O Campo da Batalha de Aljubarrota e a sua área envolvente, no concelho de Porto de Mós, estão desde o dia 4 de Novembro classificados como monumento nacional, uma decisão tomada em Conselho de Ministros.
A decisão foi justificada com o facto de se tratar de "património que representa um valor cultural de significado para o País e que deve ser objecto de especial protecção e valorização, no quadro da obrigação do Estado de proteger e valorizar o património cultural".
Recorde-se que o espaço em causa foi palco da Batalha de Aljubarrota, ocorrida entre os exércitos português e castelhano num planalto entre a Ponte da Boutaca, no concelho da Batalha, a Norte, e o Chão da Feira, concelho de Porto de Mós, a Sul, no dia 14 de Agosto de 1385, representando, como realça o comunicado do Conselho de Ministros, "um momento decisivo de afirmação de Portugal como reino independente, marcando o imaginário de muitas gerações".
"Para além da sua importância histórica, a batalha foi igualmente pretexto para o desenvolvimento de uma táctica militar inédita, apurada na Guerra dos 100 Anos e posta em prática por D. Nuno Álvares Pereira, de que é testemunho o complexo sistema defensivo, constituído por cerca de 800 covas de lobo e dezenas de fossos, posto a descoberto nas campanhas arqueológicas que decorrem desde 1958", acrescenta o referido comunicado.
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domingo, 28 de novembro de 2010
O Infante D. Henrique, a Batalha e os Destinos de Portugal
Alocução proferida no dia 14 de Novembro de 2010, no Auditório do Mosteiro da Batalha, integrada nas Celebrações dos 550 Anos da Morte do Infante D. Henrique: 1460-2010, organizadas pela Associação de Municípios Terras do Infante e Câmara Municipal da Batalha.
Por Saul António Gomes
Universidade de Coimbra
1 - O monumento em que nos encontramos, antigo mosteiro de frades dedicados à pregação da palavra evangélica mas também ao vigilante culto do silêncio que permite ouvir a voz do sagrado, dedicado ao título de Santa Maria da Vitória, é um dos lugares mais simbólicos da identidade pátria.
Rima esta palavra pátria, tão pequena nas letras com que se escreve, mas tão grande na memória que em nós acorda, com aquela outra que pronunciamos “vitória”, a vitória das armas dos leais portugueses que, no desfavor do número e em circunstâncias militares difíceis e muito desfavoráveis, ainda assim, animados de uma fé a Deus e à ideia da legitimidade da sua luta pela liberdade daqueles que eram o seu reino e o seu novo rei, na distante tarde de 14 de Agosto de 1385, triunfaram sobre os injustos invasores, consagrando a independência nacional.
Para comemorar tão “maravilhosa vitória”, palavras de D. João I, ordenou, aquele que foi o décimo rei de Portugal, que se edificasse neste sítio uma “casa de oraçom”. Um templo que, desejava o Rei da Boa Memória, fosse o maior que até então se levantara em toda a Hispania. Depois de Ceuta, em 1415, a Batalha viu acrescidas as suas responsabilidades já não apenas como “casa de Deus” mas também como panteão da nova dinastia.
Deste modo, o majestoso Mosteiro de Santa Maria da Vitória tornava-se arca de uma memória permanente em torno da ideia de Portugal e daquelas gerações de homens ilustres que conduziram os destinos pátrios ao longo desse tão rico século XV em que as portas do mundo novo se abriram, no mapa que as descobertas marítimas portuguesas construíram, definitivamente para toda a Humanidade. Comemora o triunfo português, a entronização de uma nova dinastia real, a vitória da fidelidade a Roma num tempo em que a Igreja do Ocidente se cindia entre a Cidade Eterna e Avinhão.
Este é, sobre todos, o templo maior da memória pátria. Foi essa a razão da sua edificação e tem sido essa, nestes últimos mais de seis centos de anos, a lógica da sua preservação, da sua exaltação e valorização utópica, política e cultural, princípios, estes, reiterados em todas as épocas, por todos os governos, por todos os “Estados”, que se sucederam em Portugal.
Não queria, de modo algum, deixar aqui a visão de que a ideia de pátria que este monumento comemora é uma representação estática e imóvel. Bem sabemos que as pátrias se renovam na mudança das gerações a que são berço, enriquecem-se no encontro de culturas, na partilha multicultural dos povos. E este monumento testemunha muito bem esse encontro de culturas que, desde os tempos medievais e sobretudo nessa centúria de ouro dos Descobrimentos marítimos. Nele trabalharam homens de diferentes proveniências e nações. A sua linguagem estética demonstra a europeidade portuguesa nos finais da Idade Média e nos alvores de Quinhentos. A sua história mostra-nos a evolução dos tempos, das ideias, dos sentimentos e das expressões religiosas.
Mas reconhecermos que essa mudança permanente do tempo e dos homens é o motor da própria História, não anula o necessário assentimento de que, para lá de todas as transformações, mutações e mudanças, permanece, na História, em geral, como neste monumento, em particular, o vínculo durável do sentido de Portugal ou da pátria portuguesa.
Tão grande como este monumento é, numa escala humana, o legado histórico do Infante D. Henrique. Não poderá nenhum historiador reticenciar, por mais que a sua biografia seja escrita e reescrita, que, aquele que foi consagrado como Infante de Sagres, influiu de modo determinante nos destinos históricos de Portugal, como também nos de toda a Humanidade.
A sua determinação e a sua capacidade de acção e de realização de projectos e vontades, o seu desejo de descoberta, de procurar toda a certeza das realidades geográficas e humanas mal conhecidas no seu tempo, estão na base do que é o Portugal moderno e contemporâneo. D. Henrique, criado por um destino português afirmado nesta Batalha, seria fautor de um novo destino para Portugal.
Não podem, efectivamente, as discussões historiográficas, mais ou menos favoráveis ao papel do Infante na História, ou sequer as “utilizações políticas” que dele se fizeram, apagar as pegadas com que D. Henrique marcou os destinos de Portugal.
No início do século XVI, Duarte Pacheco Pereira escreveu, na sua obra Esmeraldo de situ orbis, avaliando o legado henriquino, as seguintes palavras:
“Tantos sam os beneficios que o virtuoso Infante Dom Anrique teem feytos nestes Reynos, que os Rex e povoos d’elles lhe sam em muita obriguaçam, porque na terra que elle descobrio, grande parte de jente de Portugual ganha de comer, e os Rex d’este comercio grandes proveytos ham.”2
Não poderia haver síntese mais adequada, neste momento, do que esta que acabámos de ler. O legado henriquino resumia-se a um destino português, pois que, pelos Descobrimentos, “grande parte da jente de Portugal ganha de comer”. E os Descobrimentos não só mataram a fome a muitos portugueses, mas também trouxeram riqueza aos reis de Portugal, tornando-os grandes e respeitados em todo o orbe e, por eles, Portugal no mundo.
2 - Em data indeterminada, mas próxima da morte do ilustre Infante D. Henrique, cuja memória aqui celebramos, um frade dominicano, de seu nome Fr. Afonso de Alfama, recolhido em cela do Convento de S. Domingos de Lisboa, anotou, no Livro de Aniversários, desse antigo claustro, a seguinte informação:
“Em a era de Nosso Senhor Jehsu Christo de iiijc lx anos xiij dias andados do mes de Novembro no Algarve morreo ho ilustrissimo Senhor Ifante Dom Henrrique filho do dicto senhor rey Dom Joham e da raynha Dona Philipa. E morreo em honrra de velhice de hydade de Lx e vij annos, na sua villa do Ifante, aas dez horras da noute. Boo morrer de christãao em tal modo que todos aqueles que presentes foram teem esperança e fe de seer em gloria e salvaçom.
E na era de iiijc lxj, vº dias andados do mes de Julho foy traladado ho seu corpo no seu muymento na capella delle … do dicto Mosteiro da Batalha e visto por nosso senhor el Rey Dom Afomso seu sobrinho … fazendo-lhe muito solempnes exequias etc.”3
Não se alonga mais o apontamento deste informado frade dominicano de Lisboa. Mas mau grado a brevidade da notícia, ainda que notícia primeira porque redigida em momento muito próximo dos factos que narra, há que sublinhar que nela ressalta já a visão elogiosa e comemorativa da sociedade portuguesa em torno do Infante de Sagres. “Ilustrissimo Senhor” lhe chama o quase desconhecido cronista pregador, sublinhando que o passamento do filho dos reis fundadores da nova dinastia acontecera nesse ainda distante reino do Algarve, para, de seguida, sublinhar que a boa morte do Infante se revestira de indícios de virtudes cristãs prenunciadoras de santidade: um bom morrer, de cristão, de tal modo que todos quanto lhe assistiram ao passamento tinham “esperança e fé de ele ser em glória e salvação”.
A sociedade portuguesa no entorno de 1460 mostrava-se reconhecida para com o Infante que morrera no Algarve. E não deixará de comemorar, com magnificência lusitana, a trasladação dos restos mortais do Infante para este Mosteiro da Batalha, onde foi definitivamente tumulado a 5 de Julho de 1461, no meio de exéquias solenes presididas pelo monarca reinante, D. Afonso V, sobrinho do Infante.
Anos mais tarde, o cronista Rui de Pina, enaltecendo este “infante Dom Anrryque” que, palavras suas, “foy em tudo princepe tam perfeito”, e acrescentado interpretação histórica à memória da morte do Infante, escreveu, sobre o momento da sua morte, o seguinte:
“Faleceo em Sagres ho jfante Dom Anrrique, com synaaes e comprimento de fiell christãao, em hidade de sesenta e sete annos, cujo corpo foy logo soterrado na igreja da villa de Laagos. E hy, no anno que vinha de mjl e quatrocentos e sesenta e huum, foram seus ossos levados ao moesteiro da Batalha per o jfante dom Fernando, que tinha adoptado por filho, que foy por elles e os trouxe, com grande honrra e mujta cerimonia, ao dicto moesteiro. Onde elrrey, acompanhado de toda a nobre gente de Portugal e mujtos prellados, saio a os rreceber, com sollempne procissam, e lhe fezeram honradas exequjas.”4
3 - A história da vida do Infante D. Henrique encontra-se muito interligada com a memória plural que se respira neste templo pátrio. Na verdade, o Infante de Lagos, admirado e elogiado pela Cristandade do seu tempo, foi uma das personalidades da Dinastia de Avis que mais se interessou por este Mosteiro. Se para seu pai, D. João I, a Batalha comemorava a vitória da Batalha Real de Aljubarrota, para D. Henrique este lugar assumiria, como passarei a expor, uma vocação ainda mais sensível no campo da memória de si e dos seus familiares.
O Infante D. Henrique foi, efectivamente, dentre a “Ínclita Geração, Altos Infantes”, como a caracterizou com feliz inspiração Luís de Camões5, depois dos reis de Portugal, um dos promotores que mais se interessou pela edificação deste Mosteiro e panteão dinástico.
Não há dúvida alguma acerca do facto de o Infante ter visitado por várias vezes, ao longo da sua vida, este Mosteiro. Esteve aqui nas exéquias solenes por sua mãe, D. Filipa de Lencastre, em 1416, como regressaria, ainda, para acompanhar a deposição junto do altar-mor do féretro de seu pai, em 1433 e, um Agosto de 1434, a trasladação de ambos os progenitores para a Capela do Fundador. Acompanharia pessoalmente, também, a deposição das primeiras relíquias de seu irmão, o Infante D. Fernando, trazidas de Marrocos, em 1458, no mausoléu fúnebre deste.
O interesse do Infante D. Henrique pelo Mosteiro da Batalha, enquanto lugar de memória dinástica e pátria, e, nisso, de distinção e honra para os que nele se tumulavam, é atestado, de forma extremamente singular, em carta régia de D. Duarte, promulgada a 24 de Agosto de 1436, em Óbidos, na qual o monarca Eloquente concedia, a seu irmão, autorização para que ele:
“Posa mandar lançar na capella do noso Moesteiro da Vitoria que esta junto com a samchristia aqueles seus criados que lhe a ell prover porque a nos praz que seja pera jazygoo delles.”6
Esta importante carta atesta a elevada importância simbólica que o Infante dava a este Mosteiro. Como a concedia, ainda, ao celebrado Convento de Tomar, no qual fez levantar novo claustro e desenvolveu obra artística de dignificação desse mesmo cenóbio, sede da Ordem que governava, no qual se tumulavam os religiosos cavaleiros que serviam debaixo do pendão com a celebrada cruz de Cristo.
Tenhamos presente, todavia, que, em 1436, D. Henrique se empenhava fortemente na preparação da armada militar com que pretendia conquistar Tânger. É possível que o privilégio de poder vir a sepultar aqueles que o servissem, nessa nova conquista marroquina que se avizinhava, em jazigos da Capela de Santa Bárbara, constituísse um factor psicológico para alguns desses seus criados e servidores, sendo, como era, um sinal de evidente prestígio e honra sociais.
Tenhamos presente, todavia, que o Mosteiro acolhia, por privilégio real, capelas funerárias de servidores da Casa Real. É assim que o vedor-mor da casa da rainha D. Filipa de Lencastre, D. Fr. Lopo de Sousa, mestre da Ordem de Cristo até 1418, recebeu a capela de S. Miguel ou dos Mártires, no absídiolo sul da cabeceira da igreja. Também nas capelas de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora da Piedade foram enterrados servidores da rainha D. Isabel, mulher de D. Afonso V, e de D. João II, respectivamente. O próprio Infante D. Pedro, duque de Coimbra, conseguiu que o vedor da sua casa, Diogo Gonçalves de Travassos, parente de Gonçalo Velho Cabral, um dos descobridores dos Açores, recebesse uma nobre sepultura no estremo poente desta igreja dominicana, bem ao lado da capela do Fundador.
Não era, como se sabe, inédito, o facto de os Infantes procurarem galardoar os seus mais fiéis ou directos servidores com a honra de poderem receber sepultura junto ou perto das dos seus senhores. A Casa de Avis, como bem reflectiu o Infante D. Pedro, no seu Tratado da Virtuosa Benfeitoria, premiava com benefícios relevantes o mérito dos seus súbditos e sujeitos, vivificando uma cadeia de lealdades e de repartição de responsabilidades, de sentido de comando e de disciplina, que, em boa parte, ajuda a explicar a capacidade de acção e de união que marcou os portugueses que embarcaram nas caravelas dos Descobrimentos.
A súbita morte de seu irmão, el-rei D. Duarte, na vila de Tomar, em 1438, não pode ter deixado de perturbar fortemente o Infante das Descobertas. Nota-se, desde então, uma preocupação mais acentuada, por parte dele, em relação ao espaço que viria a ser o seu túmulo e às celebrações religiosas que deveriam ser asseguradas pelos frades dominicanos por sua alma.
Certo é que, já no testamento de seu pai, lavrado em Sintra, a 2 de Outubro de 1426, ficava expressa a vontade do rei da Boa Memória de que, neste cenóbio e capela ou panteão que aqui fazia erguer, citamos: “pellos jazyguos das paredes da capela todas em quadra, asy como sam feytas, se possam lamçar filhos e netos de rreix e outros nom”7.
D. Henrique sempre gozou de uma especial proximidade com seu pai. Não estranha que, reflectindo no inevitável fim da sua vida, também, depois de morto, desejasse ficar junto dos seus progenitores. A primeira manifestação documentada desse desiderato chega-nos em carta de 1 de Junho de 1439, pela qual os regentes do Reino, a rainha viúva D. Leonor e o Infante D. Pedro, concedem ao Infante e Duque de Viseu e senhor da Covilhã, licença:
“Que elle possa aver huum altar e huum jazigoo pera sseu corpo na capeella delrrey meu avoo, cuja alma Deus ajam que ho no moesteyro da Vitoria, junto com ho outro do jfante dom Pedro, duque de Cojnbra e ssenhor de Montemoor, meu muyto amado e prezado tyo, a saber, ho altar junto com ho outro altar sseu he jazigoo per esta guissa.”8
Em 1444, o regente D. Pedro reconhecia a seu irmão o estabelecimento que este promovera de uma feira franca em Viseu, autorizando-o a apropriar, à capela que ele tinha no Mosteiro da Batalha, o rendimento dos alugueres das barracas aos feirantes9. A 8 de Março de 1449, nas vésperas da fatídica batalha de Alfarrobeira, onde viria a morrer o ex-regente do reino, D. Afonso V renovou esta concessão, nos mesmos e exactos termos, a seu tio10.
Lembremos, por fim, que, por carta régia de 14 de Junho de 1474, foi acrescentada ao sustento da capela do Infante D. Henrique, neste Mosteiro, a tença de quatro mil reais para um anal de missas, os quais seriam pagos na Casa da Guiné11.
4 - Junto de seu pai, como referimos, quis o Infante dos Descobrimentos marítimos portugueses receber sepultura, como declarou reiteradamente no seu segundo e último testamento, por ele subscrito a 28 de Outubro de 1460:
“Item mando que ho meu corpo seja lançado no muimento que estaa pera mym onde jaz elrrej meu ssenhor e padre, no mosteiro de Sancta Maria da Ujtoria. E, se morrer fora, que seja leuado chãamente e assy seja soterrado e ssem doo, que mando que por mym nom façam; mas, chãamente e honestamente, seja encomendado a Deus com oras e mjssas acustumadas e oferta e dalhas que o meu testamenteiro ouuer por bem, o que faram conpridamente paguar, desencarreguando mjnha conçiençia.”12
Neste Mosteiro, em que o Navegador “a Deus prazendo, entendia de jazer”13 foi, pois, solenemente sepultado.
Acautelara previamente o Infante que queria que aqui se cantassem para sempre “tres capellas”, cuja liturgia determinara minuciosamente em cartas que deixava à guarda do seu testamenteiro. Para custear estas capelanias de missas e ofícios por sua alma, o Infante contratara-se, havia anos, com os padres conventuais deste Mosteiro, determinando que as celebrações em causa seriam pagas, anualmente, no montante de 16 marcos de prata, pagos, generosamente, reconheçamos, em prata pelos rendimentos das suas terras de Tarouca e de Valdigem14.
Nos três anos seguintes à sua morte, todos os encargos e dívidas que deixava, bem assim as despesas com as celebrações por “descarreguamento de minha conciençia” e com sua sepultura, deveriam ser pagos dos seus bens, a saber, o assentamento que lhe estava consignado na fazenda régia, as saboarias do Reino, as Ilhas da Madeira e Porto Santo e a Deserta, a Guiné com suas ilhas e toda a sua renda, e o quinto das enxavegas e das pescas de atuns e corvinas e Lagos e Alvor15.
É bem possível que uma parte dos códices litúrgicos da capela palatina do Infante tenham vindo enriquecer, depois da sua morte, o espólio da sua capela funerária. A 17 de Novembro de 1461, regista-se a entrega, por um executor testamentário de D. Henrique, a Fr. João Martins, provedor das obras do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, de “huma estante de ferro pera a capeella” do Infante16.
