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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Apresentação do livro “Golpilheira Medieval” de Saul de Gomes

Casa cheia em tarde cultural na Golpilheira

Cerca de 350 pessoas encheram o salão de festas do Centro Recreativo da Golpilheira (CRG), no passado dia 7 de Fevereiro, na apresentação pública da obra “Golpilheira Medieval – Documentos Históricos”, do doutor Saul António Gomes. Inserida nas comemorações dos 25 anos da criação desta freguesia, a obra foi editada em parceria pelo Jornal da Golpilheira e a Câmara Municipal da Batalha, apresentando uma recolha de 113 documentos, sobretudo da época Medieval, onde se espelha o percurso histórico da localidade, conhecida primeiramente por Alpentende e, a partir dos finais do século XIII, pelo nome de Golpilheira.
A sessão de apresentação foi, assim, uma verdadeira tarde cultural, em que o autor da obra dissertou sobre essa história remota do território, que considerou “uma das mais antigas regiões habitadas de toda a região, e de grande centralidade”. A conclusão sobre a sua riqueza histórica, que pode retirar-se a partir dos vestígios remotos e, de igual forma, desta colectânea documental, “contrasta com a ausência de qualquer rasto desse património na actualidade”, referiu Saul Gomes, lamentando que num périplo recente pela freguesia não tenha encontrado qualquer vestígio de construções ou outros elementos referidos nos documentos, mesmo já dos séculos XVIII e XIX. A este propósito, defendeu que “o pelouro da protecção do património deveria ser atribuído às autarquias locais, pois a centralidade desses serviços tem levado ao desaparecimento de muitos monumentos que a nível nacional são descurados, mas que são autênticas pérolas a preservar para a história das populações onde se encontram”.
Segundo Luís Miguel Ferraz, director do Jornal da Golpilheira, “a preservação da memória colectiva, como contributo para a construção da identidade cultural das gentes desta região” foi o principal objectivo desta publicação. “Devemos ver a história, não como um conjunto de matérias enterradas no passado, mas como fonte de leitura para a realidade presente e mesmo como fonte de inspiração para a construção do futuro”, salientou.
Também o presidente da Câmara da Batalha, António Lucas, referiu a importância deste tipo de iniciativas, “que a autarquia tem sempre o cuidado de apoiar, como sinal da sua forte aposta na cultura como pilar do desenvolvimento local”. Salientando alguns aspectos do dinamismo actual desta freguesia, a mais recente do concelho da Batalha, o autarca dedicou a edição do livro aos golpilheirenses, elogiando como exemplar a numerosa adesão da população a um evento deste género.
A sessão contou com animação musical de Jorge Humberto, professor de música no CRG, e do rancho folclórico “As Lavadeiras do Vale do Lena”, da mesma colectividade, e terminou com um beberete oferecido pela Junta de Freguesia local.
O livro está à venda no Centro Recreativo da Golpilheira, na Junta de Freguesia da Golpilheira e nas livrarias da região. Pode também ser encomendado pelo email geral@jornaldagolpilheira.com.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Apresentação da obra "Golpilheira Medieval"

A obra "Golpilheira Medieval – Documentos Históricos", do historiador Saul Gomes, está pronta e irá ser apresentada ao público no próximo dia 7 de Fevereiro, domingo, pelas 15h30, no Centro Recreativo.
O convite está feito a toda a população e aos amigos que quiserem juntar-se a nós.
A edição do livro e esta sessão inserem-se no âmbito das comemorações dos 25 anos da criação da Freguesia. Teremos ocasião de conhecer melhor o autor e o conteúdo da obra, bem como de a adquirir em condições muito especiais neste dia.
Será ainda um momento recheado de animação musical, com a colaboração de Jorge Humberto, professor da Escola de Música do CRG, e do nosso rancho folclórico "As Lavadeiras do Vale do Lena".
No final, todos estão também convidados para um beberete, gentilmente oferecido pela Junta de Freguesia da Golpilheira.

25 anos da criação da Freguesia da Golpilheira

Pela Lei n.º 37/84, de 31 de Dezembro, foi criada a Freguesia da Golpilheira no concelho da Batalha, cujo primeiro dia de existência "oficial" foi o 1 de Janeiro de 1985, há 25 anos.
Segundo o artigo 2.º dessa lei: "Os limites da nova freguesia, conforme representação cartográfica anexa, são: ao começar no lugar da Quinta de São Sebastião, ou seja, do lado nascente para norte, continua até à Vala do Moinho de São João, proximidades da Quinta da Serrada com o limite do concelho de Leiria, devidamente demarcado por estradas, serventias e ribeiro; a partir do Moinho de São João, passa pela estrada camarária até à estrada nacional n.º 1, atravessando-a e seguindo por uma serventia pública até ao rio Lena, continuando por este até um pouco acima do Casal da Ponte de Almagra, onde desagua o ribeiro do Carvalho; segue por este até à sua nascente (proximidades a norte do Casal do Alho), seguindo em recta por serventia de fazendas até ao ribeiro Agudo, que passa a poente do lugar de Bico-Sacho, seguindo por este até à sua nascente, a qual continua com a Quinta de São Sebastião, acima referida."
O artigo 3.º definia que deveria ser criada uma "comissão instaladora da nova freguesia", a nomear pela Assembleia Municipal da Batalha, constituída por: "1 representante da Câmara Municipal da Batalha; 1 representante da Assembleia Municipal da Batalha; 1 representante da Assembleia de Freguesia da Batalha; 1 representante da Junta de Freguesia da Batalha; 5 cidadãos eleitores designados de acordo com o n.º 3 do artigo 10.º da Lei n.º 11/82".
Nos artigos seguintes determinava-se que "a comissão instaladora exercerá funções até à tomada de posse dos órgãos autárquicos da nova freguesia", cujas eleições "realizar-se-ão na data das primeiras eleições autárquicas gerais posteriores à entrada em vigor da presente lei".
Finalmente, o artigo 6.º referia que "a presente lei entra em vigor em 1 de Janeiro de 1985".
A lei foi aprovada em 30 de Novembro de 1984, promulgada em 29 de Dezembro de 1984, com assinatura do Presidente da República, António Ramalho Eanes, referendada em 29 de Dezembro de 1984, com assinaturas do primeiro-ministro, Mário Soares, e do presidente da Assembleia da República, Fernando Monteiro do Amaral. E foi publicada no Diário da República – I SÉRIE – N.º 301 – 31 de Dezembro de 1984.

Actualmente
É, assim, a mais recente freguesia do concelho da Batalha, no distrito de Leiria. Mantendo quase inalteradas as fronteiras então definidas, o seu território ocupa pouco mais de 490 hectares, cujo centro dista cerca de 3 km da sede de Concelho e 8 km da sede de Distrito.
Habitada desde tempos imemoriais por povos das mais diversas civilizações, esta terra começa a ser nomeada logo nos primeiros documentos da constituição da nacionalidade portuguesa, como lugar aprazível para viver e cultivar. Estende-se ao longo do fértil vale do Lena, com vista aberta sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, cuja construção terá sido um dos motores do seu crescimento populacional durante a Idade Média.
É hoje o "lar" de cerca de 1800 habitantes, cujo dinamismo social é amplamente reconhecido e faz jus ao legado histórico dos seus antepassados.
O seu nome deriva do termo latino vulpes, que significa "raposa".


Abaixo publicamos as fotos dos membros dos vários executivos da Junta de Freguesia, desde a sua criação até hoje, pela ordem de presidente, secretário e tesoureiro:


1985-1989
Pedro Menezes Monteiro
Joaquim Vieira Fernandes
José Moreira Filipe



1989-1993
José Moreira Filipe
Fernando Monteiro Bagagem
Luís Sousa Guerra



1993-1997
José Moreira Filipe
Fernando Monteiro Bagagem
Mário de Sousa Videira



1997-2001
José Moreira Filipe
José Guerra da Silva
José Lucas Ferreira




2001-2005
José Moreira Filipe
José Guerra da Silva
José dos Santos Silva



2005-2009
Carlos Alberto Monteiro Santos
José Guerra da Silva
José dos Santos Silva



Actual
Carlos Alberto Monteiro Santos
José Santos Silva
Maria de Fátima Carreira de Sousa




Janeiras e Reis ouviram-se na Golpilheira

Tradições que se recordam

Embora já não se sinta a tradição com o peso de décadas passadas, há ainda sinais de que ela é lembrada por alguns grupos. Um dos mais importantes é o das crianças, pois é por elas que se garante a continuidade da memória colectiva. Assim, é de louvar a iniciativa do nosso Jardim-de-Infância que vestiu os meninos a rigor (de reis) e os levou à rua a cantar as Janeiras ou os Reis, como também se usa, por esta altura do início do ano.
Fomos encontrá-los muito bem dispostos e cheios de genica a cantar no bar do CRG, felizes por verem uma audiência atenta, interessada e sorridente. E também por receberem no fim um docinho.
Também na fria noite de 9 de Janeiro fomos surpreendidos por um grupo de escuteiros de Leiria, a cantar as Janeiras à porta de casa. Além de reavivar tradições, é também um modo de angariar algumas receitas para as suas actividades.
Uma nota especial vai para o Grupo de Cantares do Planalto de São Mamede, que andou a cantar pelo Concelho. A iniciativa, que mantêm desde há alguns anos, pretende "anunciar à população da vila um feliz Ano Novo", ao mesmo tempo que "representa o trabalho e esforço de várias dezenas de jovens de São Mamede na defesa da cultura e das tradições desta região". Tem também uma vertente solidária, pois os donativos recolhidos serão distribuídos em géneros alimentícios pelas famílias carenciadas da freguesia de São Mamede, por altura da Páscoa.
Assim, vieram no dia 22 de Janeiro dar dos votos de bom ano aos autarcas e funcionários do Município da Batalha e, no dia seguinte, visitaram a população Reguengo do Fetal e da Golpilheira.
Os cerca de trinta elementos chegaram ao nosso Centro Recreativo pelas 21h00, vestidos a rigor e com alguns acessórios típicos do povo serrano de antigamente. Formaram coro dentro do bar da colectividade e cantaram meia dúzia de músicas alusivas às boas festas e aos Reis, sendo muito aplaudidos por outros tantos ouvintes. Sobretudo depois do verso: "Vimos cantar as Janeiras / Aos lugares da Freguesia / Se não tendes que nos dar / Acolhei-nos com alegria!".
Mas havia "algo" para lhes dar... por isso, ficaram mais algum tempo connosco num beberete de convívio, pois alguns elementos do nosso rancho folclórico fizeram questão de preparar uma mesa de petiscos e bebidas para acolher devidamente o grupo visitante.
Luis Miguel Ferraz

