas. A boa disposição reinou e não houve qualquer incidente a registar. À noite, subiu ao palco o duo Elsa e Marina, mas a grande protagonista acabaria por ser a indesejada chuva, que afastou bem cedo a maioria das pessoas que enchiam o arraial.
Na segunda-feira, já com o bom tempo de regresso, estranhou-se a pouca participação no tradicional jogos da corrida de frangos, apenas com cinco interessados em levar os pintos para casa. À noite, o duo Bruno e Matias animou o arraial, já mais composto, até que o fogo de artifício deu por terminada a festa.
Como nota geral, notou-se uma participação um pouco mais reduzida do que em anos anteriores. Talvez pela crise que afecta as famílias e que leva muitas pessoas a cortar despesas e saídas de casa... talvez pelo momento financeiro complicado que a associação atravessa e que esgota por completo os seus dirigentes, sem tempo para pensarem em "grandes festas" ou programas mais apelativos... talvez porque a conjuntura social deixa menos espaço ao convívio e à alegria. O certo é que ficou alguma saudade daqueles grandes festejos que marcavam esta data especial na nossa freguesia. E foi pena, pois os 40 anos do CRG mereciam mais empenho por parte dos sócios...
Texto e fotos:
Luís Miguel Ferraz
Luís Miguel Ferraz
Entrevista ao professor Manuel Ribeiro | "Há um bom ambiente neste estabelecimento de ensino"
A encerrar o ano lectivo, entrevistámos o professor Manuel Ribeiro, responsável da Escola do 1.º Ciclo da Golpilheira. Quisemos saber como decorreu o ano escolar, qual a sua leitura da actualidade do ensino e como as crianças da nossa freguesia vivem esta importante fase do seu crescimento. E perguntámos também o que poderá ser melhorado para um ensino com mais qualidade.Em linhas gerais, como decorreu este ano lectivo na escola da Golpilheira?
Os programas curriculares foram cumpridos. Claro que há sempre alguns alunos que o não conseguem. É uma situação lamentável, mas que acontece. Em geral, os alunos obtiveram um bom aproveitamento. No entanto, o objectivo é sempre melhorar os seus níveis de competências. Para isso, é preciso continuar o trabalho com muito rigor e empenho. Assim será, estou certo, com os professores e espero que o mesmo aconteça com a restante comunidade educativa. É urgente que todos nós, professores, encarregados de educação, incutamos nos alunos maior cultura de responsabilidade. Só assim os nossos educandos estarão preparados para enfrentar e vencer os desafios com que se irão deparar ao longo das suas vidas.
Quais os aspectos que destacaria, pela positiva e pela negativa?
O empenho da grande maioria dos nossos alunos e restante comunidade educativa, a colaboração entre pais, auxiliar de acção educativa, animadoras e professores, terão sido os aspectos de maior relevo, pela positiva. A falta de colaboração de alguns encarregados de educação, será um dos aspectos a melhorar no próximo ano lectivo.
Considerando as novidades que têm sido apresentadas nos últimos anos, desde os programas às ferramentas de trabalho, qual a sua opinião quanto ao estado do ensino primário actual?
Os professores já eram obrigados a fazer formação para poderem progredir na carreira. O Ministério da Educação promoveu acções de formação para professores nas áreas de matemática, língua portuguesa e das ciências experimentais. A nossa escola recebeu alguns materiais de laboratório, pelo facto de alguns dos seus professores terem frequentado a formação em ciências experimentais. Foram implementadas, como todos sabem, as Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC): música, desporto e inglês. Considero que todas estas medidas são positivas. Os professores serão, certamente, melhores professores e o desenvolvimento dos alunos será seguramente mais equilibrado e multifacetado. No entanto, ao seleccionar-se os professores que irão leccionar as AEC, deveria haver maior preocupação com a sua formação pedagógica para trabalhar com este nível de ensino. Trabalhar com o 1 º ciclo, dada a faixa etária dos alunos, não é a mesma coisa que fazê-lo noutros níveis de ensino. Um melhor conhecimento da natureza dos alunos do 1 º ciclo ajuda-nos a motivá-los, não só para as aprendizagens, mas também para que assumam melhores atitudes comportamentais. Aliás, é o comportamento de alguns alunos o grande obstáculo ao normal desenvolvimento das actividades de enriquecimento curricular. Estas deverão ser abordadas de uma maneira lúdica, mas sempre com a preocupação de adquirir competências, caso contrário, fica a ideia que as AEC servem para guardar e manter os alunos ocupados até às 17h30. É necessário que os pais sintam que aquelas actividades são importantes para um harmonioso desenvolvimento dos seus filhos e que lhes transmitam isso.