5 – Em Santa Maria da Vitória se cultuou, desde então, a memória deste Infante.
Uma memória diferenciada da dos irmãos. Basta verificar que o seu túmulo tem uma estátua jazente em que o Infante é apresentado na solenidade dos trajes principescos e de fundador da casa ducal de Viseu. As fontes históricas coevas do Infante sugerem que lhe foi devotada a aura de santidade.
Narra Diogo Gomes de Sintra, seu criado e panegirista, como Zurara, que, por mandado do rei D. Afonso V, em Julho de 1461, se dirigiu a Lagos, citamos, “junto do corpo do Infante a dar o que era necessário aos sacerdotes que se entregavam a continuas vigílias no ofício divino.”
Refere Diogo Gomes que o monarca lhe mandara:
“Que visse com cuidado se o corpo do Infante estava decomposto, porque queria trasladar os seus ossos para o mosteiro que se chama Santa Maria da Batalha, obra muito bela que o rei Dom João, seu pai, edificara com os Frades da Ordem dos Pregadores.
Eu, pela minha parte, chegando junto ao cadáver, descobri-o e encontrei-o seco e íntegro, com excepção da ponta do nariz. Achei-o revestido de um cilício áspero de cerdas de cavalo. Bem canta a Igreja: “Não consentirás que o teu santo veja a corrupção”.
Este senhor Infante permaneceu virgem até à morte e em sua vida praticou muitas boas obras que seria muito longo enumerar.
Então o rei mandou que o seu irmão, o Infante Dom Fernando, Duque de Beja, com os bispos e os condes fossem buscar o corpo até ao mosteiro da Batalha, acabado de referir, onde o rei o esperava. Foi deposto o corpo do Infante numa grande e belíssima capela que fez o pai dele, o rei Dom João; aí jaz esse mesmo rei e a sua esposa Dona Filipa, mão do Infante, e os seus cinco irmãos, todos eles de memória digna de louvor para sempre. Descansem na paz dos santos; amen.”17
Um corpo incorrupto que ainda hoje podemos entrever admirando a sua estátua jacente, deposta sobre a pedra do seu túmulo, manifesto definitivo da sua imagem de homem que o seu principal biógrafo e panegirista, Gomes Eanes de Zurara, referiu ter tido:
“A estatura do corpo em boa grandeza e foe homem de carnadura grossa e de largos e fortes membros. A cabelladura avya algum tanto alevantada. A coor de natureza branca, mais polla continuaçom do trabalho, por tempo, tornou doutra forma. Sua presença, do primeyro esguardo, aos nom husados era temeroso, arrebatado em sanha, empero poucas vezes, com a qual avya muy esquivo sembrante.”
O Infante revelava muito bem a sua identidade genética na sua fisionomia, tão discutida nos últimos anos, não escondendo o sangue inglês, que herdara por linha materna, aparentando claras parecenças com seu pai D. João I. É esse rosto que se gravou na estátua do seu túmulo e que, neste momento, pelo cinzel de novas gerações de canteiros batalhenses se volta a reproduzir em busto público, para mais larga admiração de todos, em praça contígua a este monumento.
Neste Mosteiro, pois, em que se ilumina o sentimento da alma pátria, repousam os restos mortais daquele cuja memória hoje, uma vez mais e num gesto repetido pelos séculos, celebramos. O Infante que impulsionou e sonhou os Descobrimentos, aquele que, na velha Europa, usando palavras do cronista Rui de Pina, “mandou primeiramente navegar e descobrir pello mar oceano.” Dessa verdadeira gesta e manifesto civilizacional recebeu Portugal, recorrendo a palavras do mencionado memorialista dos príncipes de Avis, “muyto bem e proveito”.
6 - Não cumpre, aqui e agora, estabelecer uma outra biografia deste príncipe e grande de Portugal. O momento é de celebração e traduz a importância que, entre nós portugueses dos alvores de uma nova centúria e de um novo milénio, se reconhece ao legado histórico de uma vida e de uma obra de todo invulgares nos destinos de Portugal e da Humanidade. O historiador deve também ser cidadão e partilhar com os seus contemporâneos o preito de homenagem e de memória que agora se tributa.
Se procurarmos uma lição de síntese, no que nos chegou de mais ideal na memória do Infante de Sagres, encontrá-la-emos na sua divisa heráldica. Por empresa, o Infante escolheu a azinheira carregada de glandes, símbolo da força e da sabedoria, símbolo de uma firmeza e de uma tenacidade bem portuguesas. Por moto, D. Henrique elegeu a expressão “Talent de bien faire.” Uma divisa feliz para um príncipe sem coroa desta grandeza.
O Infante teve, de facto, a capacidade e a inclinação para a realização do bem, de um bem-fazer que se traduzia e associava, naquele seu tempo tão distante de nós, na ideia de “bem comum”, de comunidade. “Bien faire” significava, sobremodo, fazer o “bem comum”. Este foi um ideal político muito presente nas primeiras gerações da Dinastia de Avis, esse “talant de bien faire”, de lealdade a um Portugal renovado, de serviço à causa pública.
Mau grado todas as leituras e todos os debates que se teçam em torno desta egrégia figura da história de Portugal e do Mundo, mais críticos ou mais elogiosos, não poderemos nunca deixar de lhe atribuir a importância ímpar que ele assumiu, no contexto e nas circunstâncias do seu tempo e do seu espaço civilizacional, nos destinos históricos daquele Portugal das Descobertas que “matavam a fome a muita gente”.
Por mais que se reescreva a sua biografia, e hoje, tenhamos noção disso, este acto de comemoração reitera, também ele e de vários modos, a continuidade de uma reescrita cívica dessa vida de um “filho ditoso” de Portugal, encontraremos sempre na margem cimeira, de qualquer texto que se lhe dedique, o reconhecimento do seu legado maior. O reconhecimento de um grande homem de Estado, do construtor de uma obra que se inscreve nos trilhos de todos aqueles homens da História Universal dotados desse insondável dom e incrível mistério do “talento de bem-fazer”.
Desse escol de grandes homens faz parte o Infante D. Henrique. Na sua vida abriram-se os seus destinos de um Portugal moderno. Um Portugal congregado em torno de um projecto de renovação, de grandeza, de expansão dos horizontes “por mares nunca de antes navegados”, assim se construindo a maravilhosa epopeia pátria na sua interminável viagem pelo tempo. Desse mesmo tempo que se suspende quando entramos, pequenos, neste magnífico templo gótico em que se contemplam os mistérios do mundo português de Quatrocentos.
TÁBUA BIBLIOGRÁFICA
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PEREIRA, Duarte Pacheco – Esmeraldo de Situ Orbis. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa, 1975.
PINA, Rui de – Crónicas de… Introdução e revisão de M. Lopes de Almeida. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1977.
PRADO, Fr. André do – Horologium Fidei. Diálogo com o Infante D. Henrique. Introdução, tradução e notas de Aires A. Nascimento. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses – Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994.
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ZURARA, Gomes Eanes de – Crónica dos feitos notáveis que se passaram na conquista da Guiné por mandado do Infante D. Henrique. Ed. Torquato de Sousa Soares. 2 vols. Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1978-1981.
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THOMAZ, Luís Filipe – De Ceuta a Timor. Carnaxide: Difel, 1994.
Notas
2 Livro I, Capº 33.
3 Citado por S. A. Gomes – O Mosteiro de Santa Maria da Vitória no Século XV. Coimbra: Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1990, p. 355, nota 4.
4 Rui de Pina, Crónica de el-Rei D. Afonso V, Capº 144; MH, Vol. XIV, Doc. 19, p. 84.
5 Os Lusíadas, IV, 50.
6 Fontes Documentais e Artísticas... I, Doc. 78, p. 197.
7 MH, Vol. III, Doc. 70.
8 MH, VI, Doc. 133.
9 MH, Vol. VIII, Doc. 84.
10 MH, Vol. X, Doc. 15.
11 S. A. Gomes – O Mosteiro de Santa Maria da Vitória…, p. 355.
12 MH, Vol. XIV, Doc. 11, p. 27.
13 MH, XIV, Doc. 11, p. 27.
14 MH, Vol. XIV, Docs. 7, 9, 11 e 19.
15 MH, Vol. XIV, Doc. 11, pp. 27-29.
16 MH, Vol. XIV, Doc. 127, p. 299
17 Diogo Gomes de Sintra, Descobrimento primeiro da Guiné. Edição crítica de Aires A. Nascimento. Introdução de Henrique Pinto Rema. Lisboa: Colibri, 2002, pp. 67-69.
Por Saul António Gomes
Universidade de Coimbra
1 - O monumento em que nos encontramos, antigo mosteiro de frades dedicados à pregação da palavra evangélica mas também ao vigilante culto do silêncio que permite ouvir a voz do sagrado, dedicado ao título de Santa Maria da Vitória, é um dos lugares mais simbólicos da identidade pátria.
Rima esta palavra pátria, tão pequena nas letras com que se escreve, mas tão grande na memória que em nós acorda, com aquela outra que pronunciamos “vitória”, a vitória das armas dos leais portugueses que, no desfavor do número e em circunstâncias militares difíceis e muito desfavoráveis, ainda assim, animados de uma fé a Deus e à ideia da legitimidade da sua luta pela liberdade daqueles que eram o seu reino e o seu novo rei, na distante tarde de 14 de Agosto de 1385, triunfaram sobre os injustos invasores, consagrando a independência nacional.
Para comemorar tão “maravilhosa vitória”, palavras de D. João I, ordenou, aquele que foi o décimo rei de Portugal, que se edificasse neste sítio uma “casa de oraçom”. Um templo que, desejava o Rei da Boa Memória, fosse o maior que até então se levantara em toda a Hispania. Depois de Ceuta, em 1415, a Batalha viu acrescidas as suas responsabilidades já não apenas como “casa de Deus” mas também como panteão da nova dinastia.
Deste modo, o majestoso Mosteiro de Santa Maria da Vitória tornava-se arca de uma memória permanente em torno da ideia de Portugal e daquelas gerações de homens ilustres que conduziram os destinos pátrios ao longo desse tão rico século XV em que as portas do mundo novo se abriram, no mapa que as descobertas marítimas portuguesas construíram, definitivamente para toda a Humanidade. Comemora o triunfo português, a entronização de uma nova dinastia real, a vitória da fidelidade a Roma num tempo em que a Igreja do Ocidente se cindia entre a Cidade Eterna e Avinhão.
Este é, sobre todos, o templo maior da memória pátria. Foi essa a razão da sua edificação e tem sido essa, nestes últimos mais de seis centos de anos, a lógica da sua preservação, da sua exaltação e valorização utópica, política e cultural, princípios, estes, reiterados em todas as épocas, por todos os governos, por todos os “Estados”, que se sucederam em Portugal.
Não queria, de modo algum, deixar aqui a visão de que a ideia de pátria que este monumento comemora é uma representação estática e imóvel. Bem sabemos que as pátrias se renovam na mudança das gerações a que são berço, enriquecem-se no encontro de culturas, na partilha multicultural dos povos. E este monumento testemunha muito bem esse encontro de culturas que, desde os tempos medievais e sobretudo nessa centúria de ouro dos Descobrimentos marítimos. Nele trabalharam homens de diferentes proveniências e nações. A sua linguagem estética demonstra a europeidade portuguesa nos finais da Idade Média e nos alvores de Quinhentos. A sua história mostra-nos a evolução dos tempos, das ideias, dos sentimentos e das expressões religiosas.
Mas reconhecermos que essa mudança permanente do tempo e dos homens é o motor da própria História, não anula o necessário assentimento de que, para lá de todas as transformações, mutações e mudanças, permanece, na História, em geral, como neste monumento, em particular, o vínculo durável do sentido de Portugal ou da pátria portuguesa.
Tão grande como este monumento é, numa escala humana, o legado histórico do Infante D. Henrique. Não poderá nenhum historiador reticenciar, por mais que a sua biografia seja escrita e reescrita, que, aquele que foi consagrado como Infante de Sagres, influiu de modo determinante nos destinos históricos de Portugal, como também nos de toda a Humanidade.
A sua determinação e a sua capacidade de acção e de realização de projectos e vontades, o seu desejo de descoberta, de procurar toda a certeza das realidades geográficas e humanas mal conhecidas no seu tempo, estão na base do que é o Portugal moderno e contemporâneo. D. Henrique, criado por um destino português afirmado nesta Batalha, seria fautor de um novo destino para Portugal.
Não podem, efectivamente, as discussões historiográficas, mais ou menos favoráveis ao papel do Infante na História, ou sequer as “utilizações políticas” que dele se fizeram, apagar as pegadas com que D. Henrique marcou os destinos de Portugal.
No início do século XVI, Duarte Pacheco Pereira escreveu, na sua obra Esmeraldo de situ orbis, avaliando o legado henriquino, as seguintes palavras:
“Tantos sam os beneficios que o virtuoso Infante Dom Anrique teem feytos nestes Reynos, que os Rex e povoos d’elles lhe sam em muita obriguaçam, porque na terra que elle descobrio, grande parte de jente de Portugual ganha de comer, e os Rex d’este comercio grandes proveytos ham.”2
Não poderia haver síntese mais adequada, neste momento, do que esta que acabámos de ler. O legado henriquino resumia-se a um destino português, pois que, pelos Descobrimentos, “grande parte da jente de Portugal ganha de comer”. E os Descobrimentos não só mataram a fome a muitos portugueses, mas também trouxeram riqueza aos reis de Portugal, tornando-os grandes e respeitados em todo o orbe e, por eles, Portugal no mundo.
2 - Em data indeterminada, mas próxima da morte do ilustre Infante D. Henrique, cuja memória aqui celebramos, um frade dominicano, de seu nome Fr. Afonso de Alfama, recolhido em cela do Convento de S. Domingos de Lisboa, anotou, no Livro de Aniversários, desse antigo claustro, a seguinte informação:
“Em a era de Nosso Senhor Jehsu Christo de iiijc lx anos xiij dias andados do mes de Novembro no Algarve morreo ho ilustrissimo Senhor Ifante Dom Henrrique filho do dicto senhor rey Dom Joham e da raynha Dona Philipa. E morreo em honrra de velhice de hydade de Lx e vij annos, na sua villa do Ifante, aas dez horras da noute. Boo morrer de christãao em tal modo que todos aqueles que presentes foram teem esperança e fe de seer em gloria e salvaçom.
E na era de iiijc lxj, vº dias andados do mes de Julho foy traladado ho seu corpo no seu muymento na capella delle … do dicto Mosteiro da Batalha e visto por nosso senhor el Rey Dom Afomso seu sobrinho … fazendo-lhe muito solempnes exequias etc.”3
Não se alonga mais o apontamento deste informado frade dominicano de Lisboa. Mas mau grado a brevidade da notícia, ainda que notícia primeira porque redigida em momento muito próximo dos factos que narra, há que sublinhar que nela ressalta já a visão elogiosa e comemorativa da sociedade portuguesa em torno do Infante de Sagres. “Ilustrissimo Senhor” lhe chama o quase desconhecido cronista pregador, sublinhando que o passamento do filho dos reis fundadores da nova dinastia acontecera nesse ainda distante reino do Algarve, para, de seguida, sublinhar que a boa morte do Infante se revestira de indícios de virtudes cristãs prenunciadoras de santidade: um bom morrer, de cristão, de tal modo que todos quanto lhe assistiram ao passamento tinham “esperança e fé de ele ser em glória e salvação”.
A sociedade portuguesa no entorno de 1460 mostrava-se reconhecida para com o Infante que morrera no Algarve. E não deixará de comemorar, com magnificência lusitana, a trasladação dos restos mortais do Infante para este Mosteiro da Batalha, onde foi definitivamente tumulado a 5 de Julho de 1461, no meio de exéquias solenes presididas pelo monarca reinante, D. Afonso V, sobrinho do Infante.
Anos mais tarde, o cronista Rui de Pina, enaltecendo este “infante Dom Anrryque” que, palavras suas, “foy em tudo princepe tam perfeito”, e acrescentado interpretação histórica à memória da morte do Infante, escreveu, sobre o momento da sua morte, o seguinte:
“Faleceo em Sagres ho jfante Dom Anrrique, com synaaes e comprimento de fiell christãao, em hidade de sesenta e sete annos, cujo corpo foy logo soterrado na igreja da villa de Laagos. E hy, no anno que vinha de mjl e quatrocentos e sesenta e huum, foram seus ossos levados ao moesteiro da Batalha per o jfante dom Fernando, que tinha adoptado por filho, que foy por elles e os trouxe, com grande honrra e mujta cerimonia, ao dicto moesteiro. Onde elrrey, acompanhado de toda a nobre gente de Portugal e mujtos prellados, saio a os rreceber, com sollempne procissam, e lhe fezeram honradas exequjas.”4
3 - A história da vida do Infante D. Henrique encontra-se muito interligada com a memória plural que se respira neste templo pátrio. Na verdade, o Infante de Lagos, admirado e elogiado pela Cristandade do seu tempo, foi uma das personalidades da Dinastia de Avis que mais se interessou por este Mosteiro. Se para seu pai, D. João I, a Batalha comemorava a vitória da Batalha Real de Aljubarrota, para D. Henrique este lugar assumiria, como passarei a expor, uma vocação ainda mais sensível no campo da memória de si e dos seus familiares.
O Infante D. Henrique foi, efectivamente, dentre a “Ínclita Geração, Altos Infantes”, como a caracterizou com feliz inspiração Luís de Camões5, depois dos reis de Portugal, um dos promotores que mais se interessou pela edificação deste Mosteiro e panteão dinástico.
Não há dúvida alguma acerca do facto de o Infante ter visitado por várias vezes, ao longo da sua vida, este Mosteiro. Esteve aqui nas exéquias solenes por sua mãe, D. Filipa de Lencastre, em 1416, como regressaria, ainda, para acompanhar a deposição junto do altar-mor do féretro de seu pai, em 1433 e, um Agosto de 1434, a trasladação de ambos os progenitores para a Capela do Fundador. Acompanharia pessoalmente, também, a deposição das primeiras relíquias de seu irmão, o Infante D. Fernando, trazidas de Marrocos, em 1458, no mausoléu fúnebre deste.
O interesse do Infante D. Henrique pelo Mosteiro da Batalha, enquanto lugar de memória dinástica e pátria, e, nisso, de distinção e honra para os que nele se tumulavam, é atestado, de forma extremamente singular, em carta régia de D. Duarte, promulgada a 24 de Agosto de 1436, em Óbidos, na qual o monarca Eloquente concedia, a seu irmão, autorização para que ele:
“Posa mandar lançar na capella do noso Moesteiro da Vitoria que esta junto com a samchristia aqueles seus criados que lhe a ell prover porque a nos praz que seja pera jazygoo delles.”6
Esta importante carta atesta a elevada importância simbólica que o Infante dava a este Mosteiro. Como a concedia, ainda, ao celebrado Convento de Tomar, no qual fez levantar novo claustro e desenvolveu obra artística de dignificação desse mesmo cenóbio, sede da Ordem que governava, no qual se tumulavam os religiosos cavaleiros que serviam debaixo do pendão com a celebrada cruz de Cristo.