Janeiras
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura


A tradição
O canto das Janeiras é uma antiga tradição portuguesa que consiste na reunião de grupos que se passeiam pelas ruas no início do ano, cantando de porta em porta e desejando às pessoas um feliz ano novo. Este mês era dedicado pelos romanos ao deus Jano (em latim: porta, entrada), que era o porteiro dos Céus e por isso fundamental para a protecção contra os espíritos maus que ameaçavam o ano.
Era tradição que os romanos se saudassem em sua honra no começar de um novo ano e daí derivam as Janeiras. A tradição mais ou menos geral é que grupos de amigos ou vizinhos se juntem, com ou sem instrumentos (no caso de os haver são mais comuns os folclóricos: pandeireta, bombo, flauta, viola, etc.) e percorram as ruas, de casa em casa. Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos tragam as janeiras (castanhas, nozes, maçãs, chouriço, morcela, etc.) Por comodidade, é hoje costume dar-se dinheiro, embora não seja essa a tradição. No fim da caminhada, o grupo reúne-se e divide o resultado, ou então, comem aquilo que receberam.
As músicas utilizadas são por norma conhecidas, embora haja letras diferentes em cada terra. Uma das mais famosas é que reproduzimos ao lado.
O cantar dos Reis é também uma antiga tradição antiga, muitas vezes cruzada com esta, mas que parece ter raízes algo diferentes. No dia de Reis, 6 de Janeiro, os "reiseiros" agrupavam-se para as celebrações conforme a categoria profissional (caixeiros, limpadores de chaminés, feirantes, instrumentistas, doutores, moradores e até estrangeiros). Durante a noite, percorriam as ruas dançando e tocando em procissões e cantavam às portas das casas. Em 1882, pelos Reis, há noticia de que "nas ruas da cidade arruavam zabumbas, ferrinhos e as gaitas-de foles anazaladas, exclusivas dos carrejões galegos". Durante as celebrações, tinha ainda lugar uma pantomina e uma espécie de Auto dos Reis.
(Alguns dados retirados de http://pt.wikipedia.org)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Livro : "Golpilheira - Documentos Históricos"

Autor: Saul António Gomes
Edição: Jornal da Golpilheira Câmara da Batalha

Nas comemorações dos 25 anos da criação da Freguesia da Golpilheira, o Jornal da Golpilheira orgulha-se de ter pronta a editar uma obra que pretende ser referência cultural de vulto.
Com a prestimosa autoria de Saul António Gomes, "Golpilheira Medieval – Documentos Históricos" reúne 113 documentos que retratam quase exaustivamente tudo o que é possível saber-se sobre a história da nossa terra, desde os princípios da nacionalidade (Doc. 1 – 1142 [s.m, s. d., s. l.] — Excerto da carta de foral dado aos homens de Leiria, pelo rei D. Afonso Henriques) até aos princípios do século XIX (Doc. 113 – 1809-1813 [Capela de S. Bento da Cividade ou Batalha] — Contas da Confraria dos Defuntos do Furadouro relativas ao período, coincidente com as Invasões Francesas, dos anos de 1808 a 1812).
A sábia interpretação que o ilustre historiador faz na sua introdução à publicação documental constitui uma inestimável leitura desse peregrinar histórico de um povo que se foi estabelecendo no frondoso e fértil vale do Lena, desde as primeiras famílias de nobres que procuravam a posse dos terrenos mais preciosos do Reino até ao aglomerado populacional constituído pelos antepassados directos das actuais famílias.
Será um livro de grande formato, em capa dura e encadernação de luxo, profusamente ilustrado com imagens, mapas e fotografias do património, paisagens e outros elementos da nossa identidade.

Precisamos do seu apoio!
Esta publicação só será possível, no entanto, com o apoio de mecenas e instituições que acreditem, tanto quanto nós, no seu valor e pertinência. Instituições que acreditem no momento histórico que constituirá esta edição e que nela queiram incluir a sua marca.
Por isso, fazemos o apelo às empresas e outras instituições que queiram patrocinar este projecto a contactarem-nos com a máxima brevidade!
Na próxima edição apresentaremos os pormenores desta edição e da respectiva festa de apresentação, que esperamos organizar próximo da data comemorativa dos 25 anos da Freguesia (31 de Dezembro).

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

16.ª Semana Cultural da Golpilheira

Almoço dos Amigos foi momento alto

Decorreu de 18 a 25 de Outubro a 16.ª edição da Semana Cultural organizada pelo Centro Recreativo da Golpilheira. Esta iniciativa pretende mexer cada vez mais com a nossa freguesia. Embora nem em todos os dias tivesse havido a mesma adesão, podemos afirmar que movimentou mais de mil pessoas, o que não é mau. O modelo e os temas nela abordados foram postos em causa no debate político do dia 5 de Outubro. A direcção do CRG está disponível em aceitar ideias para as iniciativas do próximo ano.

O almoço oferecido aos “jovens da terceira idade”, no dia 18, foi um sucesso. Estiveram presentes cerca de 200 pessoas. Foi uma tarde de felicidade para muitos que passam muito tempo sozinhos. A tocata do rancho folclórico “As Lavadeiras do Vale do Lena” do CRG também contribuiu em muito para esta tarde de felicidade e animação.

Na segunda-feira, dia 19, a sessão de cinema infantil teve a presença de mais de cem crianças e muitos pais. Para além do filme, houve pipocas e balões para as crianças.

Na terça-feira, dia 20, o colóquio sobre Saúde, mais concretamente sobre a “Gripem A”, orientado pelo Dr. Victor de Sousa, Delegado de Saúde da Batalha, também foi muito participado. Nunca é de mais falar e esclarecer sobre os cuidados a ter com esta doença. No final, estabeleceu-se um diálogo interessante entre os presentes e o médico, que a todos esclareceu.

Na quarta-feira, dia 21, foi a apresentação da peça de teatro “O Rei Tadinho”, interpretada por actores amadores, mas com muito boa qualidade, aliás demonstrada pelos aplausos do público no final.

No dia 22, quinta-feira, teve lugar a sessão de cinema para adultos. Foi talvez o dia em que a presença de público foi menor. No entanto, os que estiveram presentes viram o filme com muita atenção, reagindo positivamente à sua parte cómica.

Sexta-feira, dia 23, o “Golpilheira Fashion 2009” voltou a ser um sucesso, em que a estilista golpilheirense Fátima Cruz apresentou as suas criações para o Outono/Inverno 2009/2010.
Anualmente realizado nesta altura, o desfile voltou a registar a grande afluência de público que encheu o salão da colectividade, vindo também de fora da freguesia, para apreciar uma noite de especial beleza e glamour. As modelos, várias delas naturais da Golpilheira, desfilaram com elegância seis tipos de conjuntos, desde as mais desportivas e casuais gangas, passando por várias propostas de trajes de dia, tanto numa nota clássica, como em combinações mais ousadas, até aos mais sofisticados e arrojados vestidos de noite.
Este ano, registou-se a associação das Sapatarias Inês Ferreira, do empresário Carlos Ferreira, também natural da Golpilheira, que patrocinou o calçado e as malas usadas pelas modelos na passarela. Também nestes adereços foi visível uma grande variedade de opções, com propostas para os gostos mais clássicos e para quem prefere as últimas novidades do mercado.
Uma nota também para a colaboração nos penteados, a cargo de Hairbox – Diogo Cabeleireiros, e para a maquilhagem feita por Dora, Valéria, Eliane e Fátima, formandas pelo IEFP na Tecnitalentos – Escola Profissional de Estética, que contribuíram também para o brilho desta noite de moda na Golpilheira.
O público aplaudiu os estilistas, modelos e organizadores e ficou com uma boa imagem das tendências para esta estação. Tanto em relação às roupas como ao calçado e adereços, é muito fácil a aquisição, já que Fátima Cruz e as Sapatarias Inês Ferreira têm lojas no centro da vila da Batalha, para além de outros pontos de venda no País.

No sábado, dia 24, foi a vez do arraial popular, junto à nossa sede. Abrilhantado pelo rancho folclórico “As Lavadeiras do Vale do Lena”, não faltou a boa água-pé e vinho, para acompanhar a bela sardinha assada, morcela, tirinhas e febras. O pão e a broa completavam este petisco.

Dia 25, domingo, foi o encerramento da Semana Cultural, com mais um “Almoço dos Amigos do CRG”. E muitos foram aqueles que marcaram presença, cerca de 450. A tarde foi de convívio e de algumas homenagens, primeiro a Joaquim da Silva Jorge, depois às atletas de futsal feminino (ver abaixo).
O ambiente criado no salão de festas foi grandioso, relembrando tempos antigos. É esta massa humana que faz da nossa associação uma grande colectividade, a nível do nosso concelho e distrito. Queremos ser cada vez mais e melhores, trabalhando tanto em prol da nossa juventude como dos nossos idosos. Unidos conseguiremos construir um futuro cada vez melhor. Este futuro está já ali, mas é preciso em conjunto conseguirmos prepará-lo. Foi num autêntico clima de cordialidade que terminou com chave de ouro a esta 16.ª Semana Cultural.


Homenagem a Joaquim Jorge (“Serralheiro”)
Para um homem que nasceu no século XIX e viveu muitos anos do século XX, teve nesta primeira década do século XXI uma justa homenagem pública, da qual todos os presentes no Almoço dos Amigos foram testemunhas. Foi descerrada uma placa com a sua imagem no Quadro de Honra da colectividade e lido o seguinte texto:
Joaquim da Silva Jorge nasceu na nossa humilde aldeia, nos finais do século XIX, filho de Manuel da Silva Jorge e de Maria Vicência Serralheiro. Casou com Emília Monteiro, de cujo casamento nasceram quatro filhos (João, Noémia, Joaquim e Manuel). Cedo se começou a dedicar à agricultura, conciliando esta com a arte de sapateiro. Especialista em botas de cano alto, as quais executava com muita arte e perfeição, sendo por isso muito requisitado pela alta nobreza e profissionais que usavam este tipo de calçado. Destacavam-se aqui os oficiais do Exército da altura. Homem simples, culto e honesto, desenvolveu ainda a arte de destilaria, tanto de vinho como de bagaço de uva. Teve ainda um pequeno comércio misto, muito usual na altura, composto de mercearia e taberna.
No entanto, foi no início dos anos 60 que este homem teve um papel crucial para a grandeza que o Centro Recreativo da Golpilheira atingiu hoje. Foi numa sala que ele generosamente cedeu, até porque era um homem amante da cultura, que se colocou uma televisão adquirida a crédito por alguns aventureiros. Podemos afirmar que foi nesta sala que nasceu a nossa colectividade. Com a aquisição da televisão e a cedência do local para se poder ver, criaram-se algumas regras, que criavam uma associação. Esta começou a crescer, a ter sócios que pagavam cinco escudos por mês, beneficiando assim a família de cada sócio desta caixa que iria mudar o mundo.
Com certeza que não estava na mente daquelas pessoas, que contribuíram para que a televisão chegasse ao povo, que passados estes anos a nossa colectividade tivesse a grandeza que hoje tem. Foi um pequeno gesto do senhor Joaquim, mas um grande contributo, que tem funcionado como fermento e catalisador, para o crescimento sustentado da nossa associação, ao longo de mais de 40 anos de existência.
Onde quer que esteja a ver-nos, está sorridente e feliz, por esta simples, mas merecida homenagem que lhe estamos a fazer.