A implementação de uma cultura de trabalho, de disciplina, de rigor, ajuda os nossos alunos a adquirir hábitos de maior responsabilidade e a prepará-los para enfrentar e vencer as dificuldades com que se irão deparar ao longo das suas vidas. Estas são, em minha opinião, as atitudes, que professores e pais, em estreita colaboração, deverão incutir nos alunos, para assim combater uma cultura de facilitismo, que se instalou e que tão prejudicial é para que a instituição escola possa ajudar as crianças a serem mais capazes de ultrapassar os desafios ao longo da vida.
As novidades tecnológicas, como o "Magalhães" e os quadros interactivos também já chegaram à nossa escola. Acha que são, de facto, uma mais-valia e são bem aproveitados pedagogicamente para uma melhor aprendizagem dos alunos?
Os quadros interactivos estão apetrechados com software que se pode considerar adequado para todas as áreas curriculares e são, por isso, uma excelente ferramenta, que muito irá ajudar no processo ensino/aprendizagem. O computador "Magalhães" pode ser uma mais-valia. Contudo, os professores têm programas a cumprir e não é possível fazê-lo, trabalhando com ele nas aulas. Seria um trabalho demorado e nem todos têm o computador. Se fosse instalado o software do "Magalhães" no quadro interactivo, seria mais fácil e prático trabalhar com alguma regularidade na sala de aulas. Penso que se justifica a implementação de uma disciplina de informática como AEC, e assim rentabilizar-se-ia o investimento que o País fez naquele computador.
Em relação, concretamente, às crianças da Golpilheira, considera que estão bem integradas na escola e a viver de forma plena esta fase do seu crescimento?
A resposta a esta pergunta está muito no que afirmei atrás. No entanto, pode-se afirmar, que estão bem integradas na escola e a viver harmoniosamente e com alegria esta fase de crescimento. Há um bom ambiente neste estabelecimento de ensino.
A relação entre a escola e a comunidade é satisfatória, nomeadamente, através da participação dos pais no processo educativo?
A relação entre a escola e a comunidade é em minha opinião muito boa. A Comissão de Pais é dinâmica, atenta e particularmente sensível a tudo o que se passa na escola. Esta realiza muitas actividades de carácter cultural e lúdico (teatro, festa de Natal, visitas de estudo, dia internacional da criança...) e isso deve-se muito ao facto de os pais estarem organizados e representados numa comissão interventora e sempre pronta a colaborar com a escola, seja patrocinando ou sugerindo actividades. Toda a comunidade educativa se deve empenhar em manter esta dinâmica e para isso não se pode deixar "morrer" a Comissão de Pais.
Quanto às instituições com tutela no sector, desde o Ministério da Educação e DREC às autarquias locais, acha que têm correspondido ao que se esperaria delas em investimento escolar?
O trabalho do Ministério da Educação é essencialmente de natureza organizacional. É esta a minha sensação. Julgo que a tutela podia e devia fazer mais, no sentido de restaurar a credibilidade e a "autoridade" do professor, que está, se assim se pode dizer, pelas ruas da amargura. Este facto dificulta muito a acção do professor perante a comunidade educativa e é a principal razão do alastramento da indisciplina nas escolas. Não é, felizmente, o caso na escola da Golpilheira. De acordo com um estudo recente, os professores desperdiçam, em média, 25% do seu tempo de trabalho a mandar calar os alunos. Aqui, os alunos da Golpilheira não estão fora desta realidade. São crianças simpáticas, mas muito conversadoras e esta realidade é preocupante e é o principal factor para a falta de aproveitamento de alguns alunos e um forte obstáculo a um ambiente propício a uma boa aprendizagem.
A Câmara Municipal da Batalha e a Junta de Freguesia da Golpilheira têm correspondido muito bem ao que delas se espera, embora haja sempre qualquer coisa mais a fazer. A escola da Golpilheira precisa – é mesmo urgente – que o ringue seja coberto, porque no Inverno, com o frio e a chuva, os alunos ficam no corredor a brincar e este não tem espaço nem condições. Quando isto acontece, as crianças ficam mais agitadas e é mais difícil trabalhar com elas. Sei que a Junta e a Câmara estão atentas e são sensíveis a esta situação e que têm vontade de a resolver. Estou certo de que o irão fazer. Uma escola com boas infra-estruturas recreativas é também um local mais aprazível e mais motivador para todos os que a frequentam, sendo também, por isso, mais uma ferramenta que o professor pode explorar no sentido de motivar os alunos para as aprendizagens.
Olhando já à preparação do futuro, o que gostaria que fosse melhorado no próximo ano lectivo na escola da Golpilheira, para um maior aproveitamento de alunos, pais e professores?
A resposta a esta pergunta encontra-se em tudo o que disse atrás. Contudo, se todos nós transmitirmos aos alunos uma cultura de responsabilidade e de valores, então todos tirarão maior aproveitamento, não só do ponto de vista da aquisição de competências, mas também do ponto de vista das qualidades humanas.