Tenhamos presente, todavia, que, em 1436, D. Henrique se empenhava fortemente na preparação da armada militar com que pretendia conquistar Tânger. É possível que o privilégio de poder vir a sepultar aqueles que o servissem, nessa nova conquista marroquina que se avizinhava, em jazigos da Capela de Santa Bárbara, constituísse um factor psicológico para alguns desses seus criados e servidores, sendo, como era, um sinal de evidente prestígio e honra sociais.
Tenhamos presente, todavia, que o Mosteiro acolhia, por privilégio real, capelas funerárias de servidores da Casa Real. É assim que o vedor-mor da casa da rainha D. Filipa de Lencastre, D. Fr. Lopo de Sousa, mestre da Ordem de Cristo até 1418, recebeu a capela de S. Miguel ou dos Mártires, no absídiolo sul da cabeceira da igreja. Também nas capelas de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora da Piedade foram enterrados servidores da rainha D. Isabel, mulher de D. Afonso V, e de D. João II, respectivamente. O próprio Infante D. Pedro, duque de Coimbra, conseguiu que o vedor da sua casa, Diogo Gonçalves de Travassos, parente de Gonçalo Velho Cabral, um dos descobridores dos Açores, recebesse uma nobre sepultura no estremo poente desta igreja dominicana, bem ao lado da capela do Fundador.
Não era, como se sabe, inédito, o facto de os Infantes procurarem galardoar os seus mais fiéis ou directos servidores com a honra de poderem receber sepultura junto ou perto das dos seus senhores. A Casa de Avis, como bem reflectiu o Infante D. Pedro, no seu Tratado da Virtuosa Benfeitoria, premiava com benefícios relevantes o mérito dos seus súbditos e sujeitos, vivificando uma cadeia de lealdades e de repartição de responsabilidades, de sentido de comando e de disciplina, que, em boa parte, ajuda a explicar a capacidade de acção e de união que marcou os portugueses que embarcaram nas caravelas dos Descobrimentos.
A súbita morte de seu irmão, el-rei D. Duarte, na vila de Tomar, em 1438, não pode ter deixado de perturbar fortemente o Infante das Descobertas. Nota-se, desde então, uma preocupação mais acentuada, por parte dele, em relação ao espaço que viria a ser o seu túmulo e às celebrações religiosas que deveriam ser asseguradas pelos frades dominicanos por sua alma.
Certo é que, já no testamento de seu pai, lavrado em Sintra, a 2 de Outubro de 1426, ficava expressa a vontade do rei da Boa Memória de que, neste cenóbio e capela ou panteão que aqui fazia erguer, citamos: “pellos jazyguos das paredes da capela todas em quadra, asy como sam feytas, se possam lamçar filhos e netos de rreix e outros nom”7.
D. Henrique sempre gozou de uma especial proximidade com seu pai. Não estranha que, reflectindo no inevitável fim da sua vida, também, depois de morto, desejasse ficar junto dos seus progenitores. A primeira manifestação documentada desse desiderato chega-nos em carta de 1 de Junho de 1439, pela qual os regentes do Reino, a rainha viúva D. Leonor e o Infante D. Pedro, concedem ao Infante e Duque de Viseu e senhor da Covilhã, licença:
“Que elle possa aver huum altar e huum jazigoo pera sseu corpo na capeella delrrey meu avoo, cuja alma Deus ajam que ho no moesteyro da Vitoria, junto com ho outro do jfante dom Pedro, duque de Cojnbra e ssenhor de Montemoor, meu muyto amado e prezado tyo, a saber, ho altar junto com ho outro altar sseu he jazigoo per esta guissa.”8
Em 1444, o regente D. Pedro reconhecia a seu irmão o estabelecimento que este promovera de uma feira franca em Viseu, autorizando-o a apropriar, à capela que ele tinha no Mosteiro da Batalha, o rendimento dos alugueres das barracas aos feirantes9. A 8 de Março de 1449, nas vésperas da fatídica batalha de Alfarrobeira, onde viria a morrer o ex-regente do reino, D. Afonso V renovou esta concessão, nos mesmos e exactos termos, a seu tio10.
Lembremos, por fim, que, por carta régia de 14 de Junho de 1474, foi acrescentada ao sustento da capela do Infante D. Henrique, neste Mosteiro, a tença de quatro mil reais para um anal de missas, os quais seriam pagos na Casa da Guiné11.
4 - Junto de seu pai, como referimos, quis o Infante dos Descobrimentos marítimos portugueses receber sepultura, como declarou reiteradamente no seu segundo e último testamento, por ele subscrito a 28 de Outubro de 1460:
“Item mando que ho meu corpo seja lançado no muimento que estaa pera mym onde jaz elrrej meu ssenhor e padre, no mosteiro de Sancta Maria da Ujtoria. E, se morrer fora, que seja leuado chãamente e assy seja soterrado e ssem doo, que mando que por mym nom façam; mas, chãamente e honestamente, seja encomendado a Deus com oras e mjssas acustumadas e oferta e dalhas que o meu testamenteiro ouuer por bem, o que faram conpridamente paguar, desencarreguando mjnha conçiençia.”12
Neste Mosteiro, em que o Navegador “a Deus prazendo, entendia de jazer”13 foi, pois, solenemente sepultado.
Acautelara previamente o Infante que queria que aqui se cantassem para sempre “tres capellas”, cuja liturgia determinara minuciosamente em cartas que deixava à guarda do seu testamenteiro. Para custear estas capelanias de missas e ofícios por sua alma, o Infante contratara-se, havia anos, com os padres conventuais deste Mosteiro, determinando que as celebrações em causa seriam pagas, anualmente, no montante de 16 marcos de prata, pagos, generosamente, reconheçamos, em prata pelos rendimentos das suas terras de Tarouca e de Valdigem14.
Nos três anos seguintes à sua morte, todos os encargos e dívidas que deixava, bem assim as despesas com as celebrações por “descarreguamento de minha conciençia” e com sua sepultura, deveriam ser pagos dos seus bens, a saber, o assentamento que lhe estava consignado na fazenda régia, as saboarias do Reino, as Ilhas da Madeira e Porto Santo e a Deserta, a Guiné com suas ilhas e toda a sua renda, e o quinto das enxavegas e das pescas de atuns e corvinas e Lagos e Alvor15.
É bem possível que uma parte dos códices litúrgicos da capela palatina do Infante tenham vindo enriquecer, depois da sua morte, o espólio da sua capela funerária. A 17 de Novembro de 1461, regista-se a entrega, por um executor testamentário de D. Henrique, a Fr. João Martins, provedor das obras do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, de “huma estante de ferro pera a capeella” do Infante16.
5 – Em Santa Maria da Vitória se cultuou, desde então, a memória deste Infante.
Uma memória diferenciada da dos irmãos. Basta verificar que o seu túmulo tem uma estátua jazente em que o Infante é apresentado na solenidade dos trajes principescos e de fundador da casa ducal de Viseu. As fontes históricas coevas do Infante sugerem que lhe foi devotada a aura de santidade.
Narra Diogo Gomes de Sintra, seu criado e panegirista, como Zurara, que, por mandado do rei D. Afonso V, em Julho de 1461, se dirigiu a Lagos, citamos, “junto do corpo do Infante a dar o que era necessário aos sacerdotes que se entregavam a continuas vigílias no ofício divino.”
Refere Diogo Gomes que o monarca lhe mandara:
“Que visse com cuidado se o corpo do Infante estava decomposto, porque queria trasladar os seus ossos para o mosteiro que se chama Santa Maria da Batalha, obra muito bela que o rei Dom João, seu pai, edificara com os Frades da Ordem dos Pregadores.
Eu, pela minha parte, chegando junto ao cadáver, descobri-o e encontrei-o seco e íntegro, com excepção da ponta do nariz. Achei-o revestido de um cilício áspero de cerdas de cavalo. Bem canta a Igreja: “Não consentirás que o teu santo veja a corrupção”.
Este senhor Infante permaneceu virgem até à morte e em sua vida praticou muitas boas obras que seria muito longo enumerar.
Então o rei mandou que o seu irmão, o Infante Dom Fernando, Duque de Beja, com os bispos e os condes fossem buscar o corpo até ao mosteiro da Batalha, acabado de referir, onde o rei o esperava. Foi deposto o corpo do Infante numa grande e belíssima capela que fez o pai dele, o rei Dom João; aí jaz esse mesmo rei e a sua esposa Dona Filipa, mão do Infante, e os seus cinco irmãos, todos eles de memória digna de louvor para sempre. Descansem na paz dos santos; amen.”17
Um corpo incorrupto que ainda hoje podemos entrever admirando a sua estátua jacente, deposta sobre a pedra do seu túmulo, manifesto definitivo da sua imagem de homem que o seu principal biógrafo e panegirista, Gomes Eanes de Zurara, referiu ter tido:
“A estatura do corpo em boa grandeza e foe homem de carnadura grossa e de largos e fortes membros. A cabelladura avya algum tanto alevantada. A coor de natureza branca, mais polla continuaçom do trabalho, por tempo, tornou doutra forma. Sua presença, do primeyro esguardo, aos nom husados era temeroso, arrebatado em sanha, empero poucas vezes, com a qual avya muy esquivo sembrante.”
O Infante revelava muito bem a sua identidade genética na sua fisionomia, tão discutida nos últimos anos, não escondendo o sangue inglês, que herdara por linha materna, aparentando claras parecenças com seu pai D. João I. É esse rosto que se gravou na estátua do seu túmulo e que, neste momento, pelo cinzel de novas gerações de canteiros batalhenses se volta a reproduzir em busto público, para mais larga admiração de todos, em praça contígua a este monumento.
Neste Mosteiro, pois, em que se ilumina o sentimento da alma pátria, repousam os restos mortais daquele cuja memória hoje, uma vez mais e num gesto repetido pelos séculos, celebramos. O Infante que impulsionou e sonhou os Descobrimentos, aquele que, na velha Europa, usando palavras do cronista Rui de Pina, “mandou primeiramente navegar e descobrir pello mar oceano.” Dessa verdadeira gesta e manifesto civilizacional recebeu Portugal, recorrendo a palavras do mencionado memorialista dos príncipes de Avis, “muyto bem e proveito”.
6 - Não cumpre, aqui e agora, estabelecer uma outra biografia deste príncipe e grande de Portugal. O momento é de celebração e traduz a importância que, entre nós portugueses dos alvores de uma nova centúria e de um novo milénio, se reconhece ao legado histórico de uma vida e de uma obra de todo invulgares nos destinos de Portugal e da Humanidade. O historiador deve também ser cidadão e partilhar com os seus contemporâneos o preito de homenagem e de memória que agora se tributa.
Se procurarmos uma lição de síntese, no que nos chegou de mais ideal na memória do Infante de Sagres, encontrá-la-emos na sua divisa heráldica. Por empresa, o Infante escolheu a azinheira carregada de glandes, símbolo da força e da sabedoria, símbolo de uma firmeza e de uma tenacidade bem portuguesas. Por moto, D. Henrique elegeu a expressão “Talent de bien faire.” Uma divisa feliz para um príncipe sem coroa desta grandeza.
O Infante teve, de facto, a capacidade e a inclinação para a realização do bem, de um bem-fazer que se traduzia e associava, naquele seu tempo tão distante de nós, na ideia de “bem comum”, de comunidade. “Bien faire” significava, sobremodo, fazer o “bem comum”. Este foi um ideal político muito presente nas primeiras gerações da Dinastia de Avis, esse “talant de bien faire”, de lealdade a um Portugal renovado, de serviço à causa pública.
Mau grado todas as leituras e todos os debates que se teçam em torno desta egrégia figura da história de Portugal e do Mundo, mais críticos ou mais elogiosos, não poderemos nunca deixar de lhe atribuir a importância ímpar que ele assumiu, no contexto e nas circunstâncias do seu tempo e do seu espaço civilizacional, nos destinos históricos daquele Portugal das Descobertas que “matavam a fome a muita gente”.
Por mais que se reescreva a sua biografia, e hoje, tenhamos noção disso, este acto de comemoração reitera, também ele e de vários modos, a continuidade de uma reescrita cívica dessa vida de um “filho ditoso” de Portugal, encontraremos sempre na margem cimeira, de qualquer texto que se lhe dedique, o reconhecimento do seu legado maior. O reconhecimento de um grande homem de Estado, do construtor de uma obra que se inscreve nos trilhos de todos aqueles homens da História Universal dotados desse insondável dom e incrível mistério do “talento de bem-fazer”.
Desse escol de grandes homens faz parte o Infante D. Henrique. Na sua vida abriram-se os seus destinos de um Portugal moderno. Um Portugal congregado em torno de um projecto de renovação, de grandeza, de expansão dos horizontes “por mares nunca de antes navegados”, assim se construindo a maravilhosa epopeia pátria na sua interminável viagem pelo tempo. Desse mesmo tempo que se suspende quando entramos, pequenos, neste magnífico templo gótico em que se contemplam os mistérios do mundo português de Quatrocentos.
TÁBUA BIBLIOGRÁFICA
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PINA, Rui de – Crónicas de… Introdução e revisão de M. Lopes de Almeida. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1977.
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Notas
2 Livro I, Capº 33.
3 Citado por S. A. Gomes – O Mosteiro de Santa Maria da Vitória no Século XV. Coimbra: Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1990, p. 355, nota 4.
4 Rui de Pina, Crónica de el-Rei D. Afonso V, Capº 144; MH, Vol. XIV, Doc. 19, p. 84.
5 Os Lusíadas, IV, 50.
6 Fontes Documentais e Artísticas... I, Doc. 78, p. 197.
7 MH, Vol. III, Doc. 70.
8 MH, VI, Doc. 133.
9 MH, Vol. VIII, Doc. 84.
10 MH, Vol. X, Doc. 15.
11 S. A. Gomes – O Mosteiro de Santa Maria da Vitória…, p. 355.
12 MH, Vol. XIV, Doc. 11, p. 27.
13 MH, XIV, Doc. 11, p. 27.
14 MH, Vol. XIV, Docs. 7, 9, 11 e 19.
15 MH, Vol. XIV, Doc. 11, pp. 27-29.
16 MH, Vol. XIV, Doc. 127, p. 299
17 Diogo Gomes de Sintra, Descobrimento primeiro da Guiné. Edição crítica de Aires A. Nascimento. Introdução de Henrique Pinto Rema. Lisboa: Colibri, 2002, pp. 67-69.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
17.ª Semana Cultural da Golpilheira com um programa de luxo e convidados a condizer
Vai decorrer nos próximos dias 6 a 14 de Novembro a 17.ª edição da Semana Cultural da Golpilheira, organizada pelo Centro Recreativo (CRG).
O evento parecia estar em risco por falta de participação de agentes organizadores – como sabemos, estas coisas dão muito trabalho e são "sempre os mesmos" a fazê-lo, pelo que a direcção não se sentia com capacidade anímica para avançar sozinha com um programa. Mas eis que surgiram algumas conversas, alguns contactos, algumas ideias à mesa do bar... e juntou-se rapidamente uma dezena de pessoas com vontade de não deixar morrer a iniciativa.
A prova de que a união faz a força e, às vezes, uma situação de crise acaba por gerar uma onda de vitalidade é que o programa deste ano surge como um dos mais recheados, amplos e ambiciosos dos últimos anos. Foram criadas várias equipas, responsáveis por cada um dos dias do certame, esperando-se que, com a colaboração de todos a aposta seja bem sucedida.
Claro que para o sucesso falta o principal: a participação numerosa da população. Mas, com as propostas que são apresentadas em cartaz, esperamos que essa resposta seja também muito positiva.
E as propostas são:
Dia 6, sábado
Festa dos Anos 80
Para abrir em grande, uma festa para a qual todos são convidados, desde os mais jovens, que continuam a apreciar os sucessos musicais dos "loucos" anos 80, até aos casais "maduros" e aos mais velhos, que terão uma oportunidade de reviver o ambiente das pistas de dança noutros tempos.
Dia 7, domingo
Almoço M60, com Artur Agostinho
O tradicional almoço oferecido aos reformados e maiores de 60 anos, naturais ou residentes na freguesia, terá este ano animação reforçada.
Em primeiro lugar, vai estar presente o rancho folclórico "As Lavadeiras do Vale do Lena", e não apenas a sua tocata. Segundo Manuel Rito, director desta secção do CRG, a decisão prende-se com o facto de "muitas pessoas de mais idade terem feito esse pedido, já que algumas delas, por motivos de saúde ou outros, não têm muitas oportunidades para ver as actuações do nosso rancho".
Em segundo lugar, vamos ter um convidado muito especial: Artur Agostinho. À beira dos seus 90 anos de vida, vem mostrar como é possível continuar activo e dinâmico. Famoso apresentador da rádio e da televisão, comentador desportivo, actor, jornalista, etc., tem nos últimos tempos apostado mais na sua faceta de escritor, com vários livros editados e um romance de sucesso para nos apresentar. Uma conversa depois do almoço, que vai ser com certeza muito interessante, aberta a todas as pessoas que queiram participar.
Dia 8, segunda-feira
Pela sua Saúde
Num dia especialmente dedicado à saúde, vai estar uma equipa médica a fazer rastreios gratuitos à população, a partir das 17h00, quanto aos níveis de glicemia, colesterol, diabetes e outros. À noite, pelas 21h00, o colóquio versará sobre "Hábitos de vida saudável" e "Diabetes", com a participação de dois médicos e duas enfermeiras, dos corpos clínicos do Hospital de Santo André, de Leiria, e do Centro Hospitalar Nossa Senhora da Conceição, da Misericórdia da Batalha.
Dia 9, terça-feira
Fórum Golpilheira
A partir das 21h00, a noite será dedicada ao debate sobre o futuro da Freguesia. Precisamente um ano depois do debate "Golpilheira 25 anos", organizado pelo Jornal da Golpilheira a propósito das eleições autárquicas, é tempo de fazer algum balanço e voltar a pensar sobre o futuro. A Junta de Freguesia irá apresentar alguns dos projectos em curso.
Dia 10, quarta-feira
Música & Livros com António Manuel Ribeiro (vocalista dos UHF)
Mais um grande convidado nesta semana cultural: António Manuel Ribeiro, vocalista do famoso grupo UHF, tem-se destacado também como autor de alguns livros de sucesso. Nesta tertúlia musical vem falar-nos da sua produção literária e discográfica, sobretudo do último álbum, "Porquê?". E é claro que já nos prometeu tocar e cantar algumas das suas músicas ao vivo! Vamos ter ainda a oportunidade de falar com alguns autores da nossa região, como Joaquim Santos e Adélio Amaro, e com a golpilgeirense Maria da Purificação Bagagem, que recentemente publicou uma excelente obra sobre "A Família e a Saúde Mental".