Homenagem às equipas de futsal feminino
No final do almoço, foram ainda homenageadas as equipas de futsal feminino júnior e sénior, directores, equipa técnica e massagistas. Vencedoras de vários campeonatos e taças, até a nível nacional, ambas receberam as medalhas e troféus de campeãs distritais 2008/2009, vencedoras das taças distritais e da super-taça distrital.
O presidente da colectividade leu o seguinte texto:
Em nome da direcção do CRG, quero agradecer a todas as atletas que trabalharam a época passada, continuam a trabalhar nesta, com a integração de novas atletas, tanto na equipa júnior como sénior. É um trabalho pelo qual temos muito apreço, uma vez que para se apresentarem em boas condições nos jogos, muito trabalham durante a semana, e muitas vezes em condições difíceis. É com todo este trabalho que defendem e prestigiam as cores do nosso clube, o que muito nos orgulha. Não é por obra do ocaso que somos na AFL uma referência no futsal feminino, e penso que mais não fazemos devido à dificuldade na utilização dos pavilhões.
Este agradecimento é também extensivo, como não podia deixar de ser, à nossa treinadora, a professora Teresa Jordão, e à restante equipa técnica, outros colaboradores, directores e massagistas. Não podemos também esquecer o apoio possível que a Câmara Municipal da Batalha, Junta de Freguesia da Golpilheira, Associação de Futebol de Leiria e também alguns patrocinadores nos têm proporcionado. Também aqui o público e apoiantes fiéis merecem o nosso aplauso. No entanto, era bom que aparecessem cada vez mais adeptos e simpatizantes. Devemos mobilizar-nos para estas atletas sentirem cada vez mais o nosso apoio. Se o pavilhão fosse aqui encostado à nossa sede, era bastante mais fácil. Pensamos que para que esta realidade aconteça já não falta muito.
Temos nestas duas equipas algumas atletas já com algum curriculum, como passamos a indicar: cinco atletas na Selecção Distrital de Futsal Feminino Sub 19 (Carolina Silva, Inês Cruz, Jéssica Santos, Jéssica Pedreiras e Joana Manha), duas na Selecção Nacional Futebol 11 Sub 19 (Carolina Silva e Inês Cruz), na época de 2008/2009 recebemos o prémio de Melhor Jogadora Futsal Sénior AFL (Liliana Salema) e de Melhor Treinadora de Futsal Feminino AFL (Teresa Jordão).
Voto de Louvor da Câmara Municipal : Recebemos ainda a distinção da Câmara da Batalha, que nos enviou o seguinte ofício de 19-10-09: “Considerando o percurso brilhante e trabalho desenvolvido na modalidade de Futsal Feminino que mereceu a distinção e homenagem na última Gala do Futebol Distrital, promovida pela Associação de Futebol de Leiria, entendeu o executivo do Município da Batalha, em sua reunião de 1 de Outubro, atribuir um Voto de Louvor à treinadora Teresa Jordão e à atleta Liliana Salema, conforme cópia da acta que anexamos”.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Portugal, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e o 624.º aniversário da Batalha Real de Aljubarrota


Alocução proferida no dia 14 de Agosto de 2009, na Capela de Fundador do Mosteiro da Batalha

Por Saul António Gomes


“Abriu em pedra o grito imenso do seu peito
Tornou arquitectura a épica ansiedade!”
João de Barros, poema “O Povo”,
in Vida Vitoriosa (1919)



O uso da palavra, por mim, nesta ocasião tão solene em que comemoramos o seiscentésimo vigésimo quarto aniversário da Batalha Real de Aljubarrota, justifica-se pelo amável convite que me foi dirigido pelo Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal da Batalha, o qual penhoradamente agradeço.
É convite honroso que não poderia declinar, mas para cujo cumprimento não possuo o saber, sequer a arte e a inspiração de bem escrever que se exige para perorar sobre o acontecimento histórico que nos reúne neste lugar. Substitua, no entanto, a árida palavra do historiador o verso elegíaco do poeta.
Este é o alvo templo da memória portuguesa, em cujo seio, no silêncio finito que se respira nesta Capela do Fundador, no passar dos dias que são séculos, nos confrontamos permanentemente com a questão pátria, com a questão do sentido, ontem e hoje, da pátria portuguesa, no tempo histórico mas também cósmico que Santo Agostinho procurou aprisionar na metáfora dos três presentes: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro.
É sobretudo em torno desses dois presentes, o presente do passado e o nosso presente que gostaria de incidir nesta breve alocução ou elegia que tenho o privilégio de proferir perante vós.
Reis e ínclitos infantes repousam nesta Capela cujos nomes a História não esqueceu nunca e que todas as gerações de portugueses sempre aprenderam a recordar e a venerar. A alguns destes príncipes de Portugal devemos monumentos literários fundadores da própria língua que é a primeira pátria em que nascemos e somos educados. D. João I, D. Duarte, o Infante D. Pedro valorizaram prioritariamente o português como língua de criação artística e, no seu perfil de habitantes de uma Europa que cultivava as humaniores litterae, nunca sobrepuseram à palavra portuguesa a declinação latina.
Importa confessar, ainda, que o elogio das armas portuguesas que derrotaram a soberba castelhana naquela distante tarde de 14 de Agosto de 1385, e que este monumento comemora como o mais importante legado patrimonial justamente dedicado à preservação da memória desse feito e ao enaltecimento de Portugal, mereceram já a outros escritores páginas soberanas. Muitos desses escritores, curiosamente, nada dizem acerca deste monumento e do seu significado, mas outros houve que o fizeram, assim equilibrando o saldo da memória de um feito histórico, entre o crédito da recordação e o débito do esquecimento, sobre o qual D. João I, o rei da Boa Memória, e seu filho e sucessor, o Eloquente, como também os Infantes D. Pedro — “Príncipe no mundo raro! / Sobre tanto desamparo, / foram três seus filhos reis.”, Sá de Miranda) — e D. Henrique, tudo fizeram quanto estava ao seu alcance para que não fosse nunca esquecido.
Para todos nós, que aqui nos congregámos, neste que é o mais predestinado lugar do encontro dos portugueses com a sua própria História, comemorar o dia 14 de Agosto poderá ser um acto de cidadania e de afirmação de identidade. É-o efectivamente. Mas, olhando o Portugal que ficou lá fora, aquele que não comemora e vê maçada no espírito histórico, aquele que ignora e que não sente já a luminária do exemplo dos antepassados, esses portugueses a banhos que não são já os filhos de marinheiros desnudos e de lavradores pobres que dominaram os mares nunca de antes navegados e construíram o mapa que desconheciam (“Navegavam sem o mapa que faziam” escreveu Sophia de Mello Breyner Andersen, Navegações, VI), olhando esse Portugal, dizia, ficamos com boas razões para duvidar do sentido propedêutico da comemoração histórica no País contemporâneo.
Cumpre reflectir, em verdade, as razões porque este monumento, no que comemora, parece tão esquecido e omitido na balança da actualidade portuguesa. Os profissionais da comunicação social de hoje, mormente nos grandes media televisivos, não possuem nem sensibilidade, nem o saber histórico essencial sobre o seu País. E, no entanto, Portugal é um dos países ocidentais com mais forte historicidade e sentido de nacionalidade ao nível de um ponto de vista popular. Não há tempo para exemplificar, mas parece-me significativo que em todos os grandes ciclos comemorativos que Portugal levou a cabo, após 1974, o Mosteiro da Batalha tenha ficado sempre ausente salvo parcas e envergonhadas referência de rodapé em painéis fotográficos e pouco mais.
Pergunto-me como é que é possível que se tenha chegado a este plano de desconhecimento e de ignorância. Aquele que é a barca memorial da identidade portuguesa, levantado para perpétua memória do feito da Batalha Real de Aljubarrota de 14 de Agosto de 1385, encontra mais eco na alma do povo simples e sem grandes estudos que por aqui passa, feitas as preces em Fátima, do que entre as elites académicas e os especialistas do património nacional que tudo decidem longe. Todo o português que o é, como escreveu Miguel Torga, devia, pelo menos uma vez na vida, peregrinar até este templo de brando calcário em que cintila a questão essencial do português: o seu ser e a lógica do ser português.
A geração de portugueses que fundou este monumento teve de fazer opções definitivas em situações de extrema adversidade e de crise política profunda. Falamos de uma geração de combatentes, de mancebos na casa dos vinte anos de idade chamados ao combate e à guerra, ao extremo sacrifício da própria vida por um ideal de soberania e de pátria. D. João I contava então 27 anos e o seu Condestável. D. Nuno Álvares Pereira, 25 anos. Nessa faixa etária e ainda na flor da adolescência estavam muitos outros soldados nas suas alas popularizadas como dos Namorados e da Madressilva. Pois bem, a esses jovens foi imperioso decidir entre viver ou morrer; entre viver num reino livre e independente da sujeição castelhana ou num solo sujeito a essa arbitrariedade. A questão, como referimos, era a da vida ou morte, a da “pátria ou morte”.
Em 2009 não parece haver qualquer contexto para a reposição da questão. Dar a vida, hoje, pela Pátria é uma questão que de todo não fica bem enunciar. E, no entanto, a época contemporânea está ainda cheia de memórias em torno dessa decisão última de qualquer homem: viver, sujeitando-se, ou morrer nas garras de uma luta heróica por ideais pátrios.
Em 14 de Agosto de 1385, o temor e o medo de uma morte iminente mostrava-se nos rostos dos combatentes portugueses, do “pequeno exército” que eram, tamanha a sua desvantagem face ao inimigo. Venceram na entrega total a uma fé e a uma ideia: a de que a razão estava do seu lado; a de que era neles e por eles que a lealdade portuguesa se honrava. Por isso deram tudo, pelas suas vidas, pelas suas famílias, pelo seu rei, pelo seu Reino. É possível que um lema usado pelos revolucionários cubanos, já em nossos dias, o de “Pátria ou morte”, seja aquele que melhor nos permite compreender o que ecoava nos pensamentos desses leais portugueses nessa tarde distante, toda ela vestida de fogo e sangue na terra almagre de S. Jorge, de 14 de Agosto de 1385. Pelo exemplo citado, creio, poderemos tentar compreender melhor o que motivava os nossos antepassados, a força vital de um ânimo que deitou por terra o estandarte inimigo.
Só uma forte consciência nacional explica a tenacidade, o tudo ou nada, o viver ou morrer que foram lema, consciência e ânimo vital que deu força e confiança ao pequeno exército português. Não acreditassem esses valorosos soldados num destino pátrio, encarnado num Rei e na liberdade sagrada de pertencer ao povo a sua escolha, e todas as estratégias militares teriam sido pouco mais que nada. Noutros momentos históricos, outras gerações de portugueses foram chamadas a fazerem opções semelhantes. Fizeram-no, por exemplo, na Guerra da Independência aberta em 1640, na Grande Guerra de 1914-1918 ou, já no nosso tempo, os nossos pais que combateram na Guerra do Ultramar.
Não era Portugal, em 1385, um mito, nem as nações, cumpre considerá-lo, se constroem sobre mitos. Os mitos são invenções culturais, as nações são construções geracionais. A continuidade de uma nação, naturalmente, necessita da garantir a transmissão da sua memória. O dever primeiro de um cidadão está na lealdade para com os seus e de todos para com a pátria que lhe é berço.
Lealdade, eis uma palavra que lemos na divisa que se repete mil vezes nas Capelas Imperfeitas. E nesta mesma Capela do Fundador, ecoam motes, lemas de vida, que não nos podem deixar indiferentes: “Pour bien” (D. João I), “J’ai bien raison” (Infante D. João), “Le bien me plet” (Infante Santo D, Fernando), “Talent de bien fere” (Infante D. Henrique), eis quatro delas onde o conceito de “bem” é central. Fazer bem, agir por bem, a razão do bem e o bem como razão, o talento de fazer bem e o bem. E outras memórias ressoam no silêncio destes muros como esse “Y me plet”, que lemos junto à efígie de D. Filipa de Lencastre, e o misterioso “Désir”, aberto no sarcófago do Infante D. Pedro, o autor do Livro da Virtuosa Benfeitoria.
Fazer e bem, uma vez mais, como mote de uma época onde os portugueses foram chamados a escolher e escolheram bem, o bem que lhes deu a vitória decisiva e que culminará na divisa desse Senhor do Mundo, el-rei D. João II, “Rei de muitos reis” (Sá de Miranda), que agia “pro lege et pro grege”, pela Lei e por Portugal.
Pouco adianta, como vemos, que a historiografia portuguesa hodierna reticencie a noção de pátria e que acentue que essa ideia de pátria era, em 1385, totalmente diferente da de hoje. Fica claro que não perfilho desta leitura porque, desde logo, os princípios pátrios são civilizacionais e intemporais, ou seja, não envelhecem, enquanto ideia e espírito, ainda que as gerações dos homens os possam observar com intensidades e debaixo de perspectivas diferentes no tempo e no modo de manifestação.
A força anímica que fez da Batalha o símbolo maior da identidade nacional e o panteão das gerações de ouro da Dinastia de Avis, aquela que impôs o Mundo à Europa e a desbloqueou para a modernidade e para a globalização que toca a todos os povos, sem excepção, nem sempre foi visível. Foi preciso esperar pelo Século XVIII e pela curiosidade de estrangeiros cultos que visitaram este Monumento para que Portugal voltasse a olhar para ele, considerado por alguns como construção maravilhosa, e magnífica, apreciado sobremaneira pelos ingleses e de tal modo, como se manifesta no legado de James Murphy, que nele se inspirariam para propagar no Reino Unido a seiva de um neo-gótico vitoriano de matriz batalhense.
Mas o Mosteiro de Santa Maria da Vitória atingiu o ano do fim, em 1834, exangue e a necessitar de obras de recuperação verdadeiramente profundas. Expulsos os frades e primeiros guardiães desta memória portuguesa, o edifício viu agravar-se o seu estado de decadência. Devemos a Luís Mousinho de Albuquerque, prontamente apoiado pelo rei D. Fernando II, a partir de 1840, em boa medida, a sua salvação.
A inteligência nacional oitocentista ignorou, sintomaticamente, este monumento. Excepção feita a Fr. Francisco de S. Luís, que lhe dedicou uma Memória histórica apresentada à Academia das Ciências, em 1822, na qual sublinha o carácter português do monumento, como excepção é, neste panorama, Alexandre Herculano que evoca o Real Mosteiro, no seu popular conto “A Abóbada”. Almeida Garrett, por seu turno, no seu poema Camões, renova o elogio da terrível Aljubarrota, mas silencia o seu monumento matricial. A Geração de 70 passou-o em silêncio, mesmo, e sobremodo, o seu historiador mais fecundo e brilhante, Oliveira Martins, a quem devemos as biografias de D. Nuno Álvares Pereira ou dos Filhos de D. João I, por cujas páginas, na sua primeira e melhor edição, o Mosteiro é apenas um filactério gótico sugestivo em desenho de ilustração de página de mudança entre capítulos.
Esse “País de suicidas”, como lhe chamou Miguel de Unamuno, inspirando-se em Manuel de Laranjeira, viveu pouco, creio, a memória patrimonial portuguesa. Refizeram os Jerónimos, descobriram, em boa medida graças a escritores e diletantes estrangeiros, o manuelino português, restauraram, como lhes foi possível, este monumento. Mas então, como hoje, este lugar maior da identidade nacional ficou esquecido. Eça de Queiroz, que viveu em Leiria, não o achou digno de qualquer nota significativa para além de uma fugaz carta postal daqui endereçada a um amigo. Elogiou-o, mas não sem lhe apontar um excesso sombrio sobre a arte da renascença em Portugal e de criticar asperamente as “restaurações” que sofria, Ramalho Ortigão (O Culto da Arte em Portugal, 1896), encontrando o monumento melhores páginas de valorização em Vilhena Barbosa (1886). Poucos mais nele atentaram e, entre os que o fizeram, sobressaem nomes estrangeiros (Beckford, Lichnowsky, Raczinsky, Haupt, Dieulafoy, Baedeker).
É preciso esperar por Afonso Lopes Vieira (Onde a terra se acaba e o Mar começa, 1940; Nova demanda do Graal, 1942), e ainda assim num país que o marginalizou e que enjeitou o melhor do integralismo lusitano, para que a poesia pátria se inspire neste templo da memória. Nem os neo-realistas, nem os existencialistas encontraram, neste mausoléu pátrio, inspiração digna de realce. Foi preciso aguardar por Miguel Torga (A Criação do Mundo, IV, 1939; Portugal, 1950) para o vermos entrar na grande literatura que em português se tece entre cujas laudas se impõem as que lhe dedica José Saramago (Viagem a Portugal, 1995).
E, contudo, foi neste Mosteiro que despertou a vocação de historiador de um Jaime Cortesão (Portugal: a Terra e o Homem), como foi na sua Sala do Capítulo, sob o olhar do esguio arquitecto que sonhou tão ousada abóbada, que, em 1922, o Presidente da República António José de Almeida confiou a este templo a guarda das ossadas dos Soldados que na Europa e em África combateram por uma Europa livre. Neste Mosteiro e no chão estremenho em que fundou os seus alicerces sólidos onde Torga descobriu, espantado, páginas maiores de uma História de Portugal que se guarda como coisa secreta dos portugueses.
Formulamos votos, e este é o monumento mais apropriado para propor um voto, de que o Real Mosteiro de Santa Maria da Vitória, no conteúdo simbólico que preserva, barca e arca da memória pátria, vença as muralhas de silêncio e de omissão a que tanto o têm sujeitado, num Portugal distraído dos seus princípios, aborrecido senão envergonhado, ao nível das suas elites bem-pensantes, quiçá, do seu passado em que se rasgaram novos mundos e se pagou o elevado preço dessa ousadia; num País em que o sentido da comemoração histórica, ensopada entre festivais de comes e bebes, apouca a dignidade do acto evocado e dispensa quase sempre o saber do historiador.
Não assim, Senhoras e Senhores, neste 14 de Agosto de 2009, neste altar cívico em que Portugal se consagra e os portugueses encontram, neste dia de hoje que é o presente do futuro, a razão de se ser uma nação livre e independente, renascida de uma opção extrema entre vida ou morte. Não pode ter sido essa uma questão vã e sem sentido.
Seja para os que caíram em 14 de Agosto de 1385, seja para todos aqueles nossos conterrâneos e antepassados que pereceram em todas essas outras tardes de Agosto, na Flandres ou em outro qualquer lugar, em que Portugal foi chamado a combater. Desde há vários séculos que este monumento proclama o bem português, numa só e única opção, sem desvios, num só coração, numa só voz e num só querer. Sem isso, não parece possível compreender o significado histórico deste Lugar de encontro em que, nesta hora já vespertina de 14 de Agosto de 2009, temos o privilégio de estar e de nos sentirmos, hoje como sempre, mais portugueses e orgulhosos de o sermos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Especial • São Nuno de Santa Maria