Entrevista de Luís Miguel Ferraz
terça-feira, 30 de junho de 2009
sábado, 13 de junho de 2009
Inauguração da nova Junta de Freguesia

Com Missa, sessão solene e convívio...
O novo edifício da Junta de Freguesia da Golpilheira irá ser inaugurado no próximo dia 14 de Junho, domingo. Esta é uma data histórica para a nossa localidade, que assinala este ano as bodas de prata da sua eleição a freguesia. Segundo Carlos Santos, presidente do executivo local, "pretendemos fazer deste momento o arranque das comemorações dos 25 anos da criação da Freguesia, porque esta nova casa é a melhor prenda que poderíamos ter para oferecer à população, sendo a primeira sede construída de raiz para esta finalidade".
As comemorações começarão às 10h00, com a celebração da Missa dominical, seguindo-se a recepção às entidades convidadas, junto à nova sede da Junta. A inauguração solene, com hastear de bandeiras, bênção do edifício e visita às instalações, começará pelas 11h30. Da parte da tarde, pelas 17h30, a autarquia oferece a todos um lanche de convívio, com porco no espeto e sardinhada, que contará com a animação do rancho folclórico "As Lavadeiras do vale do Lena", do Centro Recreativo da Golpilheira, e ainda a presença de animadores especialmente dedicados às crianças presentes.
Escusado será dizer que toda a população é convidada a participar e testemunhar pessoalmente os vários momentos deste dia, que é, sem dúvida, muito importante para a nossa freguesia. "As pessoas são a principal razão para que se façam obras como esta e, por isso, contamos com uma presença numerosa de golpilheirenses, para que possam desfrutar dos primeiros momentos vividos nesta casa que é de todos nós", conclui o presidente da Junta de Freguesia.
Formação para pais e educadores da Batalha
Os sinais de alerta nas crianças
A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens da Batalha e a equipa de intervenção precoce de Batalha/Porto de Mós levam a efeito, no dia 17 de Junho, no auditório municipal da Batalha, às 21h00, uma acção de esclarecimento intitulada "Os sinais de alerta no desenvolvimento infantil". Dirigida a pais, educadores, professores e comunidade em geral, será orientada por Arlete Crisóstomo, da Consulta de Desenvolvimento do Hospital Santo André, de Leiria. A entrada é gratuita.
A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens da Batalha e a equipa de intervenção precoce de Batalha/Porto de Mós levam a efeito, no dia 17 de Junho, no auditório municipal da Batalha, às 21h00, uma acção de esclarecimento intitulada "Os sinais de alerta no desenvolvimento infantil". Dirigida a pais, educadores, professores e comunidade em geral, será orientada por Arlete Crisóstomo, da Consulta de Desenvolvimento do Hospital Santo André, de Leiria. A entrada é gratuita.
Irineu Alves expõe na Batalha
Pintor brasileiro volta a Portugal
Depois de ter deslumbrado o público com a exposição "Fragmentos Luso-Brasileiros", Irineu Alves de Souza volta a expor as suas telas na Batalha, de 19 de Junho a 5 de Julho. Natural da cidade de Irará, Estado da Baía, Irineu Alves é um dos grandes nomes da pintura brasileira, com dezenas de exposições realizadas nas principais galerias do mundo.
Depois de ter deslumbrado o público com a exposição "Fragmentos Luso-Brasileiros", Irineu Alves de Souza volta a expor as suas telas na Batalha, de 19 de Junho a 5 de Julho. Natural da cidade de Irará, Estado da Baía, Irineu Alves é um dos grandes nomes da pintura brasileira, com dezenas de exposições realizadas nas principais galerias do mundo.
"Música em Leiria 2009" volta a passar pela Batalha
O 27.º Festival Música em Leiria, dinamizado pelo Orfeão de Leiria, decorrerá entre os dias 27 de Maio e 2 de Julho de 2009. Como é hábito, vai trazer dois espectáculos ao Mosteiro da Batalha. O primeiro será no dia 20 de Junho, intitulado "Sete lágrimas", uma fusão dos universos de Heinrich Schütz e Ivan Moody, numa releitura contemporânea da música do início do séc. XVII. O segundo será no dia 26 de Junho, com a cravista Joana Bagulho e o actor F. Pedro Oliveira a proporem uma incursão no universo de Carlos Paredes, misturado com Scarlatti e palavras de autores como Eugénio de Andrade, Cesário Verde, José Luís Peixoto e José Eduardo Agualusa. Dois espectáculos a não perder.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Festas da Santíssima Trindade nos dias 6 e 7 de Junho
As Festas da Santíssima Trindade realizam-se, conforme o Calendário Litúrgico, oito semanas depois do Domingo de Páscoa. Este ano, serão no fim-de-semana de 6 e 7 de Junho. O momento central é a Eucaristia, às 11h00, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Mas a visibilidade maior é-lhe conferida pelas bonitas tradições populares, que em tempos a tornaram famosa e que actualmente se tentam manter. Trata-se da recolha das ofertas e tabuleiros com pão e bolos de ferradura, no sábado, para a procissão após a Missa dominical.