Dia 11, quinta-feira
Arraial Popular de S. Martinho
A festa está de volta no dia de S. Martinho, em que o convite é para sair à rua, para comer castanhas e provar o vinho. O arraial será no Poço do Povo, no Carvalhal, onde já é tradicional celebrar esta data. A população local irá organizar o evento e convida toda a gente para os petiscos, a castanhada e a boa água-pé, com a animação pelo nosso rancho folclórico "As Lavadeiras do Vale do Lena".
Dia 12, sexta-feira
Golpilheira Fashion’10
O desfile de moda é um dos eventos com mais tradição de sucesso nas nossas semanas culturais. Este ano mais uma vez, teremos oportunidade de conhecer as propostas das criações Fátima Cruz e das marcas Street Fashion e Mix...In. Desde as roupas mais práticas para o dia-a-dia até às ideias mais sofisticadas para momentos especiais, não faltarão argumentos para uma noite de beleza e glamour na nossa colectividade.
Dia 13, sábado
TT Nocturno
Um passeio de veículos de todo-o-terreno é o convite para a última noite desta semana. Concentração marcada à mesa do jantar no Restaurante Etnográfico, às 19h00, seguindo-se o passeio pela região e nova concentração ao final da noite na zona da Canoeira, onde decorrerá a habitual exibição de habilidade dos pilotos e capacidade das viaturas no "trial".
"Cinema Infantil"
Na mesma noite, surge uma oferta para os mais pequenos, com a projecção de um filme de animação no salão da colectividade. Haverá, como costume, algumas surpresas...
Dia 14, domingo
"Dia de Convívio"
O mote do convívio entre a população marcará o dia de encerramento da 17.ª Semana Cultural da Golpilheira. A manhã começa cedo, com a missa pelas intenções dos sócios do CRG às 09h30, seguindo-se a concentração para um passeio pedestre pelas paisagens locais, a terminar na sede da associação com um almoço volante de "Sopa de Pedra e Frango Assado". Mesmo os que não participarem no passeio, estão convidados para vir almoçar ao Centro, bem como para participar na tarde recreativa que se seguirá, com torneio de sueca e muitos jogos tradicionais (pião, andolas, salto à corda, rodeiros, etc.), para fechar de forma bem animada este certame.
Todos convidados!
Como se vê, são muitas e variadas as propostas para uma semana rica de cultura, diversão e convívio na nossa comunidade. Escusado será dizer que todas as pessoas de fora da freguesia que queiram marcar presença serão muito bem vindas. Como dizíamos no início do texto, o sucesso depende de si: Venha participar!
Luís Miguel Ferraz
O evento parecia estar em risco por falta de participação de agentes organizadores – como sabemos, estas coisas dão muito trabalho e são "sempre os mesmos" a fazê-lo, pelo que a direcção não se sentia com capacidade anímica para avançar sozinha com um programa. Mas eis que surgiram algumas conversas, alguns contactos, algumas ideias à mesa do bar... e juntou-se rapidamente uma dezena de pessoas com vontade de não deixar morrer a iniciativa.
A prova de que a união faz a força e, às vezes, uma situação de crise acaba por gerar uma onda de vitalidade é que o programa deste ano surge como um dos mais recheados, amplos e ambiciosos dos últimos anos. Foram criadas várias equipas, responsáveis por cada um dos dias do certame, esperando-se que, com a colaboração de todos a aposta seja bem sucedida.
Claro que para o sucesso falta o principal: a participação numerosa da população. Mas, com as propostas que são apresentadas em cartaz, esperamos que essa resposta seja também muito positiva.
E as propostas são:
Dia 6, sábado
Festa dos Anos 80
Para abrir em grande, uma festa para a qual todos são convidados, desde os mais jovens, que continuam a apreciar os sucessos musicais dos "loucos" anos 80, até aos casais "maduros" e aos mais velhos, que terão uma oportunidade de reviver o ambiente das pistas de dança noutros tempos.
Dia 7, domingo
Almoço M60, com Artur Agostinho
O tradicional almoço oferecido aos reformados e maiores de 60 anos, naturais ou residentes na freguesia, terá este ano animação reforçada.
Em primeiro lugar, vai estar presente o rancho folclórico "As Lavadeiras do Vale do Lena", e não apenas a sua tocata. Segundo Manuel Rito, director desta secção do CRG, a decisão prende-se com o facto de "muitas pessoas de mais idade terem feito esse pedido, já que algumas delas, por motivos de saúde ou outros, não têm muitas oportunidades para ver as actuações do nosso rancho".
Em segundo lugar, vamos ter um convidado muito especial: Artur Agostinho. À beira dos seus 90 anos de vida, vem mostrar como é possível continuar activo e dinâmico. Famoso apresentador da rádio e da televisão, comentador desportivo, actor, jornalista, etc., tem nos últimos tempos apostado mais na sua faceta de escritor, com vários livros editados e um romance de sucesso para nos apresentar. Uma conversa depois do almoço, que vai ser com certeza muito interessante, aberta a todas as pessoas que queiram participar.
Dia 8, segunda-feira
Pela sua Saúde
Num dia especialmente dedicado à saúde, vai estar uma equipa médica a fazer rastreios gratuitos à população, a partir das 17h00, quanto aos níveis de glicemia, colesterol, diabetes e outros. À noite, pelas 21h00, o colóquio versará sobre "Hábitos de vida saudável" e "Diabetes", com a participação de dois médicos e duas enfermeiras, dos corpos clínicos do Hospital de Santo André, de Leiria, e do Centro Hospitalar Nossa Senhora da Conceição, da Misericórdia da Batalha.
Dia 9, terça-feira
Fórum Golpilheira
A partir das 21h00, a noite será dedicada ao debate sobre o futuro da Freguesia. Precisamente um ano depois do debate "Golpilheira 25 anos", organizado pelo Jornal da Golpilheira a propósito das eleições autárquicas, é tempo de fazer algum balanço e voltar a pensar sobre o futuro. A Junta de Freguesia irá apresentar alguns dos projectos em curso.
Dia 10, quarta-feira
Música & Livros com António Manuel Ribeiro (vocalista dos UHF)
Mais um grande convidado nesta semana cultural: António Manuel Ribeiro, vocalista do famoso grupo UHF, tem-se destacado também como autor de alguns livros de sucesso. Nesta tertúlia musical vem falar-nos da sua produção literária e discográfica, sobretudo do último álbum, "Porquê?". E é claro que já nos prometeu tocar e cantar algumas das suas músicas ao vivo! Vamos ter ainda a oportunidade de falar com alguns autores da nossa região, como Joaquim Santos e Adélio Amaro, e com a golpilgeirense Maria da Purificação Bagagem, que recentemente publicou uma excelente obra sobre "A Família e a Saúde Mental".
Dia 11, quinta-feira
Arraial Popular de S. Martinho
A festa está de volta no dia de S. Martinho, em que o convite é para sair à rua, para comer castanhas e provar o vinho. O arraial será no Poço do Povo, no Carvalhal, onde já é tradicional celebrar esta data. A população local irá organizar o evento e convida toda a gente para os petiscos, a castanhada e a boa água-pé, com a animação pelo nosso rancho folclórico "As Lavadeiras do Vale do Lena".
Dia 12, sexta-feira
Golpilheira Fashion’10
O desfile de moda é um dos eventos com mais tradição de sucesso nas nossas semanas culturais. Este ano mais uma vez, teremos oportunidade de conhecer as propostas das criações Fátima Cruz e das marcas Street Fashion e Mix...In. Desde as roupas mais práticas para o dia-a-dia até às ideias mais sofisticadas para momentos especiais, não faltarão argumentos para uma noite de beleza e glamour na nossa colectividade.
Dia 13, sábado
TT Nocturno
Um passeio de veículos de todo-o-terreno é o convite para a última noite desta semana. Concentração marcada à mesa do jantar no Restaurante Etnográfico, às 19h00, seguindo-se o passeio pela região e nova concentração ao final da noite na zona da Canoeira, onde decorrerá a habitual exibição de habilidade dos pilotos e capacidade das viaturas no "trial".
"Cinema Infantil"
Na mesma noite, surge uma oferta para os mais pequenos, com a projecção de um filme de animação no salão da colectividade. Haverá, como costume, algumas surpresas...
Dia 14, domingo
"Dia de Convívio"
O mote do convívio entre a população marcará o dia de encerramento da 17.ª Semana Cultural da Golpilheira. A manhã começa cedo, com a missa pelas intenções dos sócios do CRG às 09h30, seguindo-se a concentração para um passeio pedestre pelas paisagens locais, a terminar na sede da associação com um almoço volante de "Sopa de Pedra e Frango Assado". Mesmo os que não participarem no passeio, estão convidados para vir almoçar ao Centro, bem como para participar na tarde recreativa que se seguirá, com torneio de sueca e muitos jogos tradicionais (pião, andolas, salto à corda, rodeiros, etc.), para fechar de forma bem animada este certame.
Todos convidados!
Como se vê, são muitas e variadas as propostas para uma semana rica de cultura, diversão e convívio na nossa comunidade. Escusado será dizer que todas as pessoas de fora da freguesia que queiram marcar presença serão muito bem vindas. Como dizíamos no início do texto, o sucesso depende de si: Venha participar!
Luís Miguel Ferraz
“Pela Preservação e Valorização do Mosteiro”
Assembleia Municipal da Batalha aprova moção por unanimidade
Foi aprovada por unanimidade, na última Assembleia Municipal da Batalha, a moção “Pela Preservação e Valorização do Mosteiro da Batalha”, apresentada pela bancada do PSD.
O documento começa por referir a importância deste monumento como "o mais significativo edifício do gótico português e um dos mais belos conjuntos monacais da Europa", classificado como Monumento Nacional em 1907 e inscrito pela UNESCO na Lista de Património Mundial em 1983. Depois, lembra os muitos alertas já emitidos sobre o impacto negativo dos gases e da trepidação dos milhares de veículos que passam diariamente na sua proximidade, e considera que a prevista existência de portagens na futura variante ao IC 2 "compromete largamente o objectivo de redução do tráfego rodoviário no actual corredor".
Nesse sentido, a moção recomenda que sejam consideradas como prioritárias "as acções de valorização, salvaguarda e preservação do monumento" nas candidaturas aprovadas no âmbito do QREN, pede que "o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) finalize, com carácter de urgência, os estudos necessários de avaliação dos impactos gerados pelos gases poluentes libertados e a trepidação causada pelos milhares de veículos que diariamente passam junto ao monumento" e que "a empresa Estradas de Portugal (EP) concretize em definitivo soluções alternativas ao tráfego rodoviário no actual corredor do IC 2". Finalmente, os deputados municipais concordaram por unanimidade que "no imediato sejam tomadas medidas preventivas, em articulação com o Município da Batalha, procurando soluções de protecção ao monumento, eventualmente mais económicas, mas que minimizem os impactos estruturais e valorizem a área envolvente do Mosteiro que hoje apresenta sinais de uma preocupante degradação".
Foi ainda deliberado dar conhecimento do documento ao Presidente da República, ao primeiro-ministro e aos ministros da Cultura e das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, aos grupos parlamentares, ao Governador Civil de Leiria, aos presidentes das autarquias de Alcobaça e Tomar e a entidades públicas como o IGESPAR, a EP, a UNESCO, e o CEPAE, para além da comunicação social.
Para que os leitores possam conhecer em pormenor o texto, publicamos abaixo o documento.
Texto integral da Moção
"PELA PRESERVAÇÃO E VALORIZAÇÃO DO MOSTEIRO DA BATALHA"
Considerando que:
- O Mosteiro de Santa Maria da Vitória, erguido por voto de D. João I, como agradecimento pela vitória dos Portugueses em Aljubarrota no ano de 1385, é o mais significativo edifício do gótico português, onde também nasceu o estilo manuelino, e um dos mais belos conjuntos monacais da Europa do fim da Idade Média.
- Pelo seu significado histórico e importância artística, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória foi classificado como Monumento Nacional em 1907 e, em 1983, inscrito pela UNESCO na Lista de Património Mundial.
- Mais recentemente, no âmbito de um concurso nacional para a escolha das Sete Maravilhas de Portugal, numa iniciativa apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e que visou eleger os sete monumentos mais relevantes do património português, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória foi um dos sete monumentos eleitos, numa escolha foi baseada em 793 monumentos nacionais classificados pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico.
- Vários especialistas têm alertado para impacto dos gases e da trepidação dos milhares de veículos que passam diariamente junto do monumento, factor de degradação já identificado em estudo técnico, elaborado na década de 80 e que já alertava para o "cancro" da pedra exterior do mosteiro, sem que tenha originado qualquer intervenção de fundo.
- A construção da designada variante ao Itinerário Complementar (IC) 2, vulgo Variante da Batalha, sempre foi justificada como um projecto que iria minimizar os impactos negativos no monumento, por via da forte redução do tráfego rodoviário no actual corredor do IC 2, situado a escassos metros do Mosteiro da Batalha.
- A opção de concessão e exploração a privados da referida Variante, com a introdução de portagens pagas pelo utilizador, compromete largamente o objectivo de redução do tráfego rodoviário no actual corredor do IC 2, designadamente dos veículos pesados de mercadorias geradores de maior impacto no monumento.
A Assembleia Municipal da Batalha, reunida em sessão ordinária aos 30 dias do mês de Setembro de 2010, delibera recomendar:
- Que as candidaturas aprovadas no âmbito do QREN, ao Programa Operacional Regional do Centro, Eixo 2, na área de intervenção designada por "Política das Cidades – redes urbanas para a competitividade e inovação", e Eixo 3, com o projecto "Rota dos Mosteiros Portugueses Património da Humanidade da Região Centro", abrangendo os 3 grandes conjuntos monásticos – Mosteiro de Alcobaça, Convento de Cristo e Mosteiro da Batalha – considerem prioritariamente acções de valorização, salvaguarda e preservação do monumento.
- Que o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) finalize, com carácter de urgência, os estudos necessários de avaliação dos impactos gerados pelos gases poluentes libertados e a trepidação causada pelos milhares de veículos que diariamente passam junto ao monumento, classificado Património Mundial pela UNESCO, e motivo de inúmeras recomendações de especialistas que realçam as fragilidades do Mosteiro.
- Que a empresa Estradas de Portugal (EP) concretize em definitivo soluções alternativas ao tráfego rodoviário no actual corredor do IC 2, na linha do preconizado ainda recentemente pelo senhor Presidente IGESPAR e pelo senhor Presidente da Câmara, que evidenciaram a urgência em desviar o maior fluxo de trânsito da frente do monumento.
- Que no imediato sejam tomadas medidas preventivas, em articulação com o Município da Batalha, procurando soluções de protecção ao monumento, eventualmente mais económicas, mas que minimizem os impactos estruturais e valorizem a área envolvente do Mosteiro que hoje apresenta sinais de uma preocupante degradação.
30 de Setembro de 2010
Assembleia Municipal da Batalha
Foi aprovada por unanimidade, na última Assembleia Municipal da Batalha, a moção “Pela Preservação e Valorização do Mosteiro da Batalha”, apresentada pela bancada do PSD.
O documento começa por referir a importância deste monumento como "o mais significativo edifício do gótico português e um dos mais belos conjuntos monacais da Europa", classificado como Monumento Nacional em 1907 e inscrito pela UNESCO na Lista de Património Mundial em 1983. Depois, lembra os muitos alertas já emitidos sobre o impacto negativo dos gases e da trepidação dos milhares de veículos que passam diariamente na sua proximidade, e considera que a prevista existência de portagens na futura variante ao IC 2 "compromete largamente o objectivo de redução do tráfego rodoviário no actual corredor".
Nesse sentido, a moção recomenda que sejam consideradas como prioritárias "as acções de valorização, salvaguarda e preservação do monumento" nas candidaturas aprovadas no âmbito do QREN, pede que "o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) finalize, com carácter de urgência, os estudos necessários de avaliação dos impactos gerados pelos gases poluentes libertados e a trepidação causada pelos milhares de veículos que diariamente passam junto ao monumento" e que "a empresa Estradas de Portugal (EP) concretize em definitivo soluções alternativas ao tráfego rodoviário no actual corredor do IC 2". Finalmente, os deputados municipais concordaram por unanimidade que "no imediato sejam tomadas medidas preventivas, em articulação com o Município da Batalha, procurando soluções de protecção ao monumento, eventualmente mais económicas, mas que minimizem os impactos estruturais e valorizem a área envolvente do Mosteiro que hoje apresenta sinais de uma preocupante degradação".
Foi ainda deliberado dar conhecimento do documento ao Presidente da República, ao primeiro-ministro e aos ministros da Cultura e das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, aos grupos parlamentares, ao Governador Civil de Leiria, aos presidentes das autarquias de Alcobaça e Tomar e a entidades públicas como o IGESPAR, a EP, a UNESCO, e o CEPAE, para além da comunicação social.
Para que os leitores possam conhecer em pormenor o texto, publicamos abaixo o documento.
Texto integral da Moção
"PELA PRESERVAÇÃO E VALORIZAÇÃO DO MOSTEIRO DA BATALHA"
Considerando que:
- O Mosteiro de Santa Maria da Vitória, erguido por voto de D. João I, como agradecimento pela vitória dos Portugueses em Aljubarrota no ano de 1385, é o mais significativo edifício do gótico português, onde também nasceu o estilo manuelino, e um dos mais belos conjuntos monacais da Europa do fim da Idade Média.
- Pelo seu significado histórico e importância artística, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória foi classificado como Monumento Nacional em 1907 e, em 1983, inscrito pela UNESCO na Lista de Património Mundial.
- Mais recentemente, no âmbito de um concurso nacional para a escolha das Sete Maravilhas de Portugal, numa iniciativa apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e que visou eleger os sete monumentos mais relevantes do património português, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória foi um dos sete monumentos eleitos, numa escolha foi baseada em 793 monumentos nacionais classificados pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico.
- Vários especialistas têm alertado para impacto dos gases e da trepidação dos milhares de veículos que passam diariamente junto do monumento, factor de degradação já identificado em estudo técnico, elaborado na década de 80 e que já alertava para o "cancro" da pedra exterior do mosteiro, sem que tenha originado qualquer intervenção de fundo.
- A construção da designada variante ao Itinerário Complementar (IC) 2, vulgo Variante da Batalha, sempre foi justificada como um projecto que iria minimizar os impactos negativos no monumento, por via da forte redução do tráfego rodoviário no actual corredor do IC 2, situado a escassos metros do Mosteiro da Batalha.
- A opção de concessão e exploração a privados da referida Variante, com a introdução de portagens pagas pelo utilizador, compromete largamente o objectivo de redução do tráfego rodoviário no actual corredor do IC 2, designadamente dos veículos pesados de mercadorias geradores de maior impacto no monumento.