A propósito de mais uma comemoração aniversária da Batalha de Aljubarrota,
publicamos nestas páginas dois textos sobre a figura do seu herói maior: D. Nuno Álvares Pereira, ou Santo Condestável, ou – agora – São Nuno de Santa Maria.
Nunca é demais lembrar o homem que viveu exemplarmente a sua humanidade, o valoroso cavaleiro que lutou corajosamente pela defesa da independência e da identidade da sua Pátria, o frade que encontrou nas virtudes cristãs da pobreza e da doação de si o caminho para a santidade. Uma santidade que, antes de ser reconhecida oficialmente pela Igreja, já o era, desde sempre, pelo povo que amava e servia.
O primeiro artigo é uma reflexão que cruza estas várias facetas de D. Nuno, da autoria do conceituado Doutor Saul António Gomes, um dos maiores estudiosos da actualidade sobre a história e o património, sobretudo, da nossa região.
O segundo texto é a nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, emitida aquando do
anúncio da canonização deste santo português, onde se destacam os principais elementos deste processo e se apontam vias para que saibamos, hoje, ser dignos do seu exemplo e imitadores das suas virtudes.
Esperamos que sirvam para um maior conhecimento sobre este nosso “herói” e para uma maior consciência do seu valor enquanto exemplo válido e actual para os nossos dias.


D. Nuno Álvares Pereira
Glória, honra e exemplo


Grande mistério é a história que só no tempo longo e secular se confirma como sucede, nos dias felizes em que nos é dado viver, com a vida e a memória de D. Nuno Álvares Pereira, Condestável do exércitos portugueses que, nos campos dentre Aljubarrota e Porto de Mós, no distante dia 14 de Agosto de 1385, destroçaram o orgulho castelhano e asseguraram novo rei, nova dinastia e uma nova Era nos destinos de Portugal no Mundo.
D. Nuno Álvares Pereira nasceu, segundo asseveram velhas crónicas, em 24 de Junho de 1360, dia de S. João Baptista. No nascimento certo astrólogo, profissão benquista nesses séculos, prognosticou ao recém-nascido um destino de excepção. Nuno fez-se notar desde cedo pela sua argúcia e comportamento. Seu pai, Dom Prior do Crato, levou-o com o irmão mais velho à intimidade da cúria régia de D. Fernando.
Não foi o Condestável, nos dias da sua vida militar e de grande cortesão e senhor, homem de humildades. Pelo contrário. Os historiadores sabem bem que o herói da Real Batalha de Aljubarrota não conhecia limites em matéria de património, de benefícios e de privilégios. Exigia-os mesmo do seu soberano rei e fê-lo, até, em determinado momento, no extremo da ameaça presente a D. João I de se desnaturalizar da pátria que tanto servira.
Mas não é o senhor de guerras e de grandes e faustosos palácios e invejáveis mordomias que, agora, tantos séculos passados sobre a sua morte e vida, a Igreja Católica confirma no altar dos mais veneráveis exemplos de santidade. É antes o de Fr. Nuno de Santa Maria, o fiel que, na recepção do hábito do Carmelo, assumiu uma nova aliança com o Deus em que tanto confiara e que tão profeticamente lhe marcara a vida e o poupara de perigos e da iminência da morte nos campos de batalha.
Aos 62 anos de idade, no ano de Cristo de 1422, de facto, recolheu-se D. Nuno Álvares Pereira ao Convento do Carmo de Lisboa, que ele mesmo erguera anos antes, para, renunciando às glórias e às honras temporais com que o destino tanto o brindara tão generosamente, se entregar às asceses mais rigorosas do convívio espiritual dos pobres frades carmelitas. Na renúncia às riquezas do mundo, Fr. Nuno traçava para ele próprio a batalha última da sua vida, procurando, pelo preço da renúncia radical ao Mundo e ao conforto dos bens materiais, a Verdade última que a morte de todo o homem encerra.
A 1 de Abril de 1431, justamente em Domingo de Páscoa, Fr. Nuno de Santa Maria, com 71 anos incompletos, fechava os olhos para os dias e os trabalhos mundanos e abria-os, à luz da Fé e da doutrina eclesial, para os verdes prados do Bom-Pastor e para a ceia eterna com o Filho do Homem. A sua biografia de general dos exércitos e de senhor feudal não esconde uma personalidade indómita e irascível, homem que era de excepcional carisma e capacidade de mando, frequentemente, até, capaz de destratar família e criadagem de modo humilhante e sem pingo de ternura.
Dele bem poderemos escrever, como o proclamaram os profetas dos reis de Israel, que o Senhor o coroou de glória e de honra. Fr. Nuno de Santa Maria faleceu em odor de santidade. Teve, entre os filhos de D. João I, os seus mais fervorosos admiradores a começar por D. Duarte, que imaginamos, na distância virtual de tanto tempo passado, presente nas exéquias de Fr. Nuno, lá na igreja quase batalhina do Convento do Carmo, nela escutando a pregação de Mestre Francisco, para cujo sermão, aliás, lhe dera os temas que desejava ver proclamados do púlpito. Em 21 de Abril de 1437, o Rei Eloquente escrevia ao influente Abade D. Gomes, de Florença, falando-lhe da canonização do “Santo Condestável”, sendo que o Papa Eugénio IV, por esses dias, mandara organizar o respectivo processo.
Também o Infante D. Pedro, caído em Alfarrobeira (†1449), mostrou grande devoção por S. Nuno, atribuindo-se-lhe a responsabilidade da redacção da oração litúrgica própria: “Norma principum, exemplar dominorum, speculum anachoretarum es, beate Nune. Tu securus et fortis in proelio, tu humilis et pius in victoria, tu justus et misericors in pace, tu oboediens et devotus in claustro…” (“Esteio dos príncipes, exemplo dos senhores, espelho de monges és tu S. Nuno. Tu, seguro e forte no combate, tu, humilde e piedoso na vitória, tu, justo e misericordioso na paz, tu, obediente e devoto no claustro”).
Nos anos imediatos ao seu passamento, os frades carmelitas de Lisboa coligiram várias centenas de milagres, tendo cabido ao famoso cronista Gomes Eanes de Zurara (†1474) redigir uma narrativa de 221 deles, na maior parte ocorridos no reinado de D. Afonso V (†1481). Nalguns Breviários carmelitas do Século XV regista-se a festa, a 1 de Abril, de “Nonii comitis confessoris” (Do Confessor Conde Nuno), sinal de que, dentro da Ordem, colhia devoções e culto. Dessa mesma Centúria é o testemunho do Chantre de Évora, Martim Vasques, que fora criado da casa de D. Nuno e protegido da Casa de Bragança, chamando-lhe, em testamento de 22 de Maio de 1470, “Conde Santo”.
A veneração ao Santo Condestável manter-se-á entre os Portugueses desde então, posto que nem sempre com a visibilidade pública e o reconhecimento canónico desejáveis. Mas esta é matéria que aguarda ainda uma ingente investigação histórica, assim como seria desejável que se promovesse uma nova biografia, com amplo rigor histórico, sobre D. Nuno Álvares Pereira.
A 15 de Janeiro de 1918, o Papa Bento XV, pelo decreto Clementissimus Deus, reconheceu o Beato Nuno e consentiu-lhe culto oficial, assim incrementando a devoção católica ao Santo Condestável. Agora, é o novo Sumo Pontífice, Bento XVI, que fecha o círculo do processo, declarando-o canonicamente digno de culto em todo o orbe católico. Grandes, intemporais e misteriosos são, na verdade, os desígnios do Senhor, para os que crêem, ou do destino, para os que duvidam, todavia, sempre o tempo e o seu devir sem tempo tecendo as malhas de uma vida exemplar que em 1385, há precisamente 624 anos, pisando campos próximos de Aljubarrota, se consagrou herói de uma Nação e senhor das terras alto-estremenhas de Ourém e de Porto de Mós.