Anualmente é escolhido um "Imperador", responsável pela festa e que encabeça a procissão. Recolhidas junto ao centro paroquial, as ofertas são o principal atractivo do arraial, havendo um concurso para eleger as que mais respeitam a tradição na decoração e transporte. Reza a lenda que o aparecimento das ofertas se deve ao agradecimento à Santíssima Trindade pelo milagre de ter livrado os celeiros dos frades dominicanos do Mosteiro de uma praga de insectos que atacou na região.
Também ligado à lenda e ao decurso da procissão é o momento em que, do alto do Carvalho do Outeiro, os mais novos lançam "merendeiras bentas" sobre os que passam em baixo. O destino é serem colocadas nos roupeiros e armários, onde protegerão as roupas do ataque da traça. Para quem não saiba, o melhor é começar por proteger a cabeça no momento da passagem no local, já que os pãezinhos são pequenos, mas duros...
Anualmente é escolhido um "Imperador", responsável pela festa e que encabeça a procissão. Recolhidas junto ao centro paroquial, as ofertas são o principal atractivo do arraial, havendo um concurso para eleger as que mais respeitam a tradição na decoração e transporte. Reza a lenda que o aparecimento das ofertas se deve ao agradecimento à Santíssima Trindade pelo milagre de ter livrado os celeiros dos frades dominicanos do Mosteiro de uma praga de insectos que atacou na região.
Também ligado à lenda e ao decurso da procissão é o momento em que, do alto do Carvalho do Outeiro, os mais novos lançam "merendeiras bentas" sobre os que passam em baixo. O destino é serem colocadas nos roupeiros e armários, onde protegerão as roupas do ataque da traça. Para quem não saiba, o melhor é começar por proteger a cabeça no momento da passagem no local, já que os pãezinhos são pequenos, mas duros...
Futsal Feminino | Adeus à taça nacional com acusações à arbitragem
O jogo no Fundão, no passado dia 30, ditou o adeus da equipa de futsal femino da Golpilheira à Taça Nacional. Bastava um empate, pois a diferença de golos entre as duas equipas era enorme, mas o Fundão acabou por garantir a vitória por 3-2.
Não tirando mérito às vencedoras, parece que os casos do jogo foram mais que muitos, o que deixou a treinadora da Golpilheira, Teresa Jordão, à beira de um ataque de nervos. Em causa, a nomeação do árbitro principal da partida, que pertence à Associação de Futebol de Castelo Branco, precisamente a mesma da equipa do Fundão!
Estranho é o mínimo que se pode dizer desta nomeação. "Embora pareça não haver violação de qualquer estatuto, é difícil acreditar que não haja intenções duplas por detrás desta decisão, senão inédita, pelo menos, muito rara de acontecer", garante a treinadora, que está a preparar uma exposição do caso à Federação e à direcção de clubes. Teresa Jordão afirma que "houve claro excesso de zelo na marcação de faltas à Golpilheira logo no início da partida, e o segundo golo do Fundão foi feito pelo árbitro, ao mandar repetir um livre que tinha sido defendido pela guarda-redes da Golpilheira, por ter havido uma falta na primeira marcação... por parte das jogadoras atacantes!".
É caso para dizer que mais água vai correr ainda debaixo desta ponte!
Não tirando mérito às vencedoras, parece que os casos do jogo foram mais que muitos, o que deixou a treinadora da Golpilheira, Teresa Jordão, à beira de um ataque de nervos. Em causa, a nomeação do árbitro principal da partida, que pertence à Associação de Futebol de Castelo Branco, precisamente a mesma da equipa do Fundão!
Estranho é o mínimo que se pode dizer desta nomeação. "Embora pareça não haver violação de qualquer estatuto, é difícil acreditar que não haja intenções duplas por detrás desta decisão, senão inédita, pelo menos, muito rara de acontecer", garante a treinadora, que está a preparar uma exposição do caso à Federação e à direcção de clubes. Teresa Jordão afirma que "houve claro excesso de zelo na marcação de faltas à Golpilheira logo no início da partida, e o segundo golo do Fundão foi feito pelo árbitro, ao mandar repetir um livre que tinha sido defendido pela guarda-redes da Golpilheira, por ter havido uma falta na primeira marcação... por parte das jogadoras atacantes!".
É caso para dizer que mais água vai correr ainda debaixo desta ponte!
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