A Assembleia Municipal da Batalha, reunida em sessão ordinária aos 30 dias do mês de Setembro de 2010, delibera recomendar:
- Que as candidaturas aprovadas no âmbito do QREN, ao Programa Operacional Regional do Centro, Eixo 2, na área de intervenção designada por "Política das Cidades – redes urbanas para a competitividade e inovação", e Eixo 3, com o projecto "Rota dos Mosteiros Portugueses Património da Humanidade da Região Centro", abrangendo os 3 grandes conjuntos monásticos – Mosteiro de Alcobaça, Convento de Cristo e Mosteiro da Batalha – considerem prioritariamente acções de valorização, salvaguarda e preservação do monumento.
- Que o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) finalize, com carácter de urgência, os estudos necessários de avaliação dos impactos gerados pelos gases poluentes libertados e a trepidação causada pelos milhares de veículos que diariamente passam junto ao monumento, classificado Património Mundial pela UNESCO, e motivo de inúmeras recomendações de especialistas que realçam as fragilidades do Mosteiro.
- Que a empresa Estradas de Portugal (EP) concretize em definitivo soluções alternativas ao tráfego rodoviário no actual corredor do IC 2, na linha do preconizado ainda recentemente pelo senhor Presidente IGESPAR e pelo senhor Presidente da Câmara, que evidenciaram a urgência em desviar o maior fluxo de trânsito da frente do monumento.
- Que no imediato sejam tomadas medidas preventivas, em articulação com o Município da Batalha, procurando soluções de protecção ao monumento, eventualmente mais económicas, mas que minimizem os impactos estruturais e valorizem a área envolvente do Mosteiro que hoje apresenta sinais de uma preocupante degradação.
30 de Setembro de 2010
Assembleia Municipal da Batalha
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Comemorações Henriquinas na Batalha
Pelos 550 anos sobre a morte do Infante D. Henrique
Para celebrar os 550 anos da morte do Infante D. Henrique, as Câmaras Municipais de Alzejur, Batalha, Lagos e Vila do Bispo uniram-se na organização conjunta das "Comemorações Henriquinas".
Nesse âmbito, o Município da Batalha realiza a 14 de Novembro, as seguintes actividades:
10h00 – Missa de sufrágio em memória do Infante D. Henrique, na igreja do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José da Cruz Policarpo.
11h30 – Apresentação de cumprimentos às entidades oficiais, seguindo-se a deposição de uma coroa de flores junto ao túmulo do Infante.
12h00 – Sessão solene no auditório do Mosteiro da Batalha, com alocução histórica do professor doutor Saul António Gomes, sobre o tema "O Infante, a Batalha e os destinos de Portugal".
13h15 – Descerramento da estátua do Infante D. Henrique, no “seu” largo, junto ao Mosteiro.
Para celebrar os 550 anos da morte do Infante D. Henrique, as Câmaras Municipais de Alzejur, Batalha, Lagos e Vila do Bispo uniram-se na organização conjunta das "Comemorações Henriquinas".
Nesse âmbito, o Município da Batalha realiza a 14 de Novembro, as seguintes actividades:
10h00 – Missa de sufrágio em memória do Infante D. Henrique, na igreja do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José da Cruz Policarpo.
11h30 – Apresentação de cumprimentos às entidades oficiais, seguindo-se a deposição de uma coroa de flores junto ao túmulo do Infante.
12h00 – Sessão solene no auditório do Mosteiro da Batalha, com alocução histórica do professor doutor Saul António Gomes, sobre o tema "O Infante, a Batalha e os destinos de Portugal".
13h15 – Descerramento da estátua do Infante D. Henrique, no “seu” largo, junto ao Mosteiro.
William Beckford “voltou” à Batalha: “É maravilhoso! Magnífico!”
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| William Beckford no Mosteiro da Batalha |
A mesma reacção foi sendo repetida a cada passo, ao contemplar os vitrais da igreja, os túmulos da capela do fundador, os claustros, a sala do capítulo, os jardins. Apesar da pressa de alguns pelo jantar, o excêntrico e milionário lorde inglês seguia lentamente com o olhar cada pormenor do monumento e nunca se cansava de ouvir as histórias que os frades lhe iam contando. Um monumento que não se cansa de dizer ser o mais belo que tinha visto em toda a sua vida.
Esta foi a representação feita pelo Grupo de Teatro "O Nariz", nos passados dias 16 e 17 de Outubro, uma de noite, outra de dia, a que assistiram várias dezenas de pessoas. A verdadeira visita ocorreu há 216 anos, quando William Beckford foi recebido no Mosteiro da Batalha. A impressão que lhe causou o monumento foi tão forte, que a descreveu com pormenor no seu livro "Recollections of an Excursion to the Monasteries of Alcobaça and Batalha" (1835), a partir do qual foi agora possível reconstruir o sucedido.
LMF
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
"Património: Um Mapa da História"
Jornadas Europeias do Património 2010
As Jornadas Europeias do Património, iniciativa do Conselho da Europa e da União Europeia, realizam-se anualmente no mês de Setembro, tendo como principal objectivo sensibilizar a população para a importância da protecção e da valorização do Património. Em Portugal, decorreram este ano nos dias 24 a 26 de Setembro. O IGESPAR, coordenador nacional do evento, lançou o tema "Património: Um Mapa da História", pretendendo vincar a estreita relação entre os sítios patrimoniais e os acontecimentos históricos que lhes estão associados. O Património, nas suas diferentes manifestações, documenta um percurso espaço-tempo das sociedades. Viajar pelas cidades, percorrer o território observando vestígios, interpretando os cenários urbanos e rurais de factos históricos e políticos, da humanização das paisagens, da produção técnica e científica, literária ou artística, é como ter, entre mãos, um inesgotável mapa que nos ajuda a entender de onde viemos e a escolher para onde podemos seguir.
Com o objectivo de incentivar o usufruto dos espaços patrimoniais, diversas entidades, públicas e privadas, associaram-se a este evento através da realização de um vasto leque de iniciativas, contribuindo para a aproximação física e emocional das pessoas aos monumentos, conjuntos e sítios.
Foi o caso do Mosteiro da Batalha e dos Centros de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, no campo militar de S. Jorge e junto à ponte da Boutaca, onde decorreram jogos diversos, visitas guiadas, passeios históricos, exibição de documentários e outros eventos para o público em geral. No Mosteiro poderá ainda visitar a exposição documental "216 anos depois: William Beckford na Batalha", que por ali ficará até ao último dia deste ano.
Luís Miguel Ferraz
As Jornadas Europeias do Património, iniciativa do Conselho da Europa e da União Europeia, realizam-se anualmente no mês de Setembro, tendo como principal objectivo sensibilizar a população para a importância da protecção e da valorização do Património. Em Portugal, decorreram este ano nos dias 24 a 26 de Setembro. O IGESPAR, coordenador nacional do evento, lançou o tema "Património: Um Mapa da História", pretendendo vincar a estreita relação entre os sítios patrimoniais e os acontecimentos históricos que lhes estão associados. O Património, nas suas diferentes manifestações, documenta um percurso espaço-tempo das sociedades. Viajar pelas cidades, percorrer o território observando vestígios, interpretando os cenários urbanos e rurais de factos históricos e políticos, da humanização das paisagens, da produção técnica e científica, literária ou artística, é como ter, entre mãos, um inesgotável mapa que nos ajuda a entender de onde viemos e a escolher para onde podemos seguir.
Com o objectivo de incentivar o usufruto dos espaços patrimoniais, diversas entidades, públicas e privadas, associaram-se a este evento através da realização de um vasto leque de iniciativas, contribuindo para a aproximação física e emocional das pessoas aos monumentos, conjuntos e sítios.
Foi o caso do Mosteiro da Batalha e dos Centros de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, no campo militar de S. Jorge e junto à ponte da Boutaca, onde decorreram jogos diversos, visitas guiadas, passeios históricos, exibição de documentários e outros eventos para o público em geral. No Mosteiro poderá ainda visitar a exposição documental "216 anos depois: William Beckford na Batalha", que por ali ficará até ao último dia deste ano.
Luís Miguel Ferraz
O Mosteiro da Batalha segundo D. Fernando de Menezes, conde da Ericeira
Por Saul António Gomes
D. Luís de Meneses, terceiro conde da Ericeira, pertencia à grande nobreza de Portugal. Nasceu em 1632 e desempenhou, nas guerras da Restauração, cargos relevantes ao serviço da Coroa. Notabilizando-se por feitos militares, foi igualmente respeitado pelos seus dotes de governante, mormente como vedor da Fazenda, assim como apreciado pela craveira de escritor e historiador. Desiludido com o aparente insucesso das suas políticas de foro económico, viria a suicidar-se em 1690.
A sua historiografia tem tanto de memorialístico, quando escreve sobre as campanhas militares em Portugal e em Angola, da Guerra da Restauração, como de exaltação e encómio dos valores pátrios, caso do que se verifica na biografia que dedica a el-rei D. João I. É autor da História de Portugal Restaurado, saída em Lisboa, em dois volumes, justamente em 1679 e 1698.
De 1677 é a publicação da sua obra intitulada Vida e Acçoens d’El Rey Dom João I, que dedicou à memória do príncipe D. Teodósio. Cumpria ao ideário português de D. Fernando de Menezes o louvor sem reservas da nação lusitana, entretecendo-o tanto pela sua vida de militar e político, como se referiu, como pela escrita empenhada e interventiva da sua história.
D. Fernando de Menezes conhecia bem o Mosteiro da Batalha. Como vedor da Fazenda tinha acesso ao mapa económico de tenças e padrões régios que a Coroa canalizava para o sustento material e manutenção da casa dominicana. Como historiador, a descrição que nos deixou do monumento, conquanto inspirada e devedora daquela que, anos antes, se tornara cristalina e de referência maior, devida a Fr. Luís de Sousa, não deixa de evidenciar particularidades sensíveis a um membro da grande nobreza e a um estratega militar de eleição.
Do edifício tanto nos deixa uma apreciação estética, quanto enquadra pormenores pertinentes aos modos de circulação pelo mesmo, aos acabamentos da estrutura arquitectónica, à paisagem lumínica provocada pelos vitrais que reiteradamente admira. E, nestes, aponta a informação, a todos os títulos importante, de coincidirem, na Capela do Fundador, os túmulos e capelas funerárias dos jazentes nela recolhidos com os padrões pictóricos, de heráldica e divisas, patentes nas vidraças dessa santa sala, dado praticamente ignorado hoje em dia.
Documento
1677 — Descrição do Mosteiro da Batalha por D. Fernando de Menezes, conde da Ericeira.
Pub.: Dom Fernando de Menezes, Conde da Ericeyra, Vida, E Acçõens D’El Rey Dom João I, Offerecida à Memoria Posthuma do serenissimo Principe Dom Theodosio. Lisboa: Officina de João Galrão, 1677, pp. 413-425.
“Para alivio do Povo, se dispoz o enterro com a mayor pompa, e ostentação, que em Portugal se tinha visto. Levouse o corpo em hombros d’El Rey e dos Infantes com assistencia de toda a Corte, Prelados, e Religiosos á Sé de Lisboa, aonde se colocou em huma essa sumptuosa. Depois de feytos solemnemente os primeyros officios, se trasladou ao Convento da Batalha, vinte legoas distante, como ordenava [p. 414] nava o testamento, saiu da Cidade em hum carro triumphal, que tiravão quatro cavallos, que outros seguião, levando differentes Ministros as armas do defuncto, que naquelle Mosteyro como reliquias se conservão. El Rey, os Infantes, e toda a Corte a pé, e em habito lugubre acompanharão o carro até o ultimo da Cidade, e depois subindo a cavallo com os Prelados e Religiosos se continuou o caminho na mesma fórma. Nas principaes Igrejas dos lugares a que se chegava, estavão prevenidos tumulos, e officios. Velavase o corpo de noyte, repartindo-se este cuydado pelos Infantes, com precedencia dos Mayores, e assistencia dos Prelados e Religiosos a que tocava. Ultimamente chegou o corpo ao Convento da Batalha, aonde entrou com a mesma pompa que se vio em Lisboa; depois de se fazerem as exequias com a mayor solemnidade foy sepultado no mesmo sepulchro com a Rainha Dona Philippa 1 sua mulher na capella, que fabricou para este intento.
E para que se conheça mais claramente o generoso animo de hum Principe, que passou a mayor parte da vida nas guerras e trabalhos, que a sua historia nos representa, daremos desta fabrica, em que levantou hum sagrado trofeo das suas victorias breve noticia tirada da elegante e copiosa descripção, que faz de toda ella hum dos Authores2 mais graves da nossa nação, e que pode competir com os que a fama celebra com [p. 415] com mayores aplausos. 3 Determinou El Rey comprir o voto, que fez a Nossa Senhora o dia da batalha de Algibarrota, de lhe levantar no mesmo sitio hum templo sumptuoso, se alcançasse a victoria. Para desempenho desta promessa, que não quis dilatar, elegeo o sitio, que lhe pareceo mais accomodado naquella campanha seca, e esteril pela vizinhança da serra de Minde que lhe communica as suas qualidades; por este respeyto elegeo para a fabrica do templo o sitio, que rega huma ribeyra, que o faz mais fresco, e aprazivel, pois sem esta commodidade, se conservarião com difficuldade Religiosos, e moradores; fica distante duas legoas da Cidade de Leyria, pouco mais da Villa de Algibarrota, meya de Porto de Mós, que com outros lugares daquelles contornos fazem este abundante de tudo que necessita para regalo e alimento, e o fazem hoje mais celebre minireaes de Azeviche, que se lavra nelle com primorosa industria. Para que fosse a fabrica mais insigne consultou El Rey os Architectos naturaes, e estrangeyros de mayor nome, e elegeo entre os desenhos, o que lhe pareceo mais magestoso. Fez a Igreja de trezentos palmos até a capella mór, que tem mais sessenta, a largura de cento com a altura proporcionada, que augmentando-se do pé direyto com as abobedas tem o mayor auge de cento, quarenta e seis palmos, dividese todo este corpo em tres naves com justa proporção que se sustentão [p. 416] tão com pedestaes de marmore branco, e bem lavrado, como he toda a obra, que não descobre outra materia, beneficio daquellas serras que a produzem em abundancia, e de calidade, que sendo branquissima na cor, e quasi eterna na duração, admitte com facilidade as formas que a industria lhe imprime. O cruzeyro corresponde á mais obra com justa grandeza, e assim elle como a capella mór, e corpo da Igreja recebem tanta claridade do grande numero e grandeza das janelas, que cubertas de vidraças finas, illuminadas de varias cores, e pinturas, quando as fere o Sol fazem quasi hum corpo luminoso, e he tal o primor com que os artifices as segurarão, que passando muytas de quarenta palmos de altura, e as menores de vinte, se conservão quasi illesas das injurias dos tempos, que naquelle sitio sogeyto aos ventos furiosamente as combate, e para reparar qualquer perjuizo tem official perpetuo que as reforma.
No lado direyto do corpo da Igreja se abre hum arco, dentro do qual se inclue huma capella que El Rey elegeo para sepultura, e de seus filhos, deyxando a mayor a El Rey Dom Duarte. He huma quadra de noventa palmos da mesma fabrica, cuberta de abobeda, que com primoroso artificio, se levanta sobre oyto pilares, que subindo em fórma oytavada até noventa e dous palmos faz hum pavilhão, ou docel artificioso, que cobre a sepultura Real, que está no meyo levantada, [p. 417] tada, e se compoem do mesmo marmore lavrado sutilmente em hum silvado de meyo relevo com espinhos e amoras, e a espaços huma letera Francesa: Il me plait pour bien. Que se interpreta pela sarça de Moyses, e aspereza dos espinhos, sem os quaes se não logrão as Coroas, mostrando no que a letra significa, contentame por bem. He rodeada esta capella das mesmas luzes, com mayor elegancia fabricadas, ornase com hum altar no frontespicio e outros na face dos pedestaes, rodease de sepulchros mais humildes da mesma obra, com lavores, e emprezas diversas, em que estão os Infantes seus filhos nos lugares, que conforme a preferencia dos annos lhe pertencem, vendo-se nos Altares, e vidraças que lhe respondem as suas Armas, e divizas. Sobre o sepulchro d’El Rey, que se levanta com competente altura, está a sua estatua de inteyro relevo armada, fóra a cabeça, e junto delle a da Rainha da mesma obra, e he tão grande a Magestade, e artificio desta capella, que causa veneração aos que a reconhecem.
A parte exterior do templo não deyxa menos que admirar; porque o frontespicio, que sobre a porta principal se levanta em altura immensa, he tão ornado de estatuas; e lavores artificiosos e delicados, que servem mais a admiração que ao discurso, fica no meyo delle, e dando mais luz ao templo hum espelho circular de obra de pedra tão sutil e miuda que se não [p. 418] não pudera exprimir com tanta elegancia na materia mais docil; os vazios que as pedras permittem occupão vidraças do mesmo artificio que as outras, e como fere nelle o Sol em nascendo, parece que outro serve de illuminar aquelle templo. Toda a immensidade desta fabrica exterior cobrem os mesmos marmores, e sobre elles se levantão, quasi em fórma piramidal, tres Zimborios de obra tão primoroza, que augmentando a Magestade do edificio, influem nova admiração: da mesma materia são as telhas com que se cobre, e as escadas com que todo este edificio se communica, sobindo humas dos lados da Igreja dissimuladas entre a grossura da muralha; saindo outras mais suavemente das officinas superiores do Convento, e todas guarnecidas de cordões de pedra, e tarjas floreadas sobem e communicão as mais superiores eminencias deste sumptuoso edificio, que excedeo sem duvida os mayores, que naquelle tempo se edificarão, e póde competir, com os que agora no Mundo causão mayor admiração. A grandeza da obra corresponderão os ornamentos, alguns delles tão preciosos, que por se não poderem sustentar pelo grave pezo dos borcados e guarnições de ouro e prata de martelo, consumida com o tempo a seda, se converterão em outros usos necesarios. Forão infinitos os vasos sagrados, corpos de Santos, alampadas, cruzes de ouro, e prata para que em tudo se mostrasse [p. 419] trasse a grandeza de hum Rey tão magnanimo como devoto. O que deu mais lustre a este Convento forão, as preciosas Reliquias, 4 que mandou a El Rey, o Emperador Paleologo, vindo a França a pedir soccorro contra os Turcos, da vestidura de Christo, do Santo Lenho, e outros que se conservão com a mesma carta do Emperador do anno de 1401.
Ostentão a mesma grandeza todas as mais officinas interiores, que não permitte descrever a brevidade que professamos, só não parece justo passar em silencio a fabrica do Capitulo, que he huma das mais estranhas, que o Mundo celebra. No lado do Claustro principal, que he da mesma obra e delicadeza de lavores, ornado com hum jardim e fontes, que o fazem mais aprazivel, está o Capitulo, que he hum quadro de oytenta e sinco palmos da mesma pedraria cuberto de huma abobeda tão estranhamente fabricada, que ficando pela parte superior toda igual sem volta nem columna ou pedestal, que a sustente, admira os Architectos mais insignes, parecendo impossivel que naquella fórma se fabricasse. Fóra do corpo principal do templo, mas unida com elle, se ve huma capella que ficou imperfeyta, e mostra ser destinada para enterro dos reys de estructura e lavores tão sutis e admiraveis, que intentando-se depois, não houve officiaes, que se atrevessem a rematala com igual perfeyção, mostrando este principe nas acções que obrou e [p. 420] e nas obras que fez, que era impossivel competilo, quanto mais excedelo, assim remataremos este discurso com o seu Epitafio que atras promettemos, e reservamos para este lugar por ser largo, e não interromper a historia, cujo credito fica com elle seguro.