Saul António Gomes
Também em:
www.tintafresca.net


Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa por ocasião da canonização de Nuno Álvares
Exemplo heróico em tempo de crise

1. Nuno Pereira proclamado santo
A 21 de Fevereiro de 2009, o Papa Bento XVI anunciou a canonização de D. Nuno Álvares Pereira – o já beato Nuno de Santa Maria – para o dia 26 de Abril, junto com outras quatro figuras ilustres da Igreja.
Este facto é para Portugal e os portugueses motivo de júbilo e de esperança. Deve também constituir ocasião de reflexão sobre as qualidades e virtudes heróicas desta relevante personagem histórica, digna de ser conhecida e imitada nos dias de hoje. Nuno Álvares Pereira viveu em tempos difíceis de crise dinástica, com fortes divisões no tecido social e político português, que punham em perigo a própria identidade e independência da Nação.
Os Bispos de Portugal, em nome de todos os católicos do nosso país, desejam exprimir a sua alegria e gratidão pelo reconhecimento oficial da santidade heróica de mais um filho da nossa terra. Ultrapassando a mera saudade do passado e assumindo, com realismo e esperança, o tempo que nos é dado viver, querem ressaltar algumas virtudes heróicas de Nuno Álvares Pereira, cuja imitação ajudará a responder aos desafios do tempo presente.

2. Breves dados biográficos
Nascido em 1360, Nuno Álvares Pereira foi educado nos ideais nobres da Cavalaria medieval, no ambiente das ordens militares e depois na corte real. Tal ambiente marcou a sua juventude. As suas qualidades e virtudes impressionaram particularmente o Mestre de Aviz, futuro rei D. João I, que encontrou em D. Nuno o exímio chefe militar, estratega das batalhas dos Atoleiros, de Aljubarrota e Valverde, vencidas mais por mérito das suas virtudes pessoais e da sua táctica militar do que pelo poder bélico dos meios humanos e dos recursos materiais.
Casou com D. Leonor Alvim de quem teve três filhos, sobrevivendo apenas a sua filha Beatriz, que viria a casar com D. Afonso, dando origem à Casa de Bragança. Tendo ficado viúvo muito cedo e estando consolidada a paz, decidiu aprofundar os ideais da Cavalaria e dedicar-se mais intensamente aos valores do Evangelho, sobretudo à prática da oração e ao auxílio dos pobres. Assim, pediu para ser admitido como membro da Ordem do Carmo, que conhecera em Moura e apreciara pela sua vida de intensa oração, tomando o profeta Elias e Nossa Senhora como modelos no seguimento de Cristo.
De Moura, no Alentejo, vieram alguns membros da comunidade carmelita, para o novo convento que ele mesmo mandara construir em Lisboa. Em 1422, entra nesta comunidade e, a 15 de Agosto de 1423, professa como simples irmão, encarregado de atender a portaria e ajudar os pobres. Passou então a ser Frei Nuno de Santa Maria. Depois de uma intensa vida de oração e de bem fazer, numa conduta de grande humildade, simplicidade e amor à Virgem Maria e aos pobres, faleceu no convento do Carmo, onde foi sepultado.
Logo após a sua morte começou a ser venerado como santo pela piedade popular. As suas virtudes heróicas foram oficialmente reconhecidas pelo Papa Bento XV, que o proclamou beato, em 1918, passando a ter celebração litúrgica a 6 de Novembro.

3. Virtudes e valores afirmados na vida de Nuno Álvares Pereira
D. Nuno Álvares Pereira não é apenas o herói nacional, homem corajoso, austero, coerente, amigo da Pátria e dos pobres, que os cronistas e historiadores nos apresentam. Ele é também um homem santo. A sua coragem heróica em defender a identidade nacional, o seu desprendimento dos bens e amor aos mais necessitados brotavam, como água da fonte, do amor a Cristo e à Igreja. A sua beatificação, nos começos do século XX, apresentou-o ao povo de Deus como modelo de santidade e intercessor junto de Deus, a quem se pode recorrer nas tribulações e alegrias da vida.
Conscientes de que todos os santos são filhos do seu tempo e devem ser vistos e interpretados com os critérios próprios da sua época, desejamos propor alguns valores evangélicos que pautaram a sua vida e nos parecem de maior relevância e actualidade.
Os ideais da Cavalaria, nos quais se formou D. Nuno, podem agrupar-se em três arcos de acção: no plano militar, sobressaem a coragem, a lealdade e a generosidade; no campo religioso, evidenciam-se a fidelidade à Igreja, a obediência e a castidade; a nível social, propõem-se a cortesia, a humildade e a beneficência. Foram estes valores que impregnaram a personalidade de Nuno Álvares Pereira, em todas as vicissitudes da sua vida, como documentam os seus feitos militares, familiares, sociais e conventuais.
Fazia também parte dos ideais da Cavalaria a protecção das viúvas e dos órfãos, assim como o auxílio aos pobres. Em D. Nuno, estes ideais tornaram-se virtudes intensamente vividas, tanto no tempo das lides guerreiras como principalmente quando se desprendeu de tudo e professou na Ordem do Carmo. Como porteiro e esmoler da comunidade, acolhia os pobres de Lisboa, que batiam às portas do convento e atendia-os com grande humildade e generosidade. Diz-se que teve aqui origem a «sopa dos pobres».
Levado pela sua invulgar humildade, iluminada pela fé, desprendeu-se de todos os seus bens – que eram muitos, pois o Rei o tinha recompensado com numerosas comendas – e repartiu-os por instituições religiosas e sociais em benefício dos necessitados. Desejoso de seguir radicalmente a Jesus Cristo, optou por uma vida simples e pobre no Convento do Carmo e disponibilizou-se totalmente para acolher e servir os mais desfavorecidos. Esta foi a última batalha da sua vida. Para ela se preparou com as armas espirituais de que falam a carta aos Efésios (cf. Ef 6, 10-20) e a Regra do Carmo: a couraça da justiça, a espada do Espírito (isto é, a Palavra de Deus), o escudo da fé, a oração, o espírito de serviço para anunciar o Evangelho da paz, a perseverança na prática do bem.
Precisamos de figuras como Nuno Álvares Pereira: íntegras, coerentes, santas, ou seja, amigas de Deus e das suas criaturas, sobretudo das mais débeis. São pessoas como estas que despertam a confiança e o dinamismo da sociedade, que fazem superar e vencer as crises.

4. Apelo à Igreja em Portugal e a todos os homens e mulheres de boa vontade
Ao aproximar-se a data da canonização do beato Nuno Álvares Pereira, pelo Papa Bento XVI, em Roma, alegramo-nos por ver mais um filho da nossa terra elevado às honras dos altares. Algumas peregrinações estão a ser organizadas para marcar a nossa presença na Praça de S. Pedro, na festa da sua canonização, no dia 26 de Abril. Confiamos que outras iniciativas pastorais sejam promovidas para dar a conhecer e propor como modelo o exemplo de virtude heróica que nos deixou este nosso irmão na fé.
A pessoa e acção de Nuno Álvares Pereira são bem conhecidas do povo português. A nível civil, é lembrado em monumentos, praças e instituições; a nível religioso, é celebrado em igrejas, imagens e associações. Figura incontornável da nossa história, importa revitalizar a sua memória e dar a conhecer o seu testemunho de vida. Para além de ser um modelo de santidade, no seguimento radical de Cristo, que «não veio para ser servido mas para servir» (Mt 20, 28), apraz-nos pôr em relevo alguns aspectos de particular actualidade, para todos os homens e mulheres de boa vontade:
– Nuno Álvares Pereira foi um homem de Estado, que soube colocar os superiores interesses da Nação acima das suas conveniências, pretensões ou carreira. Fez da sua vida uma missão, correndo todos os riscos para bem servir a Pátria e o povo.
– Em tempo de grave crise nacional, optou corajosamente por ser parte da solução e, numa entrega sem limites, enfrentou com esperança os enormes desafios sociais e políticos da Nação.
– Coroado de glória com as vitórias alcançadas, senhor de imensas terras, despojou-se dos seus bens e optou pela radicalidade do seguimento de Cristo, como simples irmão da Ordem dos Carmelitas.
– Não se valeu dos seus títulos de nobreza, prestígio e riqueza, para viver num clima de luxos e grandezas, mas optou por servir preferencialmente os pobres e necessitados do seu tempo.
Vivemos em tempo de crise global, que tem origem num vazio de valores morais. O esbanjamento, a corrupção, a busca imparável do bem-estar material, o relativismo que facilita o uso de todos os meios para alcançar os próprios benefícios, geraram um quadro de desemprego, de angústia e de pobreza que ameaçam as bases sobre as quais se organiza a sociedade. Neste contexto, o testemunho de vida de D. Nuno constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários e de iniciativas de partilha de bens. Será também um apelo a uma cidadania exemplarmente vivida e um forte convite à dignificação da vida política como expressão do melhor humanismo ao serviço do bem comum.
Os Bispos de Portugal propõem, portanto, aos homens e mulheres de hoje o exemplo da vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres. Assim seremos parte activa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna que todos desejamos.