(…)5.
[p. 424] Este Epitafio escrito sem a elegancia e pureza da lingoa latina, com que outros se compuzerão, referindo com verdade as acções deste principe, he o seu mayor elogio, e o não offerecemos traduzido, assim por ser claro, como porque se póde ver no author citado, e não he justo offender com traducções a energia e significação das palavras proprias, e ainda que nos insitava o desejo continuar o discurso, não parecendo possivel reduzir successos tão grandes a summa tão breve representados nella como em Mapa, servirá o de mostrar aos Principes o caminho por que [p. 425] que se alcança o amor dos subditos, o temor dos inimigos, e a segurança da Republica: de animar os timidos para que assistão á defensa da Patria com todo o affecto, e ainda que nos principios se representem difficuldades, que pareção invinciveis, tenhão por certo, que sendo a causa justa hão de conseguir com a divina assistencia glorioso remate.
Assim acabaremos com hum parallelo entre El Rey Dom João, e Julio Cesar, pois não tiverão nas suas acções menos semelhança. Que Romulo e Theseo, Marcello e Pelopidas, Annibal e Scipião, Lizando e Sylla, Eumenes e Certorio, Agicilião e Pompeo, e outros Heroes que os antigos comparárão.”
Notas
1 Na margem esquerda da página: “Sepultase com a Rainha no Convento da Batalha.”
2 Na margem esquerda da página: “Frey Luis de Souza, Chronica de S. Domingos, I parte.”
3 Margem direita da página: “Noticia descriptiva do Convento da Batalha.”
4 Na margem direita da página: “Reliquias deste templo.”
5 Segue-se, entre as páginas 420 e 424, a transcrição do epitáfio latino patente no túmulo de D. João I, já publicado por Fr. Luís de Sousa, de cuja lição, cremos, o Conde da Ericeira o retira.
D. Luís de Meneses, terceiro conde da Ericeira, pertencia à grande nobreza de Portugal. Nasceu em 1632 e desempenhou, nas guerras da Restauração, cargos relevantes ao serviço da Coroa. Notabilizando-se por feitos militares, foi igualmente respeitado pelos seus dotes de governante, mormente como vedor da Fazenda, assim como apreciado pela craveira de escritor e historiador. Desiludido com o aparente insucesso das suas políticas de foro económico, viria a suicidar-se em 1690.
A sua historiografia tem tanto de memorialístico, quando escreve sobre as campanhas militares em Portugal e em Angola, da Guerra da Restauração, como de exaltação e encómio dos valores pátrios, caso do que se verifica na biografia que dedica a el-rei D. João I. É autor da História de Portugal Restaurado, saída em Lisboa, em dois volumes, justamente em 1679 e 1698.
De 1677 é a publicação da sua obra intitulada Vida e Acçoens d’El Rey Dom João I, que dedicou à memória do príncipe D. Teodósio. Cumpria ao ideário português de D. Fernando de Menezes o louvor sem reservas da nação lusitana, entretecendo-o tanto pela sua vida de militar e político, como se referiu, como pela escrita empenhada e interventiva da sua história.
D. Fernando de Menezes conhecia bem o Mosteiro da Batalha. Como vedor da Fazenda tinha acesso ao mapa económico de tenças e padrões régios que a Coroa canalizava para o sustento material e manutenção da casa dominicana. Como historiador, a descrição que nos deixou do monumento, conquanto inspirada e devedora daquela que, anos antes, se tornara cristalina e de referência maior, devida a Fr. Luís de Sousa, não deixa de evidenciar particularidades sensíveis a um membro da grande nobreza e a um estratega militar de eleição.
Do edifício tanto nos deixa uma apreciação estética, quanto enquadra pormenores pertinentes aos modos de circulação pelo mesmo, aos acabamentos da estrutura arquitectónica, à paisagem lumínica provocada pelos vitrais que reiteradamente admira. E, nestes, aponta a informação, a todos os títulos importante, de coincidirem, na Capela do Fundador, os túmulos e capelas funerárias dos jazentes nela recolhidos com os padrões pictóricos, de heráldica e divisas, patentes nas vidraças dessa santa sala, dado praticamente ignorado hoje em dia.
Documento
1677 — Descrição do Mosteiro da Batalha por D. Fernando de Menezes, conde da Ericeira.
Pub.: Dom Fernando de Menezes, Conde da Ericeyra, Vida, E Acçõens D’El Rey Dom João I, Offerecida à Memoria Posthuma do serenissimo Principe Dom Theodosio. Lisboa: Officina de João Galrão, 1677, pp. 413-425.
“Para alivio do Povo, se dispoz o enterro com a mayor pompa, e ostentação, que em Portugal se tinha visto. Levouse o corpo em hombros d’El Rey e dos Infantes com assistencia de toda a Corte, Prelados, e Religiosos á Sé de Lisboa, aonde se colocou em huma essa sumptuosa. Depois de feytos solemnemente os primeyros officios, se trasladou ao Convento da Batalha, vinte legoas distante, como ordenava [p. 414] nava o testamento, saiu da Cidade em hum carro triumphal, que tiravão quatro cavallos, que outros seguião, levando differentes Ministros as armas do defuncto, que naquelle Mosteyro como reliquias se conservão. El Rey, os Infantes, e toda a Corte a pé, e em habito lugubre acompanharão o carro até o ultimo da Cidade, e depois subindo a cavallo com os Prelados e Religiosos se continuou o caminho na mesma fórma. Nas principaes Igrejas dos lugares a que se chegava, estavão prevenidos tumulos, e officios. Velavase o corpo de noyte, repartindo-se este cuydado pelos Infantes, com precedencia dos Mayores, e assistencia dos Prelados e Religiosos a que tocava. Ultimamente chegou o corpo ao Convento da Batalha, aonde entrou com a mesma pompa que se vio em Lisboa; depois de se fazerem as exequias com a mayor solemnidade foy sepultado no mesmo sepulchro com a Rainha Dona Philippa 1 sua mulher na capella, que fabricou para este intento.
E para que se conheça mais claramente o generoso animo de hum Principe, que passou a mayor parte da vida nas guerras e trabalhos, que a sua historia nos representa, daremos desta fabrica, em que levantou hum sagrado trofeo das suas victorias breve noticia tirada da elegante e copiosa descripção, que faz de toda ella hum dos Authores2 mais graves da nossa nação, e que pode competir com os que a fama celebra com [p. 415] com mayores aplausos. 3 Determinou El Rey comprir o voto, que fez a Nossa Senhora o dia da batalha de Algibarrota, de lhe levantar no mesmo sitio hum templo sumptuoso, se alcançasse a victoria. Para desempenho desta promessa, que não quis dilatar, elegeo o sitio, que lhe pareceo mais accomodado naquella campanha seca, e esteril pela vizinhança da serra de Minde que lhe communica as suas qualidades; por este respeyto elegeo para a fabrica do templo o sitio, que rega huma ribeyra, que o faz mais fresco, e aprazivel, pois sem esta commodidade, se conservarião com difficuldade Religiosos, e moradores; fica distante duas legoas da Cidade de Leyria, pouco mais da Villa de Algibarrota, meya de Porto de Mós, que com outros lugares daquelles contornos fazem este abundante de tudo que necessita para regalo e alimento, e o fazem hoje mais celebre minireaes de Azeviche, que se lavra nelle com primorosa industria. Para que fosse a fabrica mais insigne consultou El Rey os Architectos naturaes, e estrangeyros de mayor nome, e elegeo entre os desenhos, o que lhe pareceo mais magestoso. Fez a Igreja de trezentos palmos até a capella mór, que tem mais sessenta, a largura de cento com a altura proporcionada, que augmentando-se do pé direyto com as abobedas tem o mayor auge de cento, quarenta e seis palmos, dividese todo este corpo em tres naves com justa proporção que se sustentão [p. 416] tão com pedestaes de marmore branco, e bem lavrado, como he toda a obra, que não descobre outra materia, beneficio daquellas serras que a produzem em abundancia, e de calidade, que sendo branquissima na cor, e quasi eterna na duração, admitte com facilidade as formas que a industria lhe imprime. O cruzeyro corresponde á mais obra com justa grandeza, e assim elle como a capella mór, e corpo da Igreja recebem tanta claridade do grande numero e grandeza das janelas, que cubertas de vidraças finas, illuminadas de varias cores, e pinturas, quando as fere o Sol fazem quasi hum corpo luminoso, e he tal o primor com que os artifices as segurarão, que passando muytas de quarenta palmos de altura, e as menores de vinte, se conservão quasi illesas das injurias dos tempos, que naquelle sitio sogeyto aos ventos furiosamente as combate, e para reparar qualquer perjuizo tem official perpetuo que as reforma.
No lado direyto do corpo da Igreja se abre hum arco, dentro do qual se inclue huma capella que El Rey elegeo para sepultura, e de seus filhos, deyxando a mayor a El Rey Dom Duarte. He huma quadra de noventa palmos da mesma fabrica, cuberta de abobeda, que com primoroso artificio, se levanta sobre oyto pilares, que subindo em fórma oytavada até noventa e dous palmos faz hum pavilhão, ou docel artificioso, que cobre a sepultura Real, que está no meyo levantada, [p. 417] tada, e se compoem do mesmo marmore lavrado sutilmente em hum silvado de meyo relevo com espinhos e amoras, e a espaços huma letera Francesa: Il me plait pour bien. Que se interpreta pela sarça de Moyses, e aspereza dos espinhos, sem os quaes se não logrão as Coroas, mostrando no que a letra significa, contentame por bem. He rodeada esta capella das mesmas luzes, com mayor elegancia fabricadas, ornase com hum altar no frontespicio e outros na face dos pedestaes, rodease de sepulchros mais humildes da mesma obra, com lavores, e emprezas diversas, em que estão os Infantes seus filhos nos lugares, que conforme a preferencia dos annos lhe pertencem, vendo-se nos Altares, e vidraças que lhe respondem as suas Armas, e divizas. Sobre o sepulchro d’El Rey, que se levanta com competente altura, está a sua estatua de inteyro relevo armada, fóra a cabeça, e junto delle a da Rainha da mesma obra, e he tão grande a Magestade, e artificio desta capella, que causa veneração aos que a reconhecem.
A parte exterior do templo não deyxa menos que admirar; porque o frontespicio, que sobre a porta principal se levanta em altura immensa, he tão ornado de estatuas; e lavores artificiosos e delicados, que servem mais a admiração que ao discurso, fica no meyo delle, e dando mais luz ao templo hum espelho circular de obra de pedra tão sutil e miuda que se não [p. 418] não pudera exprimir com tanta elegancia na materia mais docil; os vazios que as pedras permittem occupão vidraças do mesmo artificio que as outras, e como fere nelle o Sol em nascendo, parece que outro serve de illuminar aquelle templo. Toda a immensidade desta fabrica exterior cobrem os mesmos marmores, e sobre elles se levantão, quasi em fórma piramidal, tres Zimborios de obra tão primoroza, que augmentando a Magestade do edificio, influem nova admiração: da mesma materia são as telhas com que se cobre, e as escadas com que todo este edificio se communica, sobindo humas dos lados da Igreja dissimuladas entre a grossura da muralha; saindo outras mais suavemente das officinas superiores do Convento, e todas guarnecidas de cordões de pedra, e tarjas floreadas sobem e communicão as mais superiores eminencias deste sumptuoso edificio, que excedeo sem duvida os mayores, que naquelle tempo se edificarão, e póde competir, com os que agora no Mundo causão mayor admiração. A grandeza da obra corresponderão os ornamentos, alguns delles tão preciosos, que por se não poderem sustentar pelo grave pezo dos borcados e guarnições de ouro e prata de martelo, consumida com o tempo a seda, se converterão em outros usos necesarios. Forão infinitos os vasos sagrados, corpos de Santos, alampadas, cruzes de ouro, e prata para que em tudo se mostrasse [p. 419] trasse a grandeza de hum Rey tão magnanimo como devoto. O que deu mais lustre a este Convento forão, as preciosas Reliquias, 4 que mandou a El Rey, o Emperador Paleologo, vindo a França a pedir soccorro contra os Turcos, da vestidura de Christo, do Santo Lenho, e outros que se conservão com a mesma carta do Emperador do anno de 1401.
Ostentão a mesma grandeza todas as mais officinas interiores, que não permitte descrever a brevidade que professamos, só não parece justo passar em silencio a fabrica do Capitulo, que he huma das mais estranhas, que o Mundo celebra. No lado do Claustro principal, que he da mesma obra e delicadeza de lavores, ornado com hum jardim e fontes, que o fazem mais aprazivel, está o Capitulo, que he hum quadro de oytenta e sinco palmos da mesma pedraria cuberto de huma abobeda tão estranhamente fabricada, que ficando pela parte superior toda igual sem volta nem columna ou pedestal, que a sustente, admira os Architectos mais insignes, parecendo impossivel que naquella fórma se fabricasse. Fóra do corpo principal do templo, mas unida com elle, se ve huma capella que ficou imperfeyta, e mostra ser destinada para enterro dos reys de estructura e lavores tão sutis e admiraveis, que intentando-se depois, não houve officiaes, que se atrevessem a rematala com igual perfeyção, mostrando este principe nas acções que obrou e [p. 420] e nas obras que fez, que era impossivel competilo, quanto mais excedelo, assim remataremos este discurso com o seu Epitafio que atras promettemos, e reservamos para este lugar por ser largo, e não interromper a historia, cujo credito fica com elle seguro.
(…)5.
[p. 424] Este Epitafio escrito sem a elegancia e pureza da lingoa latina, com que outros se compuzerão, referindo com verdade as acções deste principe, he o seu mayor elogio, e o não offerecemos traduzido, assim por ser claro, como porque se póde ver no author citado, e não he justo offender com traducções a energia e significação das palavras proprias, e ainda que nos insitava o desejo continuar o discurso, não parecendo possivel reduzir successos tão grandes a summa tão breve representados nella como em Mapa, servirá o de mostrar aos Principes o caminho por que [p. 425] que se alcança o amor dos subditos, o temor dos inimigos, e a segurança da Republica: de animar os timidos para que assistão á defensa da Patria com todo o affecto, e ainda que nos principios se representem difficuldades, que pareção invinciveis, tenhão por certo, que sendo a causa justa hão de conseguir com a divina assistencia glorioso remate.
Assim acabaremos com hum parallelo entre El Rey Dom João, e Julio Cesar, pois não tiverão nas suas acções menos semelhança. Que Romulo e Theseo, Marcello e Pelopidas, Annibal e Scipião, Lizando e Sylla, Eumenes e Certorio, Agicilião e Pompeo, e outros Heroes que os antigos comparárão.”
Notas
1 Na margem esquerda da página: “Sepultase com a Rainha no Convento da Batalha.”
2 Na margem esquerda da página: “Frey Luis de Souza, Chronica de S. Domingos, I parte.”
3 Margem direita da página: “Noticia descriptiva do Convento da Batalha.”
4 Na margem direita da página: “Reliquias deste templo.”
5 Segue-se, entre as páginas 420 e 424, a transcrição do epitáfio latino patente no túmulo de D. João I, já publicado por Fr. Luís de Sousa, de cuja lição, cremos, o Conde da Ericeira o retira.
domingo, 29 de agosto de 2010
625 anos da Batalha de Aljubarrota e Dia do Município
Os diversos actos comemorativos
A importância da Batalha de Aljubarrota é um facto incontornável no contexto da independência nacional e da História de Portugal em geral. Mas a importância que é dada à sua comemoração a nível nacional é diametralmente oposta. Resta-nos contar com a memória local, este ano organizada conjuntamente pelos municípios de Batalha e Porto de Mós e a Fundação Batalha de Aljubarrota.
O programa começou com a colocação do estandarte oficial dos 625 da Batalha de Aljubarrota na praça do Município de Porto de Mós, no dia 1 de Agosto. A mesma autarquia promoveu, no dia 6 de Agosto, um colóquio sobre a Batalha Real, com o coronel Américo Henriques, no Campo Militar de S. Jorge.
Nos dias 7 e 8 de Agosto, coube ao Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA) promover algumas actividades, com destaque para uma noite de animação popular medieval e passeios de balão, em S. Jorge. E no fim-de-semana de 13 a 15 de Agosto, as atenções viraram-se para a vila da Batalha, nas tradicionais festas deste concelho.
Celebrações Oficiais
Quanto às "celebrações oficiais", o figurino manteve-se dentro do que tem sido hábito nos últimos anos.
Pelas 10h00, no CIBA, foi celebrada uma missa campal, em memória dos heróis de Aljubarrota, com a figura de São Nuno de Santa Maria em destaque.
No final da Eucaristia, seguiram-se algumas alocuções, começando Carlos Evaristo, presidente da Fundação Oureana, por lembrar a importância da data e dos 650 anos do nascimento de São Nuno, que serão motivo para algumas iniciativas de comemoração, nomeadamente em Ourém, a divulgar oportunamente.
Depois, foi a vez do coronel Américo Henriques fazer uma apresentação épica da batalha de 1385, louvando a valentia dos portugueses e a inteligência militar do Condestável. "A táctica utilizada pelos dois exércitos não terá sido muito diferente, pois o ‘quadrado’ já era prática usual naquele tempo, mas a disposição no terreno foi genial e aí é que ganhámos a batalha", afirmou o historiador, salientando o papel fulcral que teve a "preparação do combate". Mas o maior segredo, o que fez com que "naquele dia se passasse ali mais do que uma simples batalha, algo de transcendente", foi "a vontade de um povo reunido pela primeira vez sob a ideia de Pátria". "É essa vontade, esse ideal, esse amor à Pátria que faz com se vençam todos os combates, seja rei, seja condestável, seja primeiro-ministro, seja quem for", concluiu Américo Henriques.
Por fim, o presidente da Câmara de Porto de Mós, João Salgueiro, falou também desse exemplo de patriotismo de Aljubarrota, apelando a que "também hoje saibamos honrar os heróis desta Nação valente e imortal".
As cerimónias passaram depois para a Capela do Fundador, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, onde as várias entidades civis e militares depuseram coras de flores junto ao túmulo de D. João I, num acto de homenagem silencioso.
Dia do Município
Já da parte da tarde, foi inaugurada a exposição "Festas da Batalha – Uma História com mais de 50 anos", na galeria Mouzinho de Albuquerque. Trata-se de uma mostra de cartazes, imagens de artistas e outros documentos relativos a estas festas, iniciadas em 1948. Organizada pela Associação de Propaganda e Defesa da Região da Batalha, a mostra ficará patente até final do mês.