Fátima, 6 de Março de 2009
Conferência Episcopal Portuguesa

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

"O Fio da Memória – O Conto"

Concurso literário para alunos
Escrever um conto original relacionado com as dimensões históricas, culturais ou geográficas do concelho da Batalha é o desafio do concurso "O Fio da Memória – O Conto", dirigido a alunos naturais e residentes do nosso concelho, matriculados nos 2º e 3º ciclos ou no ensino secundário. Visando "promover o conto enquanto género literário e estimular os hábitos de leitura e de escrita criativa da população infanto-juvenil, divulgando autores portugueses", a iniciativa resulta de uma parceria da autarquia com um jornal local, sendo também chamados os docentes à participação, através do acompanhamento e da verificação de questões estilísticas dos trabalhos dos alunos.
Os melhores trabalhos serão contemplados com máquinas fotográficas digitais, cheques-livro e enciclopédias multimédia. O regulamento e a ficha de inscrição encontram-se disponíveis em www.cm-batalha.pt

Padre António Vieira - Um génio da cultura portuguesa

Entre 6 de Fevereiro de 2008 e 6 de Fevereiro de 2009, decorreram diversas comemorações dos quatrocentos anos do nascimento do Padre António Vieira.
Ao longo da sua longa vida (1608-1697), repartida entre Portugal e o Brasil, com passagens por França, Holanda, Inglaterra e Itália, sempre este Jesuíta se assumiu como actor no grande teatro do mundo, desdobrando-se em desempenhos tão fascinantes pela diversidade como pela genialidade. Religioso, escritor, diplomata, pregador, teólogo, profeta… conheceu o triunfo e os aplausos, mas também o insucesso, a censura, o descrédito, a que quis e soube resistir. Nele impressiona uma imensa energia, manifestada na acção e no discurso, aliás indissociáveis.

Jovem no Brasil
Nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1608, na freguesia da Sé, em Lisboa.
Em 1614, o pai, Cristóvão Ravasco, foi destacado como funcionário para a Relação da Baía, para onde sai com a família. Na cidade e em todo o Brasil, tem fama o Colégio da Companhia de Jesus. É nele que Cristóvão Ravasco inscreve o filho. Não foi, de início, aluno brilhante. De compleição frágil, pálido, magro, grandes olhos, nariz fino, não se sente talhado para intensos esforços escolares. É, porém, de temperamento enérgico, tenaz. E, subitamente, por volta dos catorze anos, os jesuítas começam a descobrir-lhe a inteligência, a inesperada queda para escrever bem português, a facilidade com que domina o latim. Revela-se, igualmente, um crente fervoroso, jejua todos os dias, reza, comunga, mas não se excede.
Aos quinze anos, sente-se tocado pela vocação, quer ser jesuíta. Apesar da oposição do pai, a 5 de Maio de 1623, foge de casa e pede asilo aos padres da Companhia de Jesus. Redobra o seu interesse pelos estudos, passa a ser o melhor aluno em todas as disciplinas. Aos dezoito anos é nomeado professor de retórica no Colégio de Olinda.
Mais do que para a reflexão, sente-se tocado pelo desejo de acção: quer ser pregador, missionário, apóstolo, converter os incrédulos, combater o erro e trazer para a fé católica os índios do interior. Em princípios de 1624, eis António Vieira numa aldeia, em contacto directo com os índios, aprendendo-lhes as línguas, conhecendo-lhes os costumes, admirando o modo de vida, colocando-se a seu lado para os defender de todos os vilipêndios, torturas e humilhações.
Em Fevereiro de 1641, chega a notícia da Restauração da Independência por D. João IV e Vieira é enviado numa delegação pelo vice-rei do Brasil, D. Jorge de Mascarenhas.

Vinda para Portugal
Tem 33 anos quando regressa à terra natal. Era já um prestigiado pregador. Pouco a pouco, torna-se íntimo do rei, francamente cativado pela sua personalidade, e profere alguns sermões que lhe granjeiam em Lisboa a mesma fama que alcançara no Brasil.
O rei nomeia-o pregador régio e torna-se o seu homem de confiança. É então que giza para Portugal um plano de recuperação económica: era urgente o desenvolvimento do comércio, isentar de impostos os bens móveis dos comerciantes, fundar um banco e duas companhias comerciais, abrir o comércio às nações neutrais, agraciar os comerciantes com títulos de nobreza, entre outras medidas, avançadas para o tempo! Mas a principal proposta, que lhe vai valer ódios, era a de se abolirem as distinções entre cristãos velhos e cristãos novos e de atraírem a Portugal os capitais dos judeus fugidos do país. Para tal, teria de se reformar a Inquisição. Mas o seu plano económico teve de ser minimizado: apenas se constituiu a Companhia de Comércio do Brasil.

V Império
Estudando profundamente as Escrituras e todos os Santos que falam do imperador que Jesus prometera à Igreja, o jesuíta está firmemente convencido de que o V Império só pode ser português (os anteriores tinham sido o dos assírios, o dos persas, o dos gregos e o dos romanos). O Quinto Império seria de ordem temporal e espiritual. Em ambos os campos, Portugal seria o guia para que se extirpassem as seitas infiéis, se reformasse a cristandade, se estabelecesse a paz em todo o mundo, através de um Sumo Pontífice santíssimo.
Esta construção ideal de António Vieira, prodígio imaginativo e delirante, começaria a tornar-se realidade se o herdeiro português casasse com a herdeira do trono castelhano.

Entre o Brasil e Portugal
Mas entretanto perdera a estima do rei, fracassara em algumas das suas iniciativas políticas, aumentara o número de inimigos, tanto na Igreja como na Corte, e a Companhia de Jesus ordena-lhe que regresse.
Ao chegar ao Brasil, dá conta do caos moral das gentes de Maranhão, sobretudo dos brancos, apenas preocupados com enriquecimento sem regras, dissolutos, impiedosos. Logo nos primeiros sermões, ataca violentamente a licenciosidade dos costumes e o odioso regime da escravatura que denuncia ao rei. Consegue apenas a animosidade e o ódio das autoridades oficiais e colonos.
Vem a Portugal pedir ao rei o fim do descalabro moral e social do Brasil. Este acolhe-o com carinho, mas está muito doente, e na Corte odeiam-no pelos sermões duríssimos contra os poderosos desonestos e a favor do povo.
Ainda assim, consegue o decreto real de jurisdição jesuíta sobre os índios do Brasil. Volta lá e não se cala contra a escravatura, pelo que os ódios atingem o auge. Em 1661, os colonos do Maranhão atacam os jesuítas e expulsam-nos para Lisboa. Chega pobre e doente e acaba por ser preso pela Inquisição por defender os cristãos novos, os judeus e calvinistas, e por propugnar estranhas e heréticas teorias sobre um tal V Império.
A 23 de Dezembro de 1667, o tribunal do Santo Ofício dita a sentença condenatória: "é privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar, e recluso no Colégio ou Casa de sua religião, que o Santo Ofício lhe ordenar, e de onde, sem ordem sua, não sairá".
A 12 de Junho de 1668, Vieira é libertado. Está, todavia, proibido de nos seus sermões tratar de assuntos relacionados com cristãos novos, profecias, V Império, Inquisição. Os superiores da sua Ordem enviam-no a Roma, para promover a canonização de 40 jesuítas presos nas Canárias e martirizados pelos protestantes em 1570. Mas Vieira vai, também, por outro motivo: quer obter a anulação total da sentença condenatória do Santo Ofício. Foi humilhado e injustiçado. Está de novo em luta.
Em Setembro de 1669, embarca para Roma. A personalidade de Vieira, a sua energia, a sua exuberância rapidamente conquistam a cidade italiana. Por toda a parte é recebido com admiração, carinho e respeito. Até que o Papa, num Breve, isenta o padre António Vieira "perpetuamente da jurisdição inquisitorial". Poderia pregar sobre o que quisesse e apenas estava sujeito às regras da sua Ordem. Mas a sua saúde que, desde a meninice, é frágil, agrava-se. Com permanentes acessos de febre, olhado indiferentemente pela corte do regente D. Pedro, Vieira parte em busca de melhor clima, o do Brasil.
O Papa Inocêncio XI revoga o Breve do seu antecessor. Em Portugal, a Inquisição levanta contra ele toda a espécie de calúnias. O velho jesuíta pode cair, de novo, na sua alçada. No pátio da Universidade de Coimbra, queimam-no em efígie com sanha insensata. Aos 80 anos, doente, enfraquecido pelas constantes sangrias a que é submetido, o Geral da Companhia nomeia-o Visitador Geral do Brasil.
A 18 de Julho daquele ano, pela uma da madrugada, morre o que foi e é o maior prosador da língua portuguesa, aquele que, um dia, dissera, desalentado: "não me temo de Castela, temo-me desta canalha".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

"A Hora do Conto" na Biblioteca da Batalha

No cenário de um iglu, espaço criado especificamente para o efeito, iniciou-se no mês de Janeiro mais uma temporada de "A Hora do Conto", na Biblioteca Municipal da Batalha. A iniciativa, que se baseia na dramatização de uma história, é dirigida a crianças desde os jardins-de-infância até ao 2º ciclo do ensino básico.
As sessões dirigidas às escolas decorrem às segundas, quartas e sextas-feiras, enquanto que aos sábados (primeiros e quartos de cada mês), o espaço do conto abre as suas portas ao público em geral, isto é, às crianças e pais que ali aparecerem.
Depois de uma floresta mágica e da reconstituição do interior de um foguetão, "A Hora do Conto" aparece agora no ambiente das casas de neve dos esquimós. Mas o cenário é apenas um pretexto para ajudar a cativar a atenção dos ouvintes, pois o objectivo principal é "promover os hábitos de leitura e a valorização, junto dos mais novos, do hábito de contar histórias". Daí esta aposta especial nas capacidades de interpretação e interacção do texto com os cenários e os "contadores de histórias".

Grupo de São Mamede mantém tradição das Janeiras

O Grupo de Cantares "Do Planalto De São Mamede", à semelhança dos últimos anos, continua a manter a tradição de cantar as Janeiras, uma peculiar "saudação" ao Ano Novo. Centrando a sua presença, em especial, na sua freguesia natal, o grupo tem feito algumas deslocações pelo Concelho, com destaque para a vinda à Câmara da Batalha, no dia 24. Estava agendada para o mesmo dia uma visita à colectividade da Golpilheira, mas o grupo acabou por não aparecer.
Refira-se que os donativos alcançados nesta iniciativa revertem a favor das famílias carenciadas de São Mamede.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Nova livraria no CRG!



O Centro Recreativo da Golpilheira tem agora um novo espaço de venda, em parceira com a BUK – Distribuição, onde poderá adquiri os seus livros, nos mais variados temas e estilos literários, desde romance, poesia, contos, infantil, técnicos, apoio escolar, gestão, etc.
Pretende-se que seja também uma oportunidade para a difusão da leitura entre a população, já que ler é das actividades mais saudáveis para cultivar a mente e aumentar a cultura. Ao mesmo tempo, será também mais uma fonte de receita para a nossa associação, que precisa muito da ajuda dos seus sócios para fazer face às muitas despesas que tem na sua actividade diária. Apesar de ser um espaço em colaboração com o Jornal da Golpilheira, os lucros revertem integralmente para o Centro Recreativo.
Por isso, quando pensar nas prendas de Natal e noutras ocasiões, não se esqueça de passar pela colectividade e comprar ali o seu livro!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Encerramento das "Novas Primaveras" 2008

Idosos no centro da festa

Levar a alegria da música, da dança e do teatro aos idosos dos lares e centros de dia é o objectivo do programa "Novas Primaveras" da SAMP – Sociedade Artística e Musical dos Pousos. Em Leiria já acontece há alguns anos e à Batalha chegou este ano, através de protocolo celebrado com a Câmara Municipal, para a Misericórdia da Batalha, o Lar do Reguengo do Fetal e o Centro de S. Mamede.
Durante o ano, os músicos fazem visitas regulares às instituições, cantam e tocam com os utentes, procurando sobretudo que sejam eles os artistas, no contacto com os instrumentos, dando voz às canções que recordam dos seus tempos passados, representando pequenas peças teatrais, sendo, no fundo, o centro da festa. O resultado é uma lufada de ar fresco nos dias, tantas vezes, marcados pela monotonia.
Tal como no ano lectivo, esta iniciativa tem também um período de férias, pelo que marca o seu encerramento, a cada ano, com uma festa em que todos se juntam para partilhar experiências e mostrar algumas das suas habilidades artísticas. Aconteceu na Batalha, no dia 2 de Julho, no pavilhão dos Bombeiros Voluntários, e em Leiria, no dia seguinte, no estádio.
Acompanhámos a festa da Batalha, até porque, apesar de na Golpilheira não haver uma instituição do género, o grupo de ginástica da terceira idade que funciona no nosso Centro Recreativo foi convidado a abrir a sessão. E não deixaram de mostrar como os movimentos ainda estão desenvoltos e fazem bem à saúde. Depois, seguiu-se uma demonstração de cantares, danças e teatro, que bem podiam encher um espectáculo digno de ser visto pelo público. Talvez um próximo passo.
O interesse em que o projecto continue é unânime, como se viu na resposta "Siiim" em coro, à pergunta do presidente da autarquia: "querem mais, para o ano?". António Lucas, que por ali passou para cumprimentar os presentes, manifestou o seu contentamento pela receptividade ao projecto e respectivo sucesso, deixando a promessa de que "para o ano, vai mesmo haver mais".
Os animadores do projecto, sob a direcção de Paulo Lameiro, executaram também algumas músicas e danças, em interacção com os mais velhos, qual orquestra de improvisos ensaiados. Um quadro digno de emoldurar nas memórias de quem o viveu e que ilustra de sorrisos este trabalho inovador, onde o mais importante são as pessoas e os valores que lhes permitem continuar a sonhar… e a viver.
Luís Miguel Ferraz

Milagres de um Trovador
Estou sentada faz mais de 30 anos nesta cadeira.
Um destes dias apareceram aí umas meninas todas gaiteiras com umas guitarras na mão. Fizeram-me lembrar quando eu era nova e andava de romaria em romaria. Ai, a música!!! Bailámos uma moda sem tocata, e uma valsa fina. Calhou-me no par um senhor todo bem-posto ali no lar da Misericórdia. Elas fizeram teatro, o rei vai nu. Ele nu não ia porque eu vi-lhe as ceroulas e foi uma risota pegada.
Disseram versos bonitos. Do Reguengo desceram os cantos da serra e da Senhora do Fetal, da Batalha dançaram bengalas. Lembro-me bem daquela senhora que se chamava Do Mar. Aquela garganta é uma alma boa, e como foi ela engendrar uns versos daqueles. Quando tocámos aquelas gaitas de bater com pauzinhos até se me arrepiou a pele toda. Era da Carreira. Agora me lembro que a senhora era da Carreira. Mas quando aparece a Rainha Santa com o balão amarelo lembrou-me a minha mais nova que gostava de brincar às princesas. Não sei o que é feito dela porque nunca mais a vi. Eu sei meu amor, que não chegaste a partir!
O Rei D. Dinis teimou com ela que trazia um balão. Não era. Eram coisas importantes para a vida. Cantigas de amigo e de Amor. Para maldizer basta a outra que dorme no meu quarto. Eles cantaram tão bem que não me apetecia sair dali. Perguntou-me o Rei o que era mais importante para mim. A Saúde, pois então. E a Fé. Os amigos e a família. A Música também!
Paulo Lameiro

As danças lúdicas

Continuamos a falar dos passos.
• Passo de Galope – Este passo é justamente o antecessor do passo de enlaçados e com o fim criado pelos rapazes, para até certo ponto não poderem "bailhar", como tanto queriam, de par juntos, em virtude de os pais e mães das raparigas a isso não estarem dispostos a autorizar. É um passo de agarrados, em que os rapazes se agarram ao nível do braço e não antebraço, note-se. É muito usado em danças de roda, em que moços e moças rodam saltando.
Não se julgue contudo que, mesmo assim, foi este passo bem aceite pelos guardiães da moral e dos bons costumes. Contava a nossa avó que, no seu tempo de rapariga, havia na Calvaria um moço – que devia ser "melrinho de bico amarelo" – que terminou com a namorada que em tal "bailhe" iriam "bailhar" em passo de galope. Se bem o disse, melhor o fez. Mas como ao tempo era de bom-tom as mães acompanharem as filhas à dança, vai daí, a decidida mulher chega-se junto do par, faz "linha de sapateiro" e aparta o moço da rapariga. O rapaz, que devia ser versejador repentista, canta-lhe de imediato esta "alha":
Santa Quitéria de Meca
Minha sogra está danada
Quis agora morder na filha
E a mim deu-me uma dentada
Este episódio, aqui retratado por este belo "mote", mostra bem como a sociedade aldeã de outros tempos era ciosa da boa moral e bons costumes, na nossa comunidade.

• Passo de enlaçados – Suscitou grande controvérsia a entrada deste passo nas nossas danças aldeãs. Ao que certos etno-coreógrafos dizem, foi introduzido em Portugal aquando das invasões francesas, na primeira década do século XIX – 1807-1810. Embora já na última vintena do século XVIII (1780/1790) a valsa fosse conhecida como dança de salão, só chegou a Portugal cerca de um quarto de século, depois de largamente difundida na Europa. Será originária da Áustria, onde compositores como Strauss, pai e filho, compuseram as valsas mais belas. O pai viveu de 1804-1849 e o filho de 1825-1899, ficando até conhecido pelo "Rei das Valsas".
Dança que obrigatoriamente tinha de ser "bailhada" em passo de enlaçados, até certo ponto, e pela sua novidade, foi bem aceite por algumas camadas aristocráticas da época, onde até então as danças do ponto de vista moral não iam além dos castos "passos de contacto", ou de "passe, passe". Era uma dança de elite, que passou paulatinamente dos serões aristocráticos da alta nobreza das capitais para as salas solarengas da baixa nobreza provinciana. Foram estes bailes frequentados por um ou outro oficial napoleónico, por mais estranho que pareça, e espalharam no meio rural e entre o povo esta bonita quão atraente dança.
Os pares mutuamente se puxavam e, por vezes, com atrevida notoriedade, o que levou muitos moralistas do tempo a uma acentuada repulsa. Não pela dança em si, julgamos, mas pela maneira como os pares se enlaçavam, que ainda nos dias de hoje, no meio popular aldeão, existem ditos bem comprovativos da sua não aceitação, por certas camadas mais conservadoras do povo, como: "convite à valsa", "valsa emborcada", "valsa da meia-noite", "valsa de quatro joelhos". Todas estas expressões significam relação sexual, cópula. E além disto, ainda havia certos moralistas que consideravam a dança da valsa, a verticalização de um acto puramente horizontal, logo uma cópula também.
Não se ficavam por aqui as maledicências, quanto a esta dança. Havia outras como: "Salsifré", "Ferrumfunfum" ou "Forrobodó". Por estes vocábulos, tipicamente populares, significam, nada mais, nada menos, que certos "bailhes" eram, e não poucos, consoante os locais onde fossem realizados – que não as casas dos tais moralistas – danças de gente reles, ordinária.
Claro que nem sempre assim seria, pois que a mocidade não era assim tão mal comportada, que descaradamente nos "bailhes" fosse além de certos actos menos respeitosos, para com a tradicional regra de condutas da comunidade. É que as moças e moços preocupavam-se mais em fazerem boa figura nas danças, do que estarem a pensar em lúbricos desejos. Um ou outro caso pontual não fazia regra. Havia até muito boa gente que, com o andar dos tempos, não se coibia de dançar a valsa, percebendo que usando da devida compostura nada havia de mal no bonito "passo de enlaçados".
Alberto Gomes de Sousa

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Feira Medieval da Batalha apontada ao futuro

Reconstituição da Batalha Real de 1385

De 13 a 15 de Junho, a Batalha vai voltar ao ano de 1385, com uma recriação histórica do ambiente e da vida quotidiana medieval. O ponto alto será a reconstituição da própria Batalha Real, com cerca de 80 "combatentes".

O campo do Crasto, por detrás da zona desportiva da vila da Batalha, recebe, de 13 a 15 de Junho, um evento que promete captar a atenção do público. Sob o nome "Batalha Medieval - 1385", será uma grande produção que reconstituirá a mística do ambiente vivido no período medieval, com particular incidência para a recriação da Batalha Real de 14 de Agosto (posteriormente conhecida como Batalha de Aljubarrota), com mais de 80 figurantes, metade dos quais locais.
Com um orçamento de cerca de 60 mil euros, a organização é da Ordem da Cavalaria do Sagrado Portugal (OCSP), contando com o apoio do Município da Batalha, da Fundação Batalha de Aljubarrota (FBA), das entidades Passado Vivo e Recrear História, e ainda do Governo Civil de Leiria, do Turismo de Portugal e da empresa Impornogueira.
O evento foi apresentado em conferência de imprensa, no passado dia 16 de Maio, e promete "fazer reviver o quotidiano deste acontecimento marcante para a história de Portugal, bem como para o surgimento desta vila", como salientou Alexandre Cabrita, da OCSP, adiantando que se pretende sobretudo "uma actividade para toda a família, com um programa diversificado e de fácil acesso, onde haverá a participação de associações e escolas do Concelho". Para tal, durante estes três dias, haverá animação diversa, com artes circenses, música itinerante, um grande mercado etnográfico, tavernas e tasquinhas, torneios a cavalo e combates apeados, demonstrações de falcoaria, apontamentos históricos e gastronómicos, trabalhos artesanais e de cantaria, actividades interactivas com o público, em oficinas de artes militares, danças tradicionais e música medieval, e ainda uma zona infantil com insufláveis, jogos e outras propostas.
O ponto alto do programa será, claro está, a reconstituição da Batalha Real, ou de Aljubarrota, no sábado, dia 14, pelas 21h30, com cerca de 80 figurantes nacionais e internacionais, sendo cerca de metade recrutados na nossa região. A colaboração local é, aliás, uma das preocupações da organização, pois pretende-se também "uma vertente pedagógica do evento, na promoção cultural e artística da história, o que só é verdadeiramente conseguido quando as crianças, jovens e adultos não são meros espectadores, mas participam activamente na sua realização", referiu Alexandre Cabrita. Assim, no total dos cerca de 150 figurantes, cerca de 80 vêm das escolas e associações do concelho da Batalha e zonas limítrofes. "Os nossos voluntários virão trajados com todo o rigor histórico, enquanto aos locais, responsáveis pelo seu próprio guarda-roupa, apenas exigimos alguns requisitos obrigatórios de indumentária e uma pequena formação sobre a sua participação; mas consideramos mais importante o envolvimento das pessoas do que o absoluto rigor histórico, sobretudo nos espaços mais ‘informais’ da feira, como as tasquinhas de comércio e gastronómicas", adianta aquele responsável. Daí que até aos visitantes seja sugerido que, caso o desejem, enverguem alguma peça de vestuário adequada à época medieval, de modo a "entrarem mais activamente no espírito do evento". A própria escolha da data, em Junho em vez de Agosto, visou potenciar a participação das escolas, que estariam fechadas naquele mês, ao mesmo tempo que evita a sobreposição com a feira medieval que já se realiza em Aljubarrota anualmente a 14 de Agosto.