A sessão solene decorreu no auditório municipal, tendo como pontos principais a alocução histórica sobre "O Voto de El-Rei D. João I antes da Batalha Real", pelo engenheiro António Almeida Monteiro, e o lançamento de um livro sobre as gárgulas do Mosteiro, da autoria de Ana Patrícia Alho.
O voto de D. João I
Na sua apresentação, acompanhada de algumas imagens projectadas, António Monteiro salientou a ligação da Batalha a Guimarães, pelo único e verdadeiro voto de D. João I antes da batalha, à Senhora de Oliveira, na "cidade berço". Este ex-autarca batalhense, investigador da história local, mostrou como pela análise dos caminhos existentes à época é possível reconstruir grande parte da história da Batalha de Aljubarrota, desde os preparativos até à vitória.
Uma das novidades apresentadas foi a da adaptação de que foi alvo o pórtico do Mosteiro, para receber um projecto magnífico que mestre Huguet trazia de França e que muito agradou ao rei, dada a sua imponência, mas, por ser grande demais para o espaço existente entre as colunas centrais, ficou "entalado" entre elas, como se pode verificar no local. E aqui surge uma nova ligação a Guimarães: é que o projecto original de Afonso Domingues foi levado para a igreja da Senhora de Oliveira, onde foi colocado como janelão por cima do pórtico já existente.
Com esta apresentação, ficaram, assim, revelados mais alguns dados sobre um monumento que tem sempre novidades para revelar. E fica também uma conclusão do autor desta investigação: "Guimarães não é só berço de Portugal, é também o berço da Batalha". E uma sugestão: "Guimarães vai ser Capital da Cultura em 2010... que tal até lá fazer a geminação entre os dois municípios?".
Livro sobre as gárgulas
De seguida, mantendo o Mosteiro como tema, foi apresentado o livro "As Gárgulas do Mosteiro de Santa Maria da Vitória – Função e Forma", de Ana Patrícia Alho. Trata-se de um resumo da sua tese de mestrado em História da Arte, Património e Restauro, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde a investigadora apresenta um estudo sobre o sistema hidráulico do monumento e as famosas gárgulas que servem de ponta final do sistema de escoamento de água pluviais.
Apresentada pelo professor Fernando Grilo, daquela universidade, a obra é mais um meio de divulgação das "novidades" que é possível continuar a descobrir neste monumento. As conclusões são "ainda naturalmente parciais sobre a técnica constritiva dos vários mestres envolvidos, assim como sobre a poética e o valor simbólico, decorativo e funcional das gárgulas ainda presentes nos edifícios, sejam de feitura antiga, como as que se publicam com menção específica a datação possível, como as que são claramente ‘modernas’ e que, como se verificou no local, ostentam datações esculpidas a memorizar restauros oitocentistas", referiu o orador.
A autora prossegue agora um trabalho para o seu doutoramento, de comparação deste caso com outros monumentos similares, numa área "praticamente inédita" de estudo sobre os sistemas hidráulicos medievais.
Que futuro?
No final, António Lucas, presidente da autarquia, louvou os trabalhos apresentados nesta tarde, como "contributos para a construção da memória", que ajudam ao desenvolvimento cultural e histórico do concelho. Na mesma linha, deu algumas informações sobre os projectos culturais mais relevantes em curso, como a definição de um novo percurso pedonal pelas pedreiras de onde saíram os materiais para a construção do Mosteiro, ou a inauguração para breve do novo Museu da Comunidade Concelhia Batalhense.
Ainda no campo do património, o presidente lamentou ter perdido a batalha pela não introdução de portagens na futura variante ao IC2, que poderia ser "a resposta para, finalmente, se desviarem cerca de 40 mil viaturas que passam diariamente junto ao Mosteiro, das quais 8 mil veículos pesados, e que assim dificilmente optarão pelo novo percurso, pagando esse troço de cerca de 10 km".
Quanto ao futuro do Concelho, António Lucas manifestou a sua preocupação com o actual corte à possibilidade de recurso dos municípios ao crédito, "numa altura em que o QREN começa a disponibilizar verbas e que significaria o arranque de muitos projectos agendados, mas que ficam dependentes da possibilidade de o município se financiar para a respectiva comparticipação". O autarca lembrou que "a actual capacidade de endividamento da Batalha estava usada em apenas 4%, permanecendo 96% disponíveis, e agora ficámos com zero, tal como ficaram municípios que já tinham usado os 100% dessa capacidade".
Como agravante, apontou o presidente, "os municípios podem voltar a contrair empréstimos conforme os montantes que forem amortizando, o que significa que quem já deve muito é que poderá voltar a pedir mais ainda". Em conclusão, "quem gere mal é beneficiado e quem gere bem fica sem nada". "Isto não é forma de gerir um país, assim não vamos lá", lamentou António Lucas, terminando com um aviso: "Se isto não se inverter, este país nunca mais tem sentido".
O último acto desta sessão foi a recepção dos ranchos convidados para a XXV Gala Internacional de Folclore, que nessa noite iria preencher o serão das festas. Houve troca de lembranças e um aplauso a estes representantes das culturas tradicionais dos respectivos países e regiões etnográficas, que com enorme "carolice" vão tentanto manter e divulgar esse património colectivo.
Luís Miguel Ferrraz
XXV Gala Internacional de Folclore
Decorreu no passado dia 14 de Agosto, tendo como pano de fundo o majestoso Mosteiro da Batalha, a XXV Gala Internacional de Folclore da Batalha, organizada pelo rancho "Rosas do Lena", com o apoio de diversas entidades e empresas. Começou com um espectáculo etnográfico, "Um Serão na Alta Estremadura", com alguns componentes do rancho folclórico anfitrião. Seguiu-se a actuação deste grupo e dos convidados, em representação do Algarve, Minho, Espanha, Equador e Bulgária. Foi um excelente serão, que serviu para promover tanto o folclore nacional como o internacional.
MCR
Conferência sobre a Batalha de Aljubarrota
"Introdução Histórica à Crise de 1383/1385"
Realizou-se no passado dia 6 de Agosto, em São Jorge, uma conferência sobre "A Batalha de Aljubarrota - Introdução Histórica à Crise de 1383/1385", com organização conjunta da Câmara Municipal de Porto de Mós e do Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota.
O orador convidado foi o coronel de Infantaria Américo Henriques, que demonstrou ter um conhecimento pormenorizado de tudo o que se passou durante esta crise e, mais concretamente, naquela tarde de calor tórrido do dia 14 de Agosto de 1385. Conseguiu com que toda a plateia ficasse electrizada com o tom do seu discurso, militarista e patriótico.
Não se restringindo à sala em que cerca de meia centena de pessoas o escutavam, saiu para o terreno do campo militar de S. Jorge, onde continuou a palestra. Ali enalteceu todas as virtudes de D. João I, de D. Nuno Álvares Pereira, dos soldados portugueses e ingleses que nos ajudaram nesta vitoriosa batalha, contra os castelhanos que no seu exército possuíam cerca de mil portugueses traidores e dois mil franceses. Enalteceu também o papel das gentes de S. Jorge, Porto de Mós, Calvaria, Aljubarrota, Alcobaça, etc., no apoio ao nosso exército. Realçou ainda a disparidade dos guerreiros de ambos os lados: a cada português correspondiam cinco castelhanos. Foram a astúcia, o saber, a valentia e o grande estratagema guerreiro do Condestável os pilares importantes em que assentou a nossa vitória.
"Foi aqui, nesta terra, neste chão sagrado, perto desta capela, que foi constituída a armadilha onde tombaram mais de três mil castelhanos. E também muitos Portugueses. Na altura, era uma pequena colina, que foi disfarçada para aqui ser construída esta capela, também ela, símbolo desta grande vitória". Estas foram algumas das palavras que pudemos ouvir no local, apreciadas por todos os presentes e, infelizmente, esquecidas de muitos.
Manuel Carreira Rito
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sábado, 27 de fevereiro de 2010
Apresentação do livro “Golpilheira Medieval”
Tarde cultural e histórica com casa cheia
Autor
Após as palavras introdutórias do director do Jornal da Golpilheira, em termos semelhantes aos do editorial desta edição, coube a José Travaços Santos apresentar o autor da obra. Traçou as principais linhas do percurso académico e de vida de Saul Gomes, salientando a sua extensa produção literária, o seu amor a esta região da Estremadura e a profunda riqueza intelectual com que é reconhecido actualmente “entre as maiores figuras das Letras e do Pensamento portugueses”.
Obra
Sobre a obra, falou o seu autor, dissertando sobre a história remota deste território, que considerou “uma das mais antigas regiões habitadas e de grande centralidade em toda a região, como comprova a existência da cidade romana de Collipo”. O seu discurso centrou-se na enumeração das principais descobertas feitas nos documentos agora publicados, e que podem ser revistos no texto introdutório com que enriqueceu esta publicação. Não querendo esgotar o assunto nesta edição, contamos nos próximos meses voltar a ele, com a transcrição mais pormenorizada das suas palavras na ocasião.
A conclusão sobre a riqueza histórica da nossa terra, que pode adivinhar-se a partir desta colectânea documental, “contrasta com a ausência de qualquer rasto desse património na actualidade”, referiu Saul Gomes, lamentando que num périplo recente pela freguesia não tenha encontrado qualquer vestígio de construções ou outros elementos referidos nos documentos, mesmo já dos séculos XVIII e XIX. A este propósito, defendeu que “o pelouro da protecção do património deveria ser atribuído às autarquias locais, pois a centralidade desses serviços tem levado ao desaparecimento de muitos monumentos que a nível nacional são descurados, mas que são autênticas pérolas a preservar para a história das populações onde se encontram”.
Outro intervenientes
O presidente da Junta de Freguesia da Golpilheira, Carlos Santos, reconheceu “com tristeza, que desapareceu quase todo o património dos nossos antepassados, que poderia hoje testemunhar a importância desta terra”, manifestando o seu contentamento por, “em iniciativas como estas, se tentar, ainda assim, preservar e enaltecer essa memória e cuidar que esse erro de esquecer os legados do passado não volte a ser cometido”. Salientando o interesse com que a Junta acompanhou esta iniciativa do Jornal, Carlos Santos agradeceu a Saul Gomes o trabalho desenvolvido e entregou-lhe uma placa comemorativa dos 25 anos da Freguesia, em sinal de gratidão de toda a população.
Também o presidente da Câmara da Batalha, António Lucas, que presidiu à sessão, elogiou e agradeceu o trabalho do historiador, referindo a importância deste tipo de iniciativas, “que a autarquia tem sempre o cuidado de apoiar, como sinal da sua forte aposta na cultura como pilar do desenvolvimento local”. Apontando alguns aspectos do dinamismo actual desta freguesia, a mais recente do concelho da Batalha, o autarca dedicou a edição do livro aos golpilheirenses, elogiando como “exemplar a numerosa adesão da população a um evento deste género”.
De referir que a sessão contou com a animação musical de Jorge Humberto, professor de música no CRG, e do rancho folclórico “As Lavadeiras do Vale do Lena”, da mesma colectividade, e terminou com um lanche oferecido pela Junta de Freguesia aos presentes.
LMF
Ainda sobre o livro...
Correio dos leitores
>>> Tive conhecimento, pelo autor e nosso ilustre amigo, Prof. Dr. Saul Gomes, da preparação da obra literária sobra a Golpilheira. Felicito o Jornal pela feliz iniciativa e por tão belo documento para a história da vossa jovem, mas histórica Freguesia. Para o estudo e pesquisa da nossa História local e regional, é do maior interesse, mais ainda pela competência e sabedoria do autor. Com estima e amizade,
Carlos Alberto Rosa Vieira
>>> Gostaria de dar os meus sinceros parabéns ao Jornal da Golpilheira pela edição deste livro, porque de facto a nossa terra ficou muito mais rica. Sem dúvida, como referiu o presidente da Câmara Municipal, sr. António Lucas, a adesão foi sensacional, algo que não estaria nas previsões de ninguém. Isso faz, em minha opinião, de catalizador para novas aventuras e foi o reconhecimento de todas as pessoas pelo trabalho desenvolvido. Desta maneira, até acaba por se esquecer as grandes dificuldades para ultrapassar muitos obstáculos. Penso que, num futuro próximo, devíamos reflectir sobre duas "nódoas" que estão bem identificadas e que, se fossem recuperadas, sem dúvida que seria um ganho para a nossa freguesia. Estou a referir-me ao moinho de vento e à capela do Picoto. Mais uma vez, parabéns e que Deus vos dê força e coragem para continuarem, porque vale a pena.
Adelino Rito
>>> Fiz quase 100 kms de propósito para ir a essa apresentação, pois conheço bem o autor e sabia que valia a pena. Não conhecia bem essa freguesia e confesso que fiquei muito bem impressionada com as boas instalações, o excelente Restaurante Etnográfico onde almocei e a gente simpática. Mas a minha maior surpresa foi aquele salão cheio de pessoas na apresentação de um livro! Parabéns a um povo que assim vive a cultura! E muitos parabéns ao vosso Jornal pelo bom trabalho que fazem, que também já acompanho há algum tempo.
(Leitora identificada)
>>> Mande também o seu comentário à sessão ou ao livro, a sua opinião, crítica ou sugestão... teremos todo o gosto em saber o qu pensa. Envie para geral@jornaldagolpilheira.com
Cerca de 350 pessoas encheram o salão de festas do Centro Recreativo da Golpilheira (CRG), no passado dia 7 de Fevereiro, na apresentação pública da obra “Golpilheira Medieval – Documentos Históricos”, de Saul António Gomes. Inserida nas comemorações dos 25 anos da criação da freguesia, a obra foi editada em parceria pelo Jornal da Golpilheira e a Câmara Municipal da Batalha, apresentando uma recolha de 113 documentos, sobretudo da época Medieval, onde se espelha o percurso histórico da localidade, conhecida primeiramente por Alpentende e, a partir dos finais do século XIII, pelo nome de Golpilheira.
A sessão foi, assim, uma verdadeira tarde cultural, que começou com as palavras de acolhimento do presidente do Centro Recreativo, Manuel Rito, que manifestou a sua alegria pela iniciativa e a riqueza que ela vem representar para o historial da própria colectividade, intimamente ligada ao desenvolvimento cultural da população durante os últimos 40 anos.Autor
Após as palavras introdutórias do director do Jornal da Golpilheira, em termos semelhantes aos do editorial desta edição, coube a José Travaços Santos apresentar o autor da obra. Traçou as principais linhas do percurso académico e de vida de Saul Gomes, salientando a sua extensa produção literária, o seu amor a esta região da Estremadura e a profunda riqueza intelectual com que é reconhecido actualmente “entre as maiores figuras das Letras e do Pensamento portugueses”.
Obra
Sobre a obra, falou o seu autor, dissertando sobre a história remota deste território, que considerou “uma das mais antigas regiões habitadas e de grande centralidade em toda a região, como comprova a existência da cidade romana de Collipo”. O seu discurso centrou-se na enumeração das principais descobertas feitas nos documentos agora publicados, e que podem ser revistos no texto introdutório com que enriqueceu esta publicação. Não querendo esgotar o assunto nesta edição, contamos nos próximos meses voltar a ele, com a transcrição mais pormenorizada das suas palavras na ocasião.
A conclusão sobre a riqueza histórica da nossa terra, que pode adivinhar-se a partir desta colectânea documental, “contrasta com a ausência de qualquer rasto desse património na actualidade”, referiu Saul Gomes, lamentando que num périplo recente pela freguesia não tenha encontrado qualquer vestígio de construções ou outros elementos referidos nos documentos, mesmo já dos séculos XVIII e XIX. A este propósito, defendeu que “o pelouro da protecção do património deveria ser atribuído às autarquias locais, pois a centralidade desses serviços tem levado ao desaparecimento de muitos monumentos que a nível nacional são descurados, mas que são autênticas pérolas a preservar para a história das populações onde se encontram”.
Outro intervenientes
O presidente da Junta de Freguesia da Golpilheira, Carlos Santos, reconheceu “com tristeza, que desapareceu quase todo o património dos nossos antepassados, que poderia hoje testemunhar a importância desta terra”, manifestando o seu contentamento por, “em iniciativas como estas, se tentar, ainda assim, preservar e enaltecer essa memória e cuidar que esse erro de esquecer os legados do passado não volte a ser cometido”. Salientando o interesse com que a Junta acompanhou esta iniciativa do Jornal, Carlos Santos agradeceu a Saul Gomes o trabalho desenvolvido e entregou-lhe uma placa comemorativa dos 25 anos da Freguesia, em sinal de gratidão de toda a população.
Também o presidente da Câmara da Batalha, António Lucas, que presidiu à sessão, elogiou e agradeceu o trabalho do historiador, referindo a importância deste tipo de iniciativas, “que a autarquia tem sempre o cuidado de apoiar, como sinal da sua forte aposta na cultura como pilar do desenvolvimento local”. Apontando alguns aspectos do dinamismo actual desta freguesia, a mais recente do concelho da Batalha, o autarca dedicou a edição do livro aos golpilheirenses, elogiando como “exemplar a numerosa adesão da população a um evento deste género”.
De referir que a sessão contou com a animação musical de Jorge Humberto, professor de música no CRG, e do rancho folclórico “As Lavadeiras do Vale do Lena”, da mesma colectividade, e terminou com um lanche oferecido pela Junta de Freguesia aos presentes.
LMF
Ainda sobre o livro...
Correio dos leitores
>>> Tive conhecimento, pelo autor e nosso ilustre amigo, Prof. Dr. Saul Gomes, da preparação da obra literária sobra a Golpilheira. Felicito o Jornal pela feliz iniciativa e por tão belo documento para a história da vossa jovem, mas histórica Freguesia. Para o estudo e pesquisa da nossa História local e regional, é do maior interesse, mais ainda pela competência e sabedoria do autor. Com estima e amizade,
Carlos Alberto Rosa Vieira
>>> Gostaria de dar os meus sinceros parabéns ao Jornal da Golpilheira pela edição deste livro, porque de facto a nossa terra ficou muito mais rica. Sem dúvida, como referiu o presidente da Câmara Municipal, sr. António Lucas, a adesão foi sensacional, algo que não estaria nas previsões de ninguém. Isso faz, em minha opinião, de catalizador para novas aventuras e foi o reconhecimento de todas as pessoas pelo trabalho desenvolvido. Desta maneira, até acaba por se esquecer as grandes dificuldades para ultrapassar muitos obstáculos. Penso que, num futuro próximo, devíamos reflectir sobre duas "nódoas" que estão bem identificadas e que, se fossem recuperadas, sem dúvida que seria um ganho para a nossa freguesia. Estou a referir-me ao moinho de vento e à capela do Picoto. Mais uma vez, parabéns e que Deus vos dê força e coragem para continuarem, porque vale a pena.