Potencial turístico
Alexandre Patrício Gouveia, presidente da FBA, salientou, na mesma apresentação, o potencial turístico deste tipo de eventos, como são exemplo algumas realizações do género por toda a Europa. "São espectáculos de qualidade, para um público cada vez mais exigente e com maior formação cultural", e neste caso concreto, "dada a importância desta data e deste local para a história nacional e internacional, prevemos um grande sucesso da iniciativa e um posterior alargar do seu âmbito aos concelhos vizinhos, sobretudo Porto de Mós e Alcobaça, bem como a outras regiões do País e mesmo estrangeiro", afirmou.
Também António Lucas, presidente da autarquia, manifestou o seu optimismo em relação à actividade, salientando que "este primeiro ano servirá de teste, mas esperamos que este se torne um evento anual de especial relevância na programação cultural do concelho". O autarca lembrou a aposta que o executivo tem vindo a fazer na "promoção de rotas turísticas de qualidade, para dinamizar e dar a conhecer a nossa história e património cultural", esperando que este seja mais um desses exemplo, inclusive, com "a conquista de parcerias e nível regional e nacional" nesse sentido.
Para tal, irá ser feita uma ampla divulgação junto das escolas de todo o distrito de Leiria e em diversos meios de comunicação a nível nacional.


Horários e acessos
A abertura será na sexta-feira, dia 13, pelas 18h00, com um torneio a cavalo, ficando o recinto aberto até às 24h00. Este será também o horário do dia seguinte, onde se destaca, como referimos acima, a reconstituição da Batalha, pelas 21h30. No domingo, a feira abre às 12h00 e encerra às 18h00, destacando-se, pelas 16h00, o "recontro final", uma demonstração de lutas medievais pelos colaboradores do Passado Vivo.
O acesso ao recinto faz-se pela estada que liga a zona desportiva da Batalha à Faniqueira, servindo de estacionamento os parques juntos ao pavilhão multiusos.
As entradas diárias têm o preço de 3 euros por adulto e de 2 euros por criança (dos 5 aos 14 anos), mas haverá diversas promoções, mediante a apresentação do folheto ou recorte da publicidade do evento na imprensa: entrada grátis a uma criança ou a um adulto, na compra de dois bilhetes de adulto. O pagamento poderá ser feito por cartão multibanco.

Luís Miguel Ferraz

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Tradições de Natal...

Fogueiras de Natal e Fim-de-Ano
Recorrendo à nossa memória de há cerca de trinta ou quarenta anos, era normal observar diversas fogueiras na nossa localidade, que por vezes duravam da noite de Natal ao Ano Novo. Tanto no Outeirinho, na Golpilheira, como no largo do Casal Mil Homens ou no largo da Cividade, era normal acontecerem estas manifestações populares.
Os anos foram passando e estas tradições quase foram extintas, substituídas por outras de muito maior comodismo. No entanto, com a boa vontade de alguns, estas fogueiras têm sido recuperadas, como aconteceu no último Natal e Ano Novo. No largo da Cividade e no largo junto ao "poço do povo" no Carvalhal, foi com alegria que verificámos estas iniciativas da população local.
Já não está mau, para começar, mas há outras tradições que era importante recuperarmos nos próximos anos: fazer filhós e distribui-las à fogueira, andar de porta em porta na noite de Natal a cantar os versos do "Menino Jesus", tocar os sinos nas noites de Natal e da Passagem do Ano, etc. Fica aqui este alerta. Devemos continuar a honrar os nossos antepassados.
MCR


Presépios e animação de Natal na Pia do Urso
Decorreu durante o mês de Dezembro, na aldeia da Pia do Urso, em São Mamede, uma exposição de presépios de rua construídos pelos habitantes daquela localidade.
A complementar, foram convidados o rancho folclórico da "As Lavadeiras do Vale do Lena", da Golpilheira, e o "Grupo de Amigos das Concertinas", para animarem musicalmente a tarde do domingo 23, num programa musical bem tradicional.
Assim, a par da paisagem natural verdadeiramente deslumbrante e do magnífico trabalho de restauro das habitações típicas desta região serrana, em que a pedra e a madeira se assumem como os principais materiais utilizados, os visitante puderam apreciar um movimento adicional nesta pequena aldeia.
Uma ideia a repetir, para cativar ainda mais pessoas a este espaço, que é também o primeiro ecoparque sensorial do País, onde os cidadãos invisuais e com outras deficiências podem apreender o meio envolvente através de vários apoios ao uso do tacto e do olfacto.


Construções Cesário Batista fez festa de Natal para colaboradores e amigos
É tradição natalícia das empresas realizar-se um convívio de funcionários ou colaboradores mais próximos. Aproveitando esta quadra tão especial, é uma ocasião propícia para estreitar laços de amizade entre todos e para premiar o esforço e dedicação de todos os que, durante o ano, contribuíram para o sucesso das actividades realizadas.
Este ano, a empresa Construções Cesário Batista não quis limitar a festa aos seus funcionários e alargou o convite a fornecedores, clientes e amigos, acabando por juntar algumas dezenas de pessoas nas suas instalações, num animado convívio de Natal. Para satisfazer o apetite dos convidados, foi apresentado um porco no espeto, entre outros petiscos, acompanhados de bom vinho da região e bebidas variadas.
O Jornal da Golpilheira também foi convidado e deixa aqui o registo de uma simpática iniciativa, onde marcou presença grande parte dos empresários e outros habitantes da freguesia, para além de muitas outras pessoas que se relacionam regularmente com esta empresa de construção.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Adriano Moreira falou da "insegurança mundial"

"Valores têm de ser o eixo da roda"
"Não é para entrarmos em pânico, mas devemos tomar consciência da insegurança em que estão as sociedades actuais e a nossa vida pessoal, e agir em conformidade, segundo o lema de ‘saber tudo, compreender tudo, melhorar um bocadinho’". Assim concluiu Adriano Moreira a sua conferência, na Batalha, no passado dia 10, sobre o tema da "insegurança mundial".
Cerca de duas centenas de pessoas marcaram presença nesta iniciativa, promovida pela Cáritas de Leiria, Comissão Diocesana Justiça e Paz, Câmara da Batalha e Rádio Batalha, no âmbito da operação "Milhões de Estrelas – um gesto pela paz", que terminou em festa, no dia 15 (ver pags. 4 e 5). A presidir à sessão esteve o Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto.

Leitura histórica
Numa verdadeira "lição de sapiência", este conceituado professor – político, jurista e homem da cultura – apresentou a sua visão da realidade actual, partindo de uma leitura dos momentos-chave da história portuguesa e mundial, sobretudo do último século, para uma compreensão da verdadeira natureza da incerteza em que se movem os Estados e as pessoas nos nossos dias. E quanto a perspectivas de futuro, apenas o conselho que afirma deixar também aos seus alunos: "Imaginem pelo menos três cenários alternativos e esperem que aconteça algo diferente… ou então, perspectivem apenas a muito longo prazo, para que não haja testemunhas".
Considerando que "vivemos uma realidade virtual, construída primariamente pelos meios de comunicação social", Adriano Moreira lembrou a dificuldade de adequação às novas realidades sociais, que se renovam constantemente e obrigam a permanentes ajustes, já não fundadas nas "certezas históricas em que fomos educados", mas ao sabor das "inovações da ciência e da técnica, que poucos controlam e cujos efeitos colaterais afectam a muitos". Deu como exemplo as novas fronteiras dos Estados, não já "as fronteiras sagradas que se defendiam com o sangue dos patriotas e que agora não passam de apontamentos administrativos", mas novos limites ditados pela economia, pelos pactos militares e por movimentos desregulados de migração". A mesma instabilidade das sociedades civis transfere-se para o "projecto de vida das pessoas e para as estruturas familiares, laborais e outras", bem como para o nível das relações internacionais. E daí o perigo para a paz.
Num discurso claro e vivo, o professor lembrou que "vivemos as guerras mundiais, que foram autênticas guerras civis da cristandade, da Europa a combater os seus próprios demónios internos; vivemos cinquenta anos de medo recíproco, sob a ameaça da destruição total da humanidade, numa tentativa falhada de organização da paz pelas Nações Unidas, que mais não era do que a dependência de quem detinha a domesticação da energia atómica; vivemos na ilusão de que a queda do muro de Berlim significava o fim da história, com a vitória definitiva da democracia e capitalismo ocidentais; e vemos agora que as novas fronteiras são as da geografia da fome, numa ordem mundial que não está em nenhum tratado, e que coloca frente a frente os ricos detentores da ciência e da técnica e os pobres que recebem apenas pingos desse poder e que usam sob a forma de terrorismo".

Busca do caminho
Perante esta realidade, que solução? Voltamos ao diálogo com o inimigo armado ou destruímos todos os que são uma ameaça? Trata-se de um mero conflito de culturas ou de religiões? "O principal problema reside na dúvida do mundo sobre a escala de valores a adoptar, perante o confronto das diferentes áreas culturais que, após os processos de descolonização, pela primeira vez na história, começaram a falar com voz própria, apresentando as suas próprias convicções e leituras da realidade, mesmo a nível religioso". A este propósito, usando a imagem da roda, Adriano Moreira referiu que "a realidade é como a roda, que está sempre em andamento e mudança, e cujo eixo são os valores, que acompanham a roda mas não andam". A única solução será, então, encontrar uma escala de valores universais que permitam o diálogo intercultural e inter-religioso, potenciando movimentos como o ecumenismo e o respeito pelas diferenças, "pois, sem valores, o poder da palavra não é suficiente nem eficaz".
Esta foi a ‘deixa’ do conferencista, apontando para o papel de cada um de nós nessa construção da paz. "Não é para entrarmos em pânico", pois a esperança deve ser "a última a morrer", mas antes uma chamada de atenção para o facto de cada um, perante esta realidade, poder "melhorar um bocadinho". Como exemplo final, o professor lembrou alguns "santos na política", que fizeram a diferença ao apostar no valor da verdade, como foi o caso de Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, bem como o papel fundamental de João Paulo II no contexto do encontro de religiões.
LMF