Adelino Rito
>>> Fiz quase 100 kms de propósito para ir a essa apresentação, pois conheço bem o autor e sabia que valia a pena. Não conhecia bem essa freguesia e confesso que fiquei muito bem impressionada com as boas instalações, o excelente Restaurante Etnográfico onde almocei e a gente simpática. Mas a minha maior surpresa foi aquele salão cheio de pessoas na apresentação de um livro! Parabéns a um povo que assim vive a cultura! E muitos parabéns ao vosso Jornal pelo bom trabalho que fazem, que também já acompanho há algum tempo.
(Leitora identificada)
>>> Mande também o seu comentário à sessão ou ao livro, a sua opinião, crítica ou sugestão... teremos todo o gosto em saber o qu pensa. Envie para geral@jornaldagolpilheira.com
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Apresentação do livro “Golpilheira Medieval” de Saul de Gomes
Casa cheia em tarde cultural na Golpilheira 
Cerca de 350 pessoas encheram o salão de festas do Centro Recreativo da Golpilheira (CRG), no passado dia 7 de Fevereiro, na apresentação pública da obra “Golpilheira Medieval – Documentos Históricos”, do doutor Saul António Gomes. Inserida nas comemorações dos 25 anos da criação desta freguesia, a obra foi editada em parceria pelo Jornal da Golpilheira e a Câmara Municipal da Batalha, apresentando uma recolha de 113 documentos, sobretudo da época Medieval, onde se espelha o percurso histórico da localidade, conhecida primeiramente por Alpentende e, a partir dos finais do século XIII, pelo nome de Golpilheira. 
A sessão de apresentação foi, assim, uma verdadeira tarde cultural, em que o autor da obra dissertou sobre essa história remota do território, que considerou “uma das mais antigas regiões habitadas de toda a região, e de grande centralidade”. A conclusão sobre a sua riqueza histórica, que pode retirar-se a partir dos vestígios remotos e, de igual forma, desta colectânea documental, “contrasta com a ausência de qualquer rasto desse património na actualidade”, referiu Saul Gomes, lamentando que num périplo recente pela freguesia não tenha encontrado qualquer vestígio de construções ou outros elementos referidos nos documentos, mesmo já dos séculos XVIII e XIX. A este propósito, defendeu que “o pelouro da protecção do património deveria ser atribuído às autarquias locais, pois a centralidade desses serviços tem levado ao desaparecimento de muitos monumentos que a nível nacional são descurados, mas que são autênticas pérolas a preservar para a história das populações onde se encontram”.
Segundo Luís Miguel Ferraz, director do Jornal da Golpilheira, “a preservação da memória colectiva, como contributo para a construção da identidade cultural das gentes desta região” foi o principal objectivo desta publicação. “Devemos ver a história, não como um conjunto de matérias enterradas no passado, mas como fonte de leitura para a realidade presente e mesmo como fonte de inspiração para a construção do futuro”, salientou.
Também o presidente da Câmara da Batalha, António Lucas, referiu a importância deste tipo de iniciativas, “que a autarquia tem sempre o cuidado de apoiar, como sinal da sua forte aposta na cultura como pilar do desenvolvimento local”. Salientando alguns aspectos do dinamismo actual desta freguesia, a mais recente do concelho da Batalha, o autarca dedicou a edição do livro aos golpilheirenses, elogiando como exemplar a numerosa adesão da população a um evento deste género.
A sessão contou com animação musical de Jorge Humberto, professor de música no CRG, e do rancho folclórico “As Lavadeiras do Vale do Lena”, da mesma colectividade, e terminou com um beberete oferecido pela Junta de Freguesia local.
O livro está à venda no Centro Recreativo da Golpilheira, na Junta de Freguesia da Golpilheira e nas livrarias da região. Pode também ser encomendado pelo email geral@jornaldagolpilheira.com.
A sessão de apresentação foi, assim, uma verdadeira tarde cultural, em que o autor da obra dissertou sobre essa história remota do território, que considerou “uma das mais antigas regiões habitadas de toda a região, e de grande centralidade”. A conclusão sobre a sua riqueza histórica, que pode retirar-se a partir dos vestígios remotos e, de igual forma, desta colectânea documental, “contrasta com a ausência de qualquer rasto desse património na actualidade”, referiu Saul Gomes, lamentando que num périplo recente pela freguesia não tenha encontrado qualquer vestígio de construções ou outros elementos referidos nos documentos, mesmo já dos séculos XVIII e XIX. A este propósito, defendeu que “o pelouro da protecção do património deveria ser atribuído às autarquias locais, pois a centralidade desses serviços tem levado ao desaparecimento de muitos monumentos que a nível nacional são descurados, mas que são autênticas pérolas a preservar para a história das populações onde se encontram”.

Segundo Luís Miguel Ferraz, director do Jornal da Golpilheira, “a preservação da memória colectiva, como contributo para a construção da identidade cultural das gentes desta região” foi o principal objectivo desta publicação. “Devemos ver a história, não como um conjunto de matérias enterradas no passado, mas como fonte de leitura para a realidade presente e mesmo como fonte de inspiração para a construção do futuro”, salientou.
Também o presidente da Câmara da Batalha, António Lucas, referiu a importância deste tipo de iniciativas, “que a autarquia tem sempre o cuidado de apoiar, como sinal da sua forte aposta na cultura como pilar do desenvolvimento local”. Salientando alguns aspectos do dinamismo actual desta freguesia, a mais recente do concelho da Batalha, o autarca dedicou a edição do livro aos golpilheirenses, elogiando como exemplar a numerosa adesão da população a um evento deste género.
A sessão contou com animação musical de Jorge Humberto, professor de música no CRG, e do rancho folclórico “As Lavadeiras do Vale do Lena”, da mesma colectividade, e terminou com um beberete oferecido pela Junta de Freguesia local.
O livro está à venda no Centro Recreativo da Golpilheira, na Junta de Freguesia da Golpilheira e nas livrarias da região. Pode também ser encomendado pelo email geral@jornaldagolpilheira.com.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
25 anos da criação da Freguesia da Golpilheira
Pela Lei n.º 37/84, de 31 de Dezembro, foi criada a Freguesia da Golpilheira no concelho da Batalha, cujo primeiro dia de existência "oficial" foi o 1 de Janeiro de 1985, há 25 anos.Segundo o artigo 2.º dessa lei: "Os limites da nova freguesia, conforme representação cartográfica anexa, são: ao começar no lugar da Quinta de São Sebastião, ou seja, do lado nascente para norte, continua até à Vala do Moinho de São João, proximidades da Quinta da Serrada com o limite do concelho de Leiria, devidamente demarcado por estradas, serventias e ribeiro; a partir do Moinho de São João, passa pela estrada camarária até à estrada nacional n.º 1, atravessando-a e seguindo por uma serventia pública até ao rio Lena, continuando por este até um pouco acima do Casal da Ponte de Almagra, onde desagua o ribeiro do Carvalho; segue por este até à sua nascente (proximidades a norte do Casal do Alho), seguindo em recta por serventia de fazendas até ao ribeiro Agudo, que passa a poente do lugar de Bico-Sacho, seguindo por este até à sua nascente, a qual continua com a Quinta de São Sebastião, acima referida."
O artigo 3.º definia que deveria ser criada uma "comissão instaladora da nova freguesia", a nomear pela Assembleia Municipal da Batalha, constituída por: "1 representante da Câmara Municipal da Batalha; 1 representante da Assembleia Municipal da Batalha; 1 representante da Assembleia de Freguesia da Batalha; 1 representante da Junta de Freguesia da Batalha; 5 cidadãos eleitores designados de acordo com o n.º 3 do artigo 10.º da Lei n.º 11/82".
Nos artigos seguintes determinava-se que "a comissão instaladora exercerá funções até à tomada de posse dos órgãos autárquicos da nova freguesia", cujas eleições "realizar-se-ão na data das primeiras eleições autárquicas gerais posteriores à entrada em vigor da presente lei".
Finalmente, o artigo 6.º referia que "a presente lei entra em vigor em 1 de Janeiro de 1985".
A lei foi aprovada em 30 de Novembro de 1984, promulgada em 29 de Dezembro de 1984, com assinatura do Presidente da República, António Ramalho Eanes, referendada em 29 de Dezembro de 1984, com assinaturas do primeiro-ministro, Mário Soares, e do presidente da Assembleia da República, Fernando Monteiro do Amaral. E foi publicada no Diário da República – I SÉRIE – N.º 301 – 31 de Dezembro de 1984.
Actualmente
É, assim, a mais recente freguesia do concelho da Batalha, no distrito de Leiria. Mantendo quase inalteradas as fronteiras então definidas, o seu território ocupa pouco mais de 490 hectares, cujo centro dista cerca de 3 km da sede de Concelho e 8 km da sede de Distrito.
Habitada desde tempos imemoriais por povos das mais diversas civilizações, esta terra começa a ser nomeada logo nos primeiros documentos da constituição da nacionalidade portuguesa, como lugar aprazível para viver e cultivar. Estende-se ao longo do fértil vale do Lena, com vista aberta sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, cuja construção terá sido um dos motores do seu crescimento populacional durante a Idade Média.
É hoje o "lar" de cerca de 1800 habitantes, cujo dinamismo social é amplamente reconhecido e faz jus ao legado histórico dos seus antepassados.
O seu nome deriva do termo latino vulpes, que significa "raposa".
Abaixo publicamos as fotos dos membros dos vários executivos da Junta de Freguesia, desde a sua criação até hoje, pela ordem de presidente, secretário e tesoureiro:
Pedro Menezes Monteiro
Joaquim Vieira Fernandes
José Moreira Filipe
José Moreira Filipe
Fernando Monteiro Bagagem
Luís Sousa Guerra
1993-1997José Moreira Filipe
Fernando Monteiro Bagagem
Mário de Sousa Videira
1997-2001
José Moreira Filipe
José Guerra da Silva
José Lucas Ferreira
José Moreira Filipe
José Guerra da Silva
José dos Santos Silva
2005-2009
Carlos Alberto Monteiro Santos
José Guerra da Silva
José dos Santos Silva
Actual
Carlos Alberto Monteiro Santos
José Santos Silva
Maria de Fátima Carreira de Sousa
Janeiras e Reis ouviram-se na Golpilheira
Tradições que se recordam
Embora já não se sinta a tradição com o peso de décadas passadas, há ainda sinais de que ela é lembrada por alguns grupos. Um dos mais importantes é o das crianças, pois é por elas que se garante a continuidade da memória colectiva. Assim, é de louvar a iniciativa do nosso Jardim-de-Infância que vestiu os meninos a rigor (de reis) e os levou à rua a cantar as Janeiras ou os Reis, como também se usa, por esta altura do início do ano.
Fomos encontrá-los muito bem dispostos e cheios de genica a cantar no bar do CRG, felizes por verem uma audiência atenta, interessada e sorridente. E também por receberem no fim um docinho.
Também na fria noite de 9 de Janeiro fomos surpreendidos por um grupo de escuteiros de Leiria, a cantar as Janeiras à porta de casa. Além de reavivar tradições, é também um modo de angariar algumas receitas para as suas actividades.
Uma nota especial vai para o Grupo de Cantares do Planalto de São Mamede, que andou a cantar pelo Concelho. A iniciativa, que mantêm desde há alguns anos, pretende "anunciar à população da vila um feliz Ano Novo", ao mesmo tempo que "representa o trabalho e esforço de várias dezenas de jovens de São Mamede na defesa da cultura e das tradições desta região". Tem também uma vertente solidária, pois os donativos recolhidos serão distribuídos em géneros alimentícios pelas famílias carenciadas da freguesia de São Mamede, por altura da Páscoa.
Assim, vieram no dia 22 de Janeiro dar dos votos de bom ano aos autarcas e funcionários do Município da Batalha e, no dia seguinte, visitaram a população Reguengo do Fetal e da Golpilheira.
Os cerca de trinta elementos chegaram ao nosso Centro Recreativo pelas 21h00, vestidos a rigor e com alguns acessórios típicos do povo serrano de antigamente. Formaram coro dentro do bar da colectividade e cantaram meia dúzia de músicas alusivas às boas festas e aos Reis, sendo muito aplaudidos por outros tantos ouvintes. Sobretudo depois do verso: "Vimos cantar as Janeiras / Aos lugares da Freguesia / Se não tendes que nos dar / Acolhei-nos com alegria!".
Mas havia "algo" para lhes dar... por isso, ficaram mais algum tempo connosco num beberete de convívio, pois alguns elementos do nosso rancho folclórico fizeram questão de preparar uma mesa de petiscos e bebidas para acolher devidamente o grupo visitante.
Luis Miguel Ferraz
Janeiras
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura
A tradição
O canto das Janeiras é uma antiga tradição portuguesa que consiste na reunião de grupos que se passeiam pelas ruas no início do ano, cantando de porta em porta e desejando às pessoas um feliz ano novo. Este mês era dedicado pelos romanos ao deus Jano (em latim: porta, entrada), que era o porteiro dos Céus e por isso fundamental para a protecção contra os espíritos maus que ameaçavam o ano.
Era tradição que os romanos se saudassem em sua honra no começar de um novo ano e daí derivam as Janeiras. A tradição mais ou menos geral é que grupos de amigos ou vizinhos se juntem, com ou sem instrumentos (no caso de os haver são mais comuns os folclóricos: pandeireta, bombo, flauta, viola, etc.) e percorram as ruas, de casa em casa. Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos tragam as janeiras (castanhas, nozes, maçãs, chouriço, morcela, etc.) Por comodidade, é hoje costume dar-se dinheiro, embora não seja essa a tradição. No fim da caminhada, o grupo reúne-se e divide o resultado, ou então, comem aquilo que receberam.
As músicas utilizadas são por norma conhecidas, embora haja letras diferentes em cada terra. Uma das mais famosas é que reproduzimos ao lado.
O cantar dos Reis é também uma antiga tradição antiga, muitas vezes cruzada com esta, mas que parece ter raízes algo diferentes. No dia de Reis, 6 de Janeiro, os "reiseiros" agrupavam-se para as celebrações conforme a categoria profissional (caixeiros, limpadores de chaminés, feirantes, instrumentistas, doutores, moradores e até estrangeiros). Durante a noite, percorriam as ruas dançando e tocando em procissões e cantavam às portas das casas. Em 1882, pelos Reis, há noticia de que "nas ruas da cidade arruavam zabumbas, ferrinhos e as gaitas-de foles anazaladas, exclusivas dos carrejões galegos". Durante as celebrações, tinha ainda lugar uma pantomina e uma espécie de Auto dos Reis.
(Alguns dados retirados de http://pt.wikipedia.org)
Embora já não se sinta a tradição com o peso de décadas passadas, há ainda sinais de que ela é lembrada por alguns grupos. Um dos mais importantes é o das crianças, pois é por elas que se garante a continuidade da memória colectiva. Assim, é de louvar a iniciativa do nosso Jardim-de-Infância que vestiu os meninos a rigor (de reis) e os levou à rua a cantar as Janeiras ou os Reis, como também se usa, por esta altura do início do ano.
Fomos encontrá-los muito bem dispostos e cheios de genica a cantar no bar do CRG, felizes por verem uma audiência atenta, interessada e sorridente. E também por receberem no fim um docinho.
Também na fria noite de 9 de Janeiro fomos surpreendidos por um grupo de escuteiros de Leiria, a cantar as Janeiras à porta de casa. Além de reavivar tradições, é também um modo de angariar algumas receitas para as suas actividades.
Uma nota especial vai para o Grupo de Cantares do Planalto de São Mamede, que andou a cantar pelo Concelho. A iniciativa, que mantêm desde há alguns anos, pretende "anunciar à população da vila um feliz Ano Novo", ao mesmo tempo que "representa o trabalho e esforço de várias dezenas de jovens de São Mamede na defesa da cultura e das tradições desta região". Tem também uma vertente solidária, pois os donativos recolhidos serão distribuídos em géneros alimentícios pelas famílias carenciadas da freguesia de São Mamede, por altura da Páscoa.
Assim, vieram no dia 22 de Janeiro dar dos votos de bom ano aos autarcas e funcionários do Município da Batalha e, no dia seguinte, visitaram a população Reguengo do Fetal e da Golpilheira.
Os cerca de trinta elementos chegaram ao nosso Centro Recreativo pelas 21h00, vestidos a rigor e com alguns acessórios típicos do povo serrano de antigamente. Formaram coro dentro do bar da colectividade e cantaram meia dúzia de músicas alusivas às boas festas e aos Reis, sendo muito aplaudidos por outros tantos ouvintes. Sobretudo depois do verso: "Vimos cantar as Janeiras / Aos lugares da Freguesia / Se não tendes que nos dar / Acolhei-nos com alegria!".
Mas havia "algo" para lhes dar... por isso, ficaram mais algum tempo connosco num beberete de convívio, pois alguns elementos do nosso rancho folclórico fizeram questão de preparar uma mesa de petiscos e bebidas para acolher devidamente o grupo visitante.
Luis Miguel Ferraz
Janeiras
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura
A tradição
O canto das Janeiras é uma antiga tradição portuguesa que consiste na reunião de grupos que se passeiam pelas ruas no início do ano, cantando de porta em porta e desejando às pessoas um feliz ano novo. Este mês era dedicado pelos romanos ao deus Jano (em latim: porta, entrada), que era o porteiro dos Céus e por isso fundamental para a protecção contra os espíritos maus que ameaçavam o ano.
Era tradição que os romanos se saudassem em sua honra no começar de um novo ano e daí derivam as Janeiras. A tradição mais ou menos geral é que grupos de amigos ou vizinhos se juntem, com ou sem instrumentos (no caso de os haver são mais comuns os folclóricos: pandeireta, bombo, flauta, viola, etc.) e percorram as ruas, de casa em casa. Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos tragam as janeiras (castanhas, nozes, maçãs, chouriço, morcela, etc.) Por comodidade, é hoje costume dar-se dinheiro, embora não seja essa a tradição. No fim da caminhada, o grupo reúne-se e divide o resultado, ou então, comem aquilo que receberam.
As músicas utilizadas são por norma conhecidas, embora haja letras diferentes em cada terra. Uma das mais famosas é que reproduzimos ao lado.
O cantar dos Reis é também uma antiga tradição antiga, muitas vezes cruzada com esta, mas que parece ter raízes algo diferentes. No dia de Reis, 6 de Janeiro, os "reiseiros" agrupavam-se para as celebrações conforme a categoria profissional (caixeiros, limpadores de chaminés, feirantes, instrumentistas, doutores, moradores e até estrangeiros). Durante a noite, percorriam as ruas dançando e tocando em procissões e cantavam às portas das casas. Em 1882, pelos Reis, há noticia de que "nas ruas da cidade arruavam zabumbas, ferrinhos e as gaitas-de foles anazaladas, exclusivas dos carrejões galegos". Durante as celebrações, tinha ainda lugar uma pantomina e uma espécie de Auto dos Reis.
(Alguns dados retirados de http://pt.wikipedia.org)